Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011
AS MÃES DE SÃO JORGE

 

O Olhar de um Observador Especial...

 

Nunca saiu de São Jorge. Ninguém terá passado tanto tempo a ver, sem ser visto, a ouvir desabafos, conversas, queixas, tramóias… mesmo junto a si…

 

 Há quem partilhasse segredos tão perto dele que, vendo-o, não se apercebia que ele os ouvia, os entendia… não precisavam de falar para ele ficar a saber, sentindo e sofrendo tudo aquilo que sentiam e sofriam os que passavam perto de si…

 

Mesmo que não quisesse… ouvia!
Mesmo que não quisesse ver… observava!
Mesmo que não quisesse sentir… experimentava a angústia dos que desesperavam!
Mesmo quando não sentia alegria… ficava entusiasmado com a ingenuidade e a felicidade… especialmente das crianças, particularmente quando paravam perto de si!

 

Também a Nathalie e o Tonito, ainda crianças, partilharam os seus ingénuos planos futuros, mesmo ao pé de si… sentia que eles experimentavam uma serenidade especial quando estavam mesmo perto dele…

Ele pressentia o que eles sentiam…


Mas ele estava e está prisioneiro de si mesmo! E lá continua assim, ano atrás de ano, primavera atrás de primavera, inverno após inverno… Há quanto tempo? Não faço ideia…

 

Gosta particularmente de ver as crianças... ultimamente tão raras!  Assustava-se com as brincadeiras perigosas, especialmente na altura das festas em que as crianças iam às canas e apanhavam as bombas dos foguetes que não rebentavam… aí sim… assustava-se… temia por elas… e assistiu impotente a vários acidentes, sempre resultantes de brincadeiras perigosas…

 

Como se assustava quando – no pino do calor – as crianças mais afoitas se atiravam para dentro das presas, sem saberem nadar, espicaçadas pelos outros miúdos, muitas vezes mais velhos, mas mal formados e inconscientes…

 

Assistiu a muito… a tragédias… vidas levadas pelas cheias dos ribeiros, pelas enxurradas súbitas … acidentes no salta-e-pilha…bulhas por causa de… nada, discussões e insultos por causa das horas de água de rega…; também ouvia as carlotices quando se lavava a roupa nos ribeiros e se punha a corar nas pedras e silvados que bordejavam os lavadouros…

 

Mesmo aquilo que a sua visão não alcança é-lhe partilhado e comunicado pelos seus parentes que, como ele, estão sempre presentes nos seus locais… há muito… mas muito tempo.

 

Alguns parentes seus já desapareceram ou alguém os fez desaparecer precocemente… ele próprio já foi ameaçado várias vezes, mas ou porque alguém o protegeu, ou por puro golpe de sorte… lá se tem safado ao longo dos anos… muitos mesmo!

 

Mas não é de si que quer falar… nestes muitos, mas muitos anos de muito ver, muito sentir, muito reflectir…

 

 Quer falar das Mães… sim, das Mães de São Jorge… Tão banalizadas e ignoradas, mesmo pelas outras mulheres, mas, ao mesmo tempo elas foram e são quem dá sentido à cultura e à maneira de ser desta comunidade que, com altos e baixos, vai sobrevivendo por esta meia-encosta acima… São Jorge.

 

Viu mães de São Jorge darem à luz…sozinhas, não por vergonha, mas por humildade e pobreza… e não raras vezes os seus homens estavam na taberna!

 

Viu mães, que antes de o serem biologicamente, foram-no emocionalmente, quando, ainda crianças de sete e oito anos, cuidavam de irmãos recém-nascidos ou com meses…

Muitas mães foram-no, sem o serem!

 

Viu mães irem trabalhar para as hortas, irem lavar a roupa ao ribeiro, às segundas-feiras, e levarem os seus filhos de dias ou com meses, no alguidar, no cesto ou mesmo no barleiro à cabeça…

Viu mães com os filhos ao colo e um molho de mato à cabeça…

 

Quando a vizinha não tinha leite materno para a sua criança, outra vizinha com um recém-nascido partilhava os seus peitos com o seu filho natural e o seu filho de leite… Chegou a ver mães que perderam o seu bebé, darem o peito ao filho da vizinha, com as lágrimas a correrem pelas faces…

 

Viu mães a mastigarem batata até ficar puré, a meterem a colher à boca e tirarem aquele puré e a alimentarem os seus bebés…

 

Viu mães a chorarem em silêncio e às escondidas porque os seus filhos foram selvaticamente agredidos na escola, ou na doutrina… mas em público sentiam-se coagidas a dizerem “só se perdem as que caem no chão…”

 

Viu mães serem abusadas e agredidas por homens que depois se desculpavam dizendo que não foram eles, mas… o vinho!

 

Viu tantas mães a economizarem e a gerirem laboriosamente casas cheias de bocas com umas notitas e algumas moedas, a maioria das vezes tiradas á socapa dos bolsos das calças de ganga dos homens toldados pelo vinho…

 

Viu mães irem buscar os seus homens às tabernas, sendo agredidas pelos seus e humilhadas pelos companheiros das comezainas…

 

Viu mães terem que fazer de parteiras consigo próprias, com as filhas, com as irmãs, com as vizinhas…

 

Viu mães terem de amortalhar os seus filhos roubados em tenra idade… ou já mais velhos… ou os seus pais… ou os vizinhos…

 

Viu mães irem a pé, em manhãs gélidas, com as crianças ao colo, carregadas de febre, até ao médico, à Panasqueira e terem que esperar horas… e muitas vezes passando-lhes à frente os filhos deste e daquele…porque gente mais importante!

 

Viu mães a quererem tomar o lugar dos seus quando a Guarda os queriam levar presos…

 

Viu mães a trabalhar como mineiros à Pesquisa das Courelas, a escombarar ao Vale-do-Muro como cavadores, a caiarem as casas como pintores…

 

Viu mães a cantarem no coro da Igreja, como ninguém… a fazerem filhós inigualáveis, a cozinharem as couves com feijões com um paladar único no mundo… a remendarem aquelas calças a que o filho se afeiçoara de tal modo que nem parecia que se tinham rasgado…

 

Sim, o nosso observador e os seus parentes têm visto mães… sim muitas mães… e elas, sempre, a seu modo, dão tudo de si, o que sabem e o que não sabem…sem pedirem nada em troca.

 

E  partem… sim partem, para ao pé de outras mães, também das suas mães, das suas irmãs, das suas vizinhas e as outras, as que cá ficam, acompanham-nas e dão continuação ao seu legado, ao seu testemunho…

 

É pena que esta crónica nos seja narrada por este observador especial, com ajuda dos seus parentes, que não sendo gente, mais parecem aquela gente, que não temos tido tempo para ser… sim nós, todos nós, que fomos e seremos sempre o motivo de orgulho e a razão de ser desta energia inesgotável, imparável das Mães de São Jorge.

  



publicado por CorteVale às 01:20
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