Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Ilustres São-jorgenses

 

Um grande Homem de Cebola
 
Chama-se Albertino por uma razão especial.
Podia chamar-se Augusto ou Manuel, ou mesmo Joaquim ou…
 
 
Tinha mesmo que parar!
 
Os pulmões pareciam que iam rebentar a todo o momento.
Albertino arfava descontroladamente a subir a vereda empinada para o Vale-de-Ermida…
 
Sentou-se numa pedra fria já perto da boca da mina, onde já dava o sol matinal daquele domingo gelado dum inverno duro, nos idos anos de 61!
 
- Maldita sorte, murmurou Albertino… A caminho dos 41 e já se sentia corroído pela maldita silicose…
 
Com cuidado e afecto, poisou o cabrito que trazia como um cachecol à volta do pescoço, afagou-o e protegeu-o do frio, metendo-o na saca que tirou do bolso do casaco de ganga azul e aconchegou-o no seu colo.
Do outro bolso tirou a onça de tabaco e começou a enrolar um cigarro, enquanto apreciava a vista parcial que tinha de Cebola… Dali via o Pombal, o Rodeio, a Capela, uma nesga do Povo e claro os Torgais…
 
Saíra de casa ainda não tinham dado as 6 da manhã no sino da Igreja e já tinha andado quase 1 hora… Saiu ainda estava bem escuro, pois ninguém precisava de saber aonde ia… mas a geada era muita… teve que ter muito cuidado a descer ao Cascalhal, onde havia degraus cheios de gelo; também ao subir a canada do Ribeiro-do-Souto todos os cuidados foram poucos… ainda lhe soava o barulho característico das suas botas cardadas a pisarem a terra encramelada, ao passar junto aos pinheiros da Abesseira…
 
Passada a barreira branca teve que começar a ter cuidado com os desmontes, as torvas, as pequenas minas e as trincheiras abertas pelo pessoal do salta-e-pilha… onde também trabalhavam as suas irmãs e o irmão dispensado da Mina!
 
Apesar de tudo Albertino considerava-se um homem com sorte… tinha escapada à lista dos dispensados das Minas, pois continuavam a considerá-lo um mineiro de primeira!
 
Teve que concentrar-se ao passar pela Fraga Alta, pois aí o gelo estava bem mais perigoso e um tombo daquelas alturas era morte certa!
 
O pior era a maldita silicose, pensou ele!
 
Já com a respiração mais calma e com o cigarro a meio lembrou-se da tristeza que estariam a sentir os seus filhos mais novos… A mulher bem lhe disse às 4 da manhã…
- É melhor levantares-te já, Albertino… a ver se as cachopas não dão conta que levas o cabrito da Charentita… senão é uma choradeira.
 
Depois da dejua, por volta de cinco e meia, Maria meteu-lhe uma bucha no bornal que o acompanhava sempre que saía por umas horas; Albertino foi espreitar o quarto das 4 cachopas que dormiam sossegadas, duas para a cabeceira e duas para os pés da cama e no quarto de baixo, ao lado da loja os 3 cachopos, mais velhos, também estavam ferrados a dormir!...
Dois já trabalhavam na Correia e era do futuro deles que era preciso ir tratar! Seria bem-bom que o Sr. Engenheiro os conseguisse puxar para a Carpintaria ou para a Oficina… o mais velho até se ajeitava bem com as coisas da luz eléctrica!
 
Queira Deus que se livrem da Silicose! Murmurava enquanto olhava a serra do Picoto esbranquiçada e mordiscava o cigarro que lhe queimava a garganta sempre que dava uma fumaça!
 
Pois. Era por causa da Mina que ia esta manhã friorenta a caminho da Barroca Grande!...
 
Evitou passar à boca da galeria para não ser visto pelo guarda e estugou o passo já no estradão mais plano. Queria ver se ainda conseguia regressar a tempo da missa das 11, pois também não queria dar explicações a ninguém…
 
A parte mais difícil já estava!
 
O cabrito pressentia que tudo ia ser diferente e ao Albertino doía o coração sempre que sentia os seus gemidos misturados com o hálito quente que lhe aquecia o pescoço.
 
Ainda experimentou a dúvida… ainda hesitou e esteve a um passo de voltar para trás, mas a dureza da vida e o futuro dos cachopos plantava-se-lhe ali à frente… Estas dúvidas dissiparam-se quando, subitamente, começou a ver, lá em baixo, o aterro da Barroca Grande e a Lavaria à esquerda, enquanto que o Hospital das Minas lá estava ao fundo à direita da estrada... Também as carreiras com as pequeninas casas dos mineiros à esquerda da estrada e… ironia das ironias a Capela ficava do outro lado da estrada, do mesmo lado das vivendas do staff, assim como o Escritórios das Minas, onde semanalmente ia receber a jorna de 90 escudos, num envelope que cuidadosamente guardava no bolso interior da jaqueta de trabalho e entregava religiosament à sua Maria, mal chegava a casa, ao fim do dia… Como a estrada serpenteava pela encosta abaixo e separava dois mundos bem diferentes!
 
Albertino afastou estes pensamentos desestabilizadores; problemas já tinha de sobra… as 8 bocas lá de casa não permitiam grandes ousadias!
 
Evitou a estrada, optou pela vereda que passava por trás dos Escritórios das Minas e embrenhou-se por entre sebes, ciprestes e árvores de grande porte que ladeavam e escondiam as vivendas dos Senhores Engenheiros… Por voltas do campo de ténis viu que ainda era cedo – oito menos um quarto – e resolveu esperar uns minutos mais… até às 8, oito e picos! Com o lenço vermelho enxugou os suores frios que lhe humedeciam o cabelo e o pescoço, ajeitou a gorra, vincou o casaco de ganga azul, limpou as botas cardadas numas ervas que cresciam mesmo junto à sebe, acalmou o cabrito e voltou a resguardá-lo na saca…
 
Enrolou mais um cigarro e puxou umas boas fumaças mesmo atrás da sebe que escondia a casa do Sr. Engenheiro.
 
 Timidamente espreitou por cima da sebe e pareceu-lhe ver o Sr. Engenheiro a terminar o seu pequeno almoço e a ler o jornal na sala de estar da casa, ao lado de uma acolhedora lareira, onde crepitava um lume acolhedor…
 
Albertino acabou o cigarro, esperou mais uns minutos, ganhou coragem e depois de respirar fundo e voltar a ajeitar a gorra dirigiu-se à porta da casa e, antes de bater, deixou a saca com o cabrito a uns metros, mesmo atrás de um canteiro e… tocou a campainha.
 
A porta abriu-se e uma empregada elegante, num bonito avental imaculadamente branco, com um peitilho cheio de rendas azuis e de olhar penetrante inquiriu…
- Bom dia, que deseja?
- Bom dia menina, desculpe-me bater tão cedo, retorquiu o Albertino. O Sr. Engenheiro está? Queria dar-lhe uma palavrinha, se faz favor…
A zelosa empregada, vendo-o de mãos a abanar, reagiu de imediato…
- Não, não está.  Com sua licença… E fechou-lhe a porta na cara.
 
Albertino ficou surpreso! Saiu para o pátio, pegou na saca com o cabrito e regressou para trás da sebe e voltou a espreitar a sala e confirmou que o Sr. Engenheiro já tinha acabado de comer e continuava a ler o jornal, agora sentado num sofá mesmo ao lado da lareira…
Deixou passar uns bons 15 minutos e voltou a fazer tudo como dantes; escondeu o cabrito, ajeitou a gorra, esticou o casaco de ganga azul, limpou as botas e voltou a bater à porta…
A empregada com pouca elegância respondeu-lhe com alguma aspereza, depois de o ver de mãos vazias, que o Sr. Engenheiro não estava!!!
 
Albertino não queria crer no que via e ouvia… sem deixar fechar a porta pegou na saca e apertou com força o pescoço do cabrito; este berrou, ouvindo-se um prolongado e altíssimo mééééééééé!!!
 
De imediato se ouviu a voz do Sr. Engenheiro:
- Entre! Entre. E dirigiu-se para a porta, convidando Albertino a entrar!
- Entre, se faz favor….
 
Oferecido o cabrito, uma prenda dos cachopos que trabalhavam na Lavaria e conseguida a promessa do Sr. Engenheiro de que iria fazer os possíveis pelo futuro dos cachopos, e que era capaz de arranjar umas vagas na Oficina e encaixá-los lá, Albertino desculpou-se por ter incomodado e despediu-se, prometendo um presunto, o paio do porco e umas chouriças de lombo lá para o Carnaval…
 
Estugou o passo estrada acima, pois já tinham batido as 9 horas havia um bom bocado…
 
No caminho, ainda teve tempo para meter qualquer coisa na boca… a bucha que a mulher lhe meteu no bornal soube-lhe que nem ginjas… meia morcela com uma boa fatia de broa e a acompanhar duas boas goladas da bota de vinho…
 
Quando descia a canada para o Ribeiro-do-Souto tocou à missa, eram dez e meia… ainda conseguia chegar a tempo da missa das 11!   
 
   
Depois da missa e já à mesa para o almoço de domingo, a duas semanas do Natal de 61,  Albertino teve de reconfortar as filhas magoadas e cheias de saudades e com pena do cabrito da Charentita, que iria certamente preencher uma das refeições do Sr. Engenheiro, enquanto que as 9 bocas da casa do Albertino depois de uma malga de sopa das couves com feijões, começavam agora o segundo, uma grande travessa de barro com o enxume das couves e feijões, regadas com azeite e 3 bocados de entremeada…
 
Os 9 rostos desta família aproximaram-se, agradeceram a Deus este almoço, fecharam-se num círculo apertado e de furchetes e colheres em punho, e com fatias de broa de milho na outra mão atacaram alegremente as couves com feijões fumegantes…   
 
 Albertino olhou para a sua família humilde, mas momentaneamente feliz… experimentou uma sensação de paz interior, pois começou a acreditar que os seus filhos não iriam apanhar silicose!
 
publicado por CorteVale às 00:54
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3 comentários:
De Vitor a 18 de Fevereiro de 2009 às 22:12
Belo texto Horácio para recordar estas cenas oportunistas de quem geria a sua dispensa ao ritmo da debilidade e necessidade de terceiros. Fico espantado com o realismo que imprimiste à tua viagem, os locais, os arbustos, as veredas... eram mesmo assim! Brinquei muito por ali e corrias todas, nos dias da minha infância,

Aproveitando o texto do Horácio, podemos comparar o decoro de quem, prescindindo de alguns bens essenciais, usava veredas para não ser visto a "pedir" para lhe melhorarem as condições de trabalho dos filhos, com o verdadeiro "regabofe" que vai por esse Portugal, com "tios", "sobrinhos", "primos", Conselheiros de Estado, ex Ministros e Deputados! Tudo "escarrapachado" na nossa frente e sem ninguém com um pingo de vergonha!

Um abraço,
Vitor
De Joaquim Barata a 19 de Fevereiro de 2009 às 06:08
Horácio;a tua linda história é na verdade uma realidade daquilo que os nossos olhos presenciavam nessa época de 61.Tinha eu 20 anos,trabalhava nessa altura na oficina mecániaca na Barroca Grande.Como fazia trabalhos nas casas de Engenheiros e Capatazes,eu cheguei a ver o que tu contas.Se levas presentes és recebido com toda a amabelidade,se vais de mãos vazias nem a porta te abrem.Mas é de louvar esses Pais que tiram a boca muitas vezes o que certamente fazia falta em casa para sustento da familia,para que seus Filhos possam ter um trabalho mais digno e não lhes venha a acontecer o que aconteceu a tantos São-Jorgences que aos 40 anos estavam cheios da maldita "SILICOSE"Um Abraço e continua oferecendo-nos estas ril hstórias das nossas gentes
De Antonio Cruz Ramos a 11 de Abril de 2009 às 00:21
Gostei. Muito bem escrito. Um espelho de muita gente em S. Jorge do tempo dos Senhores engenheiros.
Cumprimentos
Antonio

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