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Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

ONDE TRABALHAMOS HOJE?

Hoje o "escritório" de muita gente fica... algures... em qualquer parte do mundo!

Para uns é inimaginável e inconcebível trabalhar umas semanas com as Lideranças dos Correios em Atenas, no mês seguinte com gestores da DHL, em Bona, ou estar pelo Carnaval com equipas do Banque Postal em Paris, próximo da Páscoa estar com Directores Provinciais em Luanda e pouco depois regressar a uma agência europeia em Bruxelas, ou dar um salto a um Banco em Colónia, ou mergulhar numa multinacional em Istambul, ou estar uma semana em Faro com Médicos a finalizarem a sua Especialidade ou ir até à Universidade de Aveiro trabalhar nos Cuidados Primários ou... ou...

Na mesma semana trabalhar 2ª e 3ª em Zurique, 4ª e 5ª estar na sede da UPU - União Postal Universal em Berna e 6ª e sábado estar na Faculdade de Ciências Humanas em Genéve...

Certamente que a maioria das pessoas preferem ou não podem sair do seu "sofá" ou "zona de conforto" pessoal, ou não precisarão de tamanha mudança pessoal ou mesmo que a quisessem empreender não podiam, porque não tiveram ou não criaram as oportunidades e preparações necessárias a este modo de vida; 

Para outros, trata-se de uma inevitabilidade, quase coisa natural, pois a mudança e a inovação são necessidades vitais; também para muitos é um desafio vital, uma luta contra o inconformismo e a lamentação permanente!

 Para muitos e conheço bastantes... talvez seja um destes... não existirão razões ou serão todas as anteriores as que os obrigaram ou desafiaram a ter o seu "escritório" em qualquer sítio....  É a vida!

Lembro-me, após uma conferência, em S. Francisco, há já uns bons 17 ou 18 anos, ter visitado um parque natural fabuloso (Josemite Valley) e ter metido conversa com um polícia, numa pausa num parque de descanso e... perante tanto frio e desconforto daquele lugar lhe ter referido o quão difícil e árduo seria trabalhar em tão duras condições...

Só para ver o valor da positividade e sentir que as dificuldades estão, a maioria das vezes dentro de nós e das nossas atitudes, o polícia sorriu-me, pegou-me no braço e andamos uns bons 100 m até à beira de um enorme precipício e estendendo o braço para a amplitude da paisagem disse-me: "apresento-te o meu escritório... é aqui que trabalho"... à minha frente espraiava-se o famoso Yosemite Valley com várias quedas de àgua , cada uma com  centenas de metros de altura, lagos maravilhosos, formações rochosas imponentes e florestas de sequóias com mais de 70 metros...

Deixei de sentir o frio e a neve a entranharem-se-me nos ossos... O polícia continuou... "agora, fala-me do teu escritório... é tão bonito, apelativo e desafiante como o meu?"...

Na passada semana "o meu escritório" tinha estas vistas...

2015-06-04 20.40.08

 

 

 

2015-06-05 19.37.58 

2015-06-06 06.22.15

 

E o teu? Esta semana o que vês e sentes no "teu escritório?"

 

Uma excelente  semana!    

 

AS MÃES DE SÃO JORGE

 

O Olhar de um Observador Especial...

 

Nunca saiu de São Jorge. Ninguém terá passado tanto tempo a ver, sem ser visto, a ouvir desabafos, conversas, queixas, tramóias… mesmo junto a si…

 

 Há quem partilhasse segredos tão perto dele que, vendo-o, não se apercebia que ele os ouvia, os entendia… não precisavam de falar para ele ficar a saber, sentindo e sofrendo tudo aquilo que sentiam e sofriam os que passavam perto de si…

 

Mesmo que não quisesse… ouvia!
Mesmo que não quisesse ver… observava!
Mesmo que não quisesse sentir… experimentava a angústia dos que desesperavam!
Mesmo quando não sentia alegria… ficava entusiasmado com a ingenuidade e a felicidade… especialmente das crianças, particularmente quando paravam perto de si!

 

Também a Nathalie e o Tonito, ainda crianças, partilharam os seus ingénuos planos futuros, mesmo ao pé de si… sentia que eles experimentavam uma serenidade especial quando estavam mesmo perto dele…

Ele pressentia o que eles sentiam…


Mas ele estava e está prisioneiro de si mesmo! E lá continua assim, ano atrás de ano, primavera atrás de primavera, inverno após inverno… Há quanto tempo? Não faço ideia…

 

Gosta particularmente de ver as crianças... ultimamente tão raras!  Assustava-se com as brincadeiras perigosas, especialmente na altura das festas em que as crianças iam às canas e apanhavam as bombas dos foguetes que não rebentavam… aí sim… assustava-se… temia por elas… e assistiu impotente a vários acidentes, sempre resultantes de brincadeiras perigosas…

 

Como se assustava quando – no pino do calor – as crianças mais afoitas se atiravam para dentro das presas, sem saberem nadar, espicaçadas pelos outros miúdos, muitas vezes mais velhos, mas mal formados e inconscientes…

 

Assistiu a muito… a tragédias… vidas levadas pelas cheias dos ribeiros, pelas enxurradas súbitas … acidentes no salta-e-pilha…bulhas por causa de… nada, discussões e insultos por causa das horas de água de rega…; também ouvia as carlotices quando se lavava a roupa nos ribeiros e se punha a corar nas pedras e silvados que bordejavam os lavadouros…

 

Mesmo aquilo que a sua visão não alcança é-lhe partilhado e comunicado pelos seus parentes que, como ele, estão sempre presentes nos seus locais… há muito… mas muito tempo.

 

Alguns parentes seus já desapareceram ou alguém os fez desaparecer precocemente… ele próprio já foi ameaçado várias vezes, mas ou porque alguém o protegeu, ou por puro golpe de sorte… lá se tem safado ao longo dos anos… muitos mesmo!

 

Mas não é de si que quer falar… nestes muitos, mas muitos anos de muito ver, muito sentir, muito reflectir…

 

 Quer falar das Mães… sim, das Mães de São Jorge… Tão banalizadas e ignoradas, mesmo pelas outras mulheres, mas, ao mesmo tempo elas foram e são quem dá sentido à cultura e à maneira de ser desta comunidade que, com altos e baixos, vai sobrevivendo por esta meia-encosta acima… São Jorge.

 

Viu mães de São Jorge darem à luz…sozinhas, não por vergonha, mas por humildade e pobreza… e não raras vezes os seus homens estavam na taberna!

 

Viu mães, que antes de o serem biologicamente, foram-no emocionalmente, quando, ainda crianças de sete e oito anos, cuidavam de irmãos recém-nascidos ou com meses…

Muitas mães foram-no, sem o serem!

 

Viu mães irem trabalhar para as hortas, irem lavar a roupa ao ribeiro, às segundas-feiras, e levarem os seus filhos de dias ou com meses, no alguidar, no cesto ou mesmo no barleiro à cabeça…

Viu mães com os filhos ao colo e um molho de mato à cabeça…

 

Quando a vizinha não tinha leite materno para a sua criança, outra vizinha com um recém-nascido partilhava os seus peitos com o seu filho natural e o seu filho de leite… Chegou a ver mães que perderam o seu bebé, darem o peito ao filho da vizinha, com as lágrimas a correrem pelas faces…

 

Viu mães a mastigarem batata até ficar puré, a meterem a colher à boca e tirarem aquele puré e a alimentarem os seus bebés…

 

Viu mães a chorarem em silêncio e às escondidas porque os seus filhos foram selvaticamente agredidos na escola, ou na doutrina… mas em público sentiam-se coagidas a dizerem “só se perdem as que caem no chão…”

 

Viu mães serem abusadas e agredidas por homens que depois se desculpavam dizendo que não foram eles, mas… o vinho!

 

Viu tantas mães a economizarem e a gerirem laboriosamente casas cheias de bocas com umas notitas e algumas moedas, a maioria das vezes tiradas á socapa dos bolsos das calças de ganga dos homens toldados pelo vinho…

 

Viu mães irem buscar os seus homens às tabernas, sendo agredidas pelos seus e humilhadas pelos companheiros das comezainas…

 

Viu mães terem que fazer de parteiras consigo próprias, com as filhas, com as irmãs, com as vizinhas…

 

Viu mães terem de amortalhar os seus filhos roubados em tenra idade… ou já mais velhos… ou os seus pais… ou os vizinhos…

 

Viu mães irem a pé, em manhãs gélidas, com as crianças ao colo, carregadas de febre, até ao médico, à Panasqueira e terem que esperar horas… e muitas vezes passando-lhes à frente os filhos deste e daquele…porque gente mais importante!

 

Viu mães a quererem tomar o lugar dos seus quando a Guarda os queriam levar presos…

 

Viu mães a trabalhar como mineiros à Pesquisa das Courelas, a escombarar ao Vale-do-Muro como cavadores, a caiarem as casas como pintores…

 

Viu mães a cantarem no coro da Igreja, como ninguém… a fazerem filhós inigualáveis, a cozinharem as couves com feijões com um paladar único no mundo… a remendarem aquelas calças a que o filho se afeiçoara de tal modo que nem parecia que se tinham rasgado…

 

Sim, o nosso observador e os seus parentes têm visto mães… sim muitas mães… e elas, sempre, a seu modo, dão tudo de si, o que sabem e o que não sabem…sem pedirem nada em troca.

 

E  partem… sim partem, para ao pé de outras mães, também das suas mães, das suas irmãs, das suas vizinhas e as outras, as que cá ficam, acompanham-nas e dão continuação ao seu legado, ao seu testemunho…

 

É pena que esta crónica nos seja narrada por este observador especial, com ajuda dos seus parentes, que não sendo gente, mais parecem aquela gente, que não temos tido tempo para ser… sim nós, todos nós, que fomos e seremos sempre o motivo de orgulho e a razão de ser desta energia inesgotável, imparável das Mães de São Jorge.

  

O Encontro… tantos anos depois!

 

Finalmente encontram-se.

 

Os dois têm o mesmo nome: José!

 

Ou melhor, será o reencontro, pelo menos para o Zé que partiu recentemente. Este procurou o outro Zé, que partira há muitos, muitos anos… Há mais de trinta anos que o Zé mais humilde partiu; provavelmente, há muito que terá sido esquecido por muitos que o humilharam e mesmo por aqueles que o forçaram a partir…

  

Mas o outro Zé, o que partiu apenas há umas semanas, bem mais alto e conhecido que o Zé, há muito desaparecido, não o esqueceu… pois já o tinha encontrado, não necessariamente a ele, mas à sua trágica história.

 

Há umas boas dezenas de anos… procurou-o, pelas ruas e nas memórias das gentes de São Jorge… mas as pessoas a quem perguntou pelo Zé, de São Jorge, o mais humilde, não deram qualquer resposta ao Zé, inquieto, jornalista, na altura pesquisador de memórias e afectos das comunidades e povos de Portugal…

 

A ida a São Jorge não foi em vão; o Zé (pre)sentiu o outro Zé, na indiferença,  no ramerrame, no desconhecimento, no desenrasca, no isolamento das vidas em São Jorge…  

De facto, no espírito das pessoas com quem falou, nada encontrou! Ninguém sabia quem tinha sido o Zé! Na altura concluiu que as consciências, quando estão pesadas, forçam o esquecimento…

 

Nessa procura que fez pelo nosso José, em dia agreste, o outro José, explorador de emoções e afectos, constatou, naturalmente,que o Sorna estava a funcionar, à Eira, para variar, carlotava-se, nas tabernas discutia-se futebol e, claro, à boca da mina falava-se do último despedimento, mais um "coitado" apanhado com um cristal escondido nas partes…

 

Como quase sempre, só se tratavam de agendas banais, de coisas fúteis, mas que não incomodassem… não é bonito falar de coisas sérias, ou melhor, de coisas pesadas, bem pesadas na consciência colectiva de todos nós…

 

Os dois José nunca se tinham visto. As fisionomias deles não são importantes, embora ambos tivessem feições secas… chupadas; o que procurou o outro era bem mais alto, enquanto o procurado, não só era mais baixo, como também andava curvado com o peso das mágoas e das tragédias que o visitaram de amiúde… demasiado amiúde para uma pessoa só, sensível e frágil…

 

Sim. Sem se conhecerem fisicamente as suas vidas cruzaram-se, ou melhor, um deles foi à procura do outro a… São Jorge…As pessoas daqui não lhe deram nada… Não senhor! Não, não encontrou este ilustre São-jorgense. Ilustre? Claro que sim: ilustre pelas lições de vida não vivida, pelo infortúnio que o visitou, ilustre pelo abandono a que foi votado… até na morte José foi ilustre, pelo sem sentido do motivo que o matou… também ilustre porque é o único São-jorgense que inquietou o outro José, prémio Nobel…

 

Mas agora os José têm todo o tempo do mundo para conversarem…  

 

 

- Vê, além, à Ponte, a seguir àquele café? Apontava José. Sim, havia ali um pardieiro, uma casita de pedra… sim era ali que eu vivia… Com o meu menino… muito inteligente… vida tão curta e ceifada de forma tão estúpida… a sua curiosidade e a sua ingenuidade eram angélicas… Também ele foi muito magoado...

 

- Mas, meu bom José, porque gosta tanto deste sítio? Perguntou o José, em tempos pesquisador de emoções e culturas…

 

- Porque gosta tanto destas Alminhas, onde estamos sentados? Continuou a perguntar o José que há muito tempo procurou o José de São Jorge

 

- Não vê, caro José, que daqui vejo o sítio onde estava a minha casinha, aqui, ao meu lado, tenho o meu menino, tenho ainda a minha mulher, que também partiu demasiado cedo e agora também o tenho a si, meu grande amigo José…

 

- E já viu? Aqui ao nosso lado, nestes azulejos, está contada a história de um parente meu que há muitos, muitos anos, conseguiu matar um lobo com as suas mãos, agarrando-lhe a língua… que homem corajoso…

 

- Esta façanha, que aconteceu lá para os lados da Cerdeira - havemos de lá ir - foi para mim uma bóia a que me agarrava nas alturas mais difíceis… E o que eu passei…

 

 

Quem, neste fim de tarde, de um dia de calor, mas já lusco-fusco, tivesse a serenidade, a visão clara e pura de uma criança e olhasse, a partir da Ponte, para as Alminhas brancas, lá no outro lado, veria duas breves silhuetas – os dois amigos José – entretidos em amena cavaqueira…

 

O humilde José explicava ao outro José, prémio Nobel, como se apanha um lobo enraivecido, com as mãos, mostrando-lhe a destreza usada pelo seu parente para, sem largar o lobo preso pela língua, tirar a navalha do bolso e ferrá-la no pescoço do lobo…

 

 

 

DE LUANDA... COM SAUDADE...

 

 Crónica de Luanda… do Tonito!

 

É com enorme saudade e entusiasmo que acabo de ler a notícia da estadia da Nathalie em São Jorge.

 

Há muito, mas muito tempo que não tinha quaisquer notícias suas, minha cara Nathalie… Que pena sinto, termos passado estes anos todos sem falarmos… senti alguma mágoa nas suas palavras… também sinto que perdemos, ou melhor, que temos adormecido, dentro de nós, algo muito importante…

 

Também é verdade que as pessoas de quem gostamos mesmo, os verdadeiros amigos estão sempre connosco, mesmo quando passamos anos e anos sem estarmos com eles.

 

Ler o que a Nathalie sentiu em São Jorge fez despertar em mim uma enorme vontade de a ver, de falar consigo sobre nós e a nossa dilecta terra… essa São Jorge misteriosa que nos inquieta, nos provoca formigueiros na barriga, sempre que pensamos nela….

 

Ainda bem que não vendeu a casa velha…

 

Gostava de voltar a sentar-me em cima da arca grande, na sala de baixo…

 

Ah São Jorge! … Como eu gostava de estar aí, com os meus amigos de infância!

 

Como eu gostava de voltar a fazer um fio de amoras, ir apanhar barro azul à Cortevale, ir espreitar a mina seca da Selada, subir o nicho dos Lameiros, apanhar as canas dos foguetes da alvorada, correr à frente da música no dia da festa dos mineiros, nadar na presa das Dornas, ir deitar um papagaio, fazer um atira-pedras com uma forquilha de azinheira e borracha de mangueira velha, deitar o arco, jogar à bola à Eira, deitar o pião, jogar à guelharda,  jogar ó berlinde, mas com esferas, pois os berlinde mágicos, o de cor de rubi e o que imitava o arco-iris ficavam bem escondidos no bolso das calças de sarrobeco … espreitar a pesquisa do ti Camilo, roubar figos às eiras-das-casas, ouvir o futebol à porta da taberna do t’Zé Sapateiro, ajudar a fazer hóstias e prová-las, a ver se ficaram boas, acompanhadas por um golo de Ferreirinha… e tantas, tantas outras coisas bonitas…  

Tonito, hoje na casa dos 47 anos, sentado na esplanada do Clube dos Caçadores, mesmo ao lado do cinema ao ar livre, no Bairro Miramar, em Luanda, nesta tarde de sábado levemente abafada, Outono dentro, bebericava uma Eka, acompanhada com paracuca, enquanto deixava que o seu olhar se perdesse na imensidão do horizonte… lá em baixo, casario humilde, logo a seguir a azáfama do porto, a baía e a ilha com as suas praias e bares míticos, mesmo não sendo ilha, e… lá ao longe, o mar… era neste imenso mar de Luanda que planava com os seus pensamentos… desejando ir mar dentro…

 

 

Era contemplando este mar, mar das calemas trágicas, mas sereno, que gostava de se perder, mar dentro, absorto nestes pensamentos e desejos, em que São Jorge era o palco e ele e Nathalie eram dois miúdos com 12 anos que coravam constantemente, sempre que se encontravam, ora fugindo um do outro, cheios de vergonha e timidez, ora sentindo um desejo imenso em estarem juntos… sem falar, apenas sentindo o pulsar e o palpitar um do outro, naquele longínquo, mas tão próximo verão de 1975… sentados em cima da arca grande na sala de baixo da casa velha dos pais da Nathalie…

 

Tonito ainda guarda, na casa humilde da sua família da Barroca o diário, com as cartas que foi recebendo, entre os 12 e os 19 anos, de Nathalie…

 

Talvez nos encontremos por São Jorge e aí, prometo mostrar-lhe o meu diário, os desenhos e claro os poemas que fiz…

 

Várias vezes tentou desfazer-se destas memórias, mas no último instante não rasgava, nem deitava para o lume!

 

Tonito passou a sua adolescência entre os estudos no liceu da Covilhã, onde vivia com os pais, e as férias na Barroca e em São Jorge… Era para São Jorge que, no verão, Tonito puxava os pais, sempre na esperança de se encontrar com  Nathalie, e onde tinham a casita dos avós paternos… mas os pais preferiam e insistiam quase sempre em irem para a Barroca, pois a família da mãe era mais numerosa e a casa que aí tinham era bem mais confortável que o pardieiro de Cebola, como lhe chamava a mãe, para não falar na estrada, bem mais demorada e perigosa…

 

Tonito, como quase sempre, decidiu, de repente, ir para a Força Aérea; aos 20 anos já marchava na OTA … tirou a especialidade de navegação aérea…

 

Por várias vezes esteve quase a partir para Paris… mas refreava-se no último instante, pois sabia que o pai de Nathalie não via com bons olhos aquele arremedo de namorico, como lhe chamava e achava que a sua filha merecia melhor partido …

 

Tonito hesitou muitas vezes… chegou a estar em Paris, sem Nathalie saber, para combinar com ela e “fugirem” para Portugal… Mas refreou-se, pois sabia que Nathalie não queria chocar o pai… e o tempo foi passando…

 

 Tonito investiu como ninguém na sua profissão; desde os 25 anos e após uma sólida formação e experiência no Aeroporto de Lisboa, é um dos mais experientes controladores de tráfego aéreo… é o que tem feito desde aí… já trabalhou em muitos aeroportos e, desde há 2 anos, está a trabalhar como controlador de tráfego aéreo em Angola, dividindo-se entre a operação e o treino de novos controladores…

 

 

 

 

Só com uma profissão destas é que conseguia ter a vida confortável que tem, pois vive na cidade mais cara do mundo… Luanda!

 

Tonito nunca casou… tem passado a vida a saltitar de torre de controlo em torre de controlo… também reconhece que nunca encontrou ninguém que fosse capaz de tirar Nathalie do seu pensamento…

 

Na verdade o que o impede de concretizar este impulso de ver Nathalie? Se quiser consegue viajar no cockpit de qualquer voo comercial, pois conhece praticamente todos os comandantes que aterram em Luanda… aliás ficam quase sempre no hotel Alvalade, onde Tonito costuma almoçar com muitos deles…

  

Talvez esteja na altura de dar uma saltada a Paris!....

 

Será que Nathalie ia gostar da surpresa?

 

Também é verdade que se avizinha a festa de São Jorge…

 

Será que Nathalie estará por lá nesta altura?

 

 

É HORA DE PARTIR...

 

Nathalie experimenta uma enorme saudade de S. Jorge.

 

É sexta-feira santa. Está sentada nos degraus de laje do Cristo-Rei, à Capela e olha com enorme nostalgia para o meio do Povo.

Aqui passou os últimos quatro dias. Tantas coisas que sentiu, viu e revisitou… Por um lado sente que já faz parte de S. Jorge e que já cá vive há muitos, muitos dias.

Não quer partir, sente uma enorme tristeza a invadi-la…

 

Lembra-se de seu pai, que partia sempre de S. Jorge com o coração apertado e os olhos andavam marejados de lágrimas, lá por Paris por muitos dias, depois da saída de S. Jorge. Era sempre assim… Agora Nathalie estava a sentir o mesmo aperto, o mesmo peso no estômago!...

 

Mas tem de partir! Prometera à sua mãe que passaria com ela a Páscoa! Tinha-a convencido a subir à Torre Eiffel, onde nunca o seu pai a conseguira levar e iriam ver o São Jorge de Rafael, pequenino quadro, que se pode contemplar no Louvre, mesmo ao lado da sala onde habita o quadro mais visitado de todo o mundo… A Gioconda.

 

Nathalie tem mesmo de partir! É meio-dia e tem que estar no Aeroporto de Lisboa às 7h, para apanhar o avião para Paris…

 

A sua mãe compreendeu a razão porque não vendeu a casa de S. Jorge. No fundo até ficou orgulhosa com a atitude de Nathalie.

- Não precisas de te explicar, filha, eu fazia o mesmo… há coisas que não se podem vender; quando muito, só mesmo em extrema necessidade…

Os vizinhos, embora mostrassem pena, também tinham compreendido. Um deles já tinha prometido aos filhos e netos que se iriam juntar todos em S. Jorge, neste verão! Nathalie prometeu-lhe que lhe emprestava a casa, por uma ou duas semanas, quando não precisasse… Este vizinho também acabou por lhe agradecer, pois sentia que poderia cumprir a sua promessa.

 

O dia estava bonito. É sempre assim. Quando partimos é quando tudo nos prende e só sentimos vontade de adiar ou nunca mais partir…

Estava Nathalie embrulhada nos seus pensamentos, descansando o olhar neste céu tão azul, cortado em dois pelo rasto de um avião, lá no alto; céu como este não há em mais lado nenhum!  Sentia os cheiros do mato a florir, ouvia o chilrear dos pássaros, mesmo ali nas árvores da Capela… e as flores de cantarinha mesmo ali à frente das escaleiras do Cristo-Rei… A natureza explodia e invadia todos os poros de Nathalie…

 

Ainda lhe doíam os pés e as pernas, com tanto que andou por S. Jorge naqueles dias…

Reviu todos os passeios que deu…

 

Julgava que se perderia, mas coisa estranha, sempre que se aventurava por qualquer quelha, qualquer caminho, pressentia sempre que já ali tinha passado e surgiam-lhe as imagens e as emoções que viu e sentiu, quando esteve, naquelas férias grandes, em S. Jorge, nos seus 12 anos…

 

Tudo tinha começado, na segunda-feira, à tarde, na cozinha da casa velha… continuou na sala de baixo, quando brotaram os seus sentimentos escondidos pelo Tonito!...

 

Olhou para a Igreja, mesmo à sua frente e reviu o primeiro grande passeio que deu…

 

Desceu, ao lado da casa do Sr. Padre, ao Vale e subiu à Abesseira; pelo mato foi até debaixo do grande castanheiro; no Ribeiro-Souto reviu e imaginou as mulheres a lavarem a roupa, um pouco mais acima da presa cheia de água esbranquiçada pela espuma do sabão e quase as ouvia a cantar e a cochichar os apartes das vidas das vizinhas…

 

Subiu, com esforço, à canada e, lá no alto, ofegante, virou à direita e descobriu que tinha estado sentada com o Tonito debaixo da enorme amoreira… ele oferecera-lhe um fio de amoras, que ela pôs como colar e jurou intimamente guardá-lo para toda a vida…

 

Esfolou um joelho num tanganho, a descer para a Archã, onde ainda se vêem os resultados da destruição, provocados por uma grande cheia; do alto da parede deste chão cheio de cascalho, do ribeiro que transbordou, imaginou o poço onde as mulheres da Costa iam lavar a roupa… e a água esbranquiçada cheia de alfaiates e bacorinhas…

 

Subiu à Façoute, passou debaixo de castanheiros arruinados, rompeu a camisa nas mouteiras e giestas secas, enfarruscou-se pelo mato que a cobria e, sem querer, foi ter ao caminho que vai da Cortevale para as Aradas…

 

Tentou subir, mas não encontrou a vereda da mina da Brouca e, sentindo-se já bastante cansada, desceu até à suave planura da Cortevale… descansou, refrescou-se no tanque que tem um palheiro, construído por cima e aí gozou, por largos minutos o aprazível silêncio do lugar… quebrado aqui e ali por um cuco que se anunciava… ainda tentou dar uma cambalhota a ver se descobria alguma coisa, pois foi a primeira vez que ouviu um cuco em muitos, muitos anos…

 

Regressou pela Barroquina da Cal, cumprimentou as espantadas vizinhas da Costa que se silenciaram à sua passagem… ouvindo-as depois cochichar, atrás de si… quem é??? E uma outra voz cochichava… atão não vês q’ié a praf’ssora, f’lha da t’iá Rosália da França?!!!

 

Este foi o primeiro de longos passeios em que redescobriu emoções, vivências infantis e afectos escondidos…

 

Foi ao Picoto, mas de carro, deslumbrou-se com as paisagens e desceu à Covanca, esteve na barragem de Santa Luzia, parou à Portela e sonhou voar sobre S. Jorge; passou pelo nicho dos Lameiros, subiu à mina da Selada; aí, ainda experimentou andar uns metros dentro da mina seca… Redescobriu a fraga do Penico e estalou os dentes a beber a água fria, à  Fontanheira…  Passou pelo Pombal, essa cascata de casas, apreciou as nesgas de S. Jorge que se descobrem por entre as casas do Pombal…

 

Revisitou casas de pedra e barro vermelho e lembrou-se de humildes casinhas, lavadas de fresco, a cheirar a rosmaninho e decoradas com enfeites de jornais colados, a farinha e água, nos caibros escurecidos… a anunciar e abrir portas à visita pascal…

 

Boas festas acompanhadas por Deus, Nosso Senhor, Aleluia, Aleluia…

Antes de entrar no carro, parado no largo das festas da Capela, e dizer adeus a S. Jorge, ainda se lembrou e trauteou  parte do hino de S. Jorge, mas em versão namoradeira…

 

“São Jorge oh minha terra

Tens ao lado a capelinha

Onde as moças vão namorar

Nos domingos à tardinha”

 

Claro que iria voltar logo que pudesse a S. Jorge…

 

Jurou a si própria que sempre que conseguisse juntar uma semana de férias, voltaria à procura de si, do seu passado, das suas memórias e claro dos seus afectos futuros…

 

 

A CASA VELHA DE S. JORGE

 

 

NATHALIE (RE)VISITA A CASA VELHA DE S. JORGE

 

 Nathalie estava, pela quarta vez, em São Jorge!
 

Lembrava-se, muito vagamente, da primeira vez que tinha estado em São Jorge!
 

Não admira; não teria mais de 8 anos quando, corria o ano de 1971, os pais, emigrantes em França, nos arredores de Paris, a trouxeram a conhecer as raízes da família do pai e os sítios onde este tinha passado a sua infância e adolescência.

Tem imagens muito vagas daquela estadia, embora hoje sinta alguns locais, as caras e os cheiros com alguma familiaridade…

 

Não se esquece dos dias escaldantes e das noites quentes da festa dos mineiros de 1971… com muitos vizinhos sentados às portas de casa, à fresca, a conversarem muito alegres e com uma entoação estranha… Recorda, vagamente, os temas das conversas… as mobílias das casas novas, os apartamentos que se compraram na Covilhã, no Fundão… o dinheirão que os filhos gastavam nos estudos… o desemprego nas minas, o raio da silicose!...
 

A terceira vez que veio a S. Jorge, há 10 anos, foi precipitada pela súbita morte do pai, em Paris e, na sequência das partilhas e da herança, foi obrigada a vir regularizar a situação de alguns bens que a família possuía na zona.
 

Hoje, já na casa dos 47 anos, Nathalie, uma excelente professora de biologia, há muitos anos colocada num liceu em Paris, ainda não acredita, muito bem, porque está em S. Jorge.

Tudo se precipitou umas semanas antes desta Páscoa…

Por um lado o reitor do Liceu sugeriu-lhe que gozasse os 10 dias úteis de férias antigas, nas férias escolares da Páscoa de 2010, dispensando-a assim das suas actividades de coordenação pedagógica.

 

Quando se preparava para marcar uns dias numa praia longínqua, numa das ilhas paradisíacas da Polinésia francesa, onde ia com alguma regularidade, para carregar baterias, eis que a sua mãe lhe telefona aflita, por causa do desassossego que a casa velha de S. Jorge lhe andava a causar…

De facto, os vizinhos de S. Jorge não lhe davam descanso desde há uns meses para cá. Todas as semanas choviam telefonemas de São Jorge na residência, onde Rosália, a mãe de Nathalie, vivia desde a súbita morte do marido, a pressionarem-na para vender a casa velha de São Jorge…

 

Desde a morte do pai que mãe de Nathalie não andava bem. Na realidade nunca aceitou a sua perda e vivia num permanente sofrimento e estado de confusão, que os inúmeros internamentos não solucionaram. Com 68 anos, a mãe de Nathalie era pouco autónoma e vivia numa residência comunitária de excelente qualidade, com serviços de proximidade e cuidados clínicos permanentes, nas proximidades de Versailles.

 

Nathalie visitava a mãe duas ou três vezes por semana e sempre que o tempo o permitia iam visitar o palácio, especialmente os seus jardins. Nestes passeios conseguia ver felicidade no rosto da mãe, sempre que esta, entusiasmada, lhe explicava os detalhes das paixões e das lutas palacianas presenciadas por aquelas imponentes paredes; nestes passeios, tomavam o comboiozinho nas traseiras do palácio, levando-as a visitar o enorme parque… apeavam-se sempre junto ao grande lago frondoso, onde lanchavam e alugavam um barco a remos e gostavam de remar até ao meio do lago e ficar aí, por largos minutos a sentirem o silêncio das águas calmas, fazendo-as sentirem-se mais próximas. Estes momentos também lhes refrescavam os afectos e as memórias agradáveis… Depois tomavam um chá na esplanada debruçada sobre o lago, deleitando-se a observarem as crianças em correria ou a andarem de bicicleta e, quando a mãe mostrava sinais de fadiga, retomavam o comboizinho até ao palácio; andavam uns minutos a pé e Nathalie despedia-se da mãe, depois de a deixar aconchegada no seu quarto, na residência de idosos…

 

...

 

Nathalie deu consigo a alugar um carro no Aeroporto de Lisboa, depois da viagem agitada, num avião da TAP, repleto de alegres emigrantes, carregados de prendas e lembranças, e a viajar para S. Jorge, debaixo de um temporal, no domingo de ramos.

Pernoitou num hotel no Fundão e na 2ª f., ficou admirada com a azáfama matinal do mercado, por onde deambulou, descobrindo calçado a 1 euro, enxovais completos arrematados a 50 e estranhas cherovias a concorrerem com os peixinhos da horta…por entre anúncios do tipo “ó freguesa, compre aqui … é mais fresquinho e mais barato”, declamados entre uma bátega de chuva e um vento gelado que cortava a ponta do nariz.

 

Depois de um almoço frugal, pôs-se a caminho de S. Jorge, onde chegou pelas 3 da tarde.

 

Obtida a chave da casa velha, junto da vizinha idosa, a quem a casa estava entregue e que sabia da sua vinda e, depois de muitas festas e beijos à “m’nha Natalita”, foi dar uma vista de olhos pela casa antes de ir falar com os vizinhos, paredes meias com a casa velha, e resolver rapidamente este assunto da casa, a ver se acabavam de vez os telefonemas que vinham desestabilizando a sua mãe, lá nos arredores de Paris…

 

Ainda por cima dormira mal no Fundão. Não que o hotel e a cama não fossem acolhedores.

Ao folhear o livro de Saramago “Viagens na Minha Terra”, que o serviço do hotel tinha no quarto, tomou contacto com a trágica história vivida em S. Jorge “O fantasma de José Júnior”

 

Sentada no tabuão, carcomido pelo bicho da madeira e enfarruscado pelo lume, tantas e tantas vezes aceso na pedra, também ela crestada, que repousava no centro da cozinha, levantou os olhos para a pilheira, à sua frente, onde repousavam testos velhos, uma gadanha enferrujada, uma candeia de azeite apagada há demasiado tempo…

 

Mas ali, experimentou pela primeira vez, desde há muito tempo uma profunda paz interior. Uma sensação especial de calor e um silêncio abraçaram-na por largos momentos… Ali ao lado da cozinha morava uma cantareira antiga e ao fundo do sobrado, numa mistura de forro e dispensa encontrou, no meio de malas e trastes velhos, uma mesa feita duma caixa da pólvora das minas, umas pinhas velhas bem secas, umas torgas quase a desfazerem-se e até umas pernadas de oliveira e castanheiro…

Acendeu o lume e experimentou um calor acolhedor como há muito tempo não sentia e deu consigo a olhar para o longo tabuão, à roda do lume, a olhar a porta da cozinha com janelo, o assento de cortiço mesmo ao lado da panela de ferro enferrujada e na pilheira, uma ráfia a desfazer-se, mas que ainda conservava uma mão-cheia de sarpão seco.

 

 Deu consigo a imaginar o seu pai, os seus avós, os bisavós paternos e tios a conversarem alegremente à volta do lume e a comerem as couves com feijões, duma grande travessa, posta na pequena mesa e decorada com rodelas de chouriça de lombo, cortada em 12 bocados, para as 12 bocas que respiravam naquela cozinha…

 

Sobressaltou-se ao ouvir uma voz … “Toma! Este bocado de chouriço é para ti, minha netinha!”

 

Nathalie experimentou uma sensação de pena quando se tentou concentrar na sua missão: tinha vindo a S. Jorge para vender a casa velha a um dos vizinhos que queriam alargar as suas casas e, por isso, não davam descanso à mãe, lá em Versailles!

 

 Mas a casa velha era muito mais que uma casa… estava cheia de memórias, de afectos… Nas duas horas que passara em S. Jorge, desde que entrara na casa velha, Nathalie não deixara de sentir uma enorme explosão de emoções, recordações que julgara perdidas para sempre.

 

Ao entrar na sala grande do andar de baixo teve um sobressalto… A sala parecia bem mais pequena que a das suas memórias de criança. Sentiu um aperto no coração ao ver a arca grande de carvalho, exactamente ao lado dos gavetões de parede… estava tudo no mesmo sítio… foi sentada na arca, aos 12 anos, na sua segunda estadia em S. Jorge e de mãos dadas com o Tonito, menino dos olhos grandes e negros, que trocou o primeiro beijo e jurou amor eterno!

 

De repente sentiu uma impaciência urgente em saber o que era feito do Tonito… Durante largos anos trocaram cartas, prometeram visitar-se, irem viver um para o pé do outro, mas tal nunca acontecera… Porquê? Nathalie não encontra resposta… Será que esta é uma das razões porque nunca casou e se dedicou de corpo e alma à sua vocação de professora?

Apeteceu-lhe sair para a rua e perguntar pelo Tonito. Refreou-se. Numa das últimas cartas que trocaram e já perto dos 20 anos, ele anunciava que ia para a tropa…

 

A casa velha estava a destapar-lhe um vulcão de emoções. Cada segundo que passava presenteava Nathalie com uma torrente enorme de recordações, histórias contadas pelos avós, pelo pai…

 

Não, não podia vender a casa. Neste momento tinha a certeza que vender a casa seria amputar uma parte de si, vender e destruir recordações, memórias da sua família, seria matar a sua identidade, a sua referência cultural…

 

Está decidido. Não vendo!

 

Mais, tenho que a preservar, restaurar e escrever todas estas histórias, memórias…

Sim, a casa velha vai perdurar…

 

Continuará a viver dentro de mim!

 

 

 

La Union ou... A união faz a força!

 

La Union!
Terra mineira… Ou melhor, terra que já foi mineira, mas preserva um ar arrumado, limpo… Percebe-se que respeita alguns belos edifícios com história, transmitindo-nos a impressão de que este lugar tem personalidade própria.
Desconheço por completo a sua história factual, oficial, mas também não me esforço por conhecê-la… Estou mais atento às impressões que me deixou nas dezenas de vezes que a atravessei e uma ou outra vez que por lá parei entre os anos 1994 e 2001…
É impressionante como uma terra com locais interessantes e edifícios bonitos consegue manter estes sinais saudáveis quando tudo à sua volta é destruição…
Será que as pessoas de La Union se uniram e lutaram contra a adversidade? O determinismo que transforma muitos locais semelhantes a este em sítios fantasma parece não ter vingado em La Union…terra que acaba por ser bonita, quase acolhedora e se encontra cercada por serranias que jazem mortas, pois foram esventradas e sugadas durante séculos e hoje transpiram um silêncio de funeral… invade-me uma tristeza de morte quando revejo aquelas montanhas que parecem ter sido escombaradas por mãos de gigantes!
As largas dezenas de quilómetros que cercam La Union, tanto do lado de Cartagena, como do lado da Manga del Mar Menor, quer ainda do lado de Portman mostram ruínas aqui, desertos poluídos acolá, lagunas de água (será água?) vermelha de sangue…
Parecendo quase impossível imaginar a existência de La Union ali tão perto… Mas a cidadezinha limpa e soalheira continua lá!...
Até o jipe que nunca se negava a qualquer percurso parecia soluçar nestas paragens, parecia perder a capacidade de tracção nos demorados quilómetros de estradas secundárias rodeadas de destruição, em torno de La Union e que vão de Cartagena, com o sua imponente base naval e terminal petrolífero em cima do Mediterrâneo, até à animada estância balnear da Manga del Mar Menor, na Costa Caliente, que se veste de trajes fantasmagóricos no inverno e transborda de veraneantes e animação no estio, mas sempre a espreguiçar-se pela longa língua de areia pejada de empreendimentos turísticos que parecem entrar pelo Mediterrâneo adentro até se perderem no horizonte azul…
Que choque de imagens e contraste de paisagens, a cerca de uma centena de quilómetros de Múrcia, capital de La Huerta de Espanha, debruçada sobre o Mediterrâneo.
É estranha esta sensação de um silêncio forçado que brota destas montanhas mortas. Há sítios que parecem cemitérios, por onde se passeou uma onda predadora enorme que matou tudo à sua passagem, tal a voragem insaciável do dito desenvolvimento humano… Só as mentes menos escrupulosas e convenientemente ingénuas se apaziguarão com as desculpas da riqueza proporcionada pelo minerais, seja o ferro, carvão, estanho ou volfrâmio extraídos nestes lugares …
Saltando cerca de mil quilómetros para ocidente…
Embora o choque não seja tão forte, sinto o mesmo quando deambulo pelo Vale de Ermida, onde as torvas ainda estão à espreita para sugar quem distraidamente passe por ali e os desmontes do salta-e-pilha nos observam disfarçados pelo mato vestido de carquejas e mouteiras . Vejo o mesmo nos aterros e tanques do lodo ao Vale-do-Muro, nas montanhas artificiais de escórias que se perfilam na entrada da Barroca Grande, para quem vem do Zêzere… Sinto o mesmo em Urgeiriça, em Aljustrel, em Jales, São Domingos e em tantos, tantos lugares geograficamente longínquos, mas tão próximos, pelas imagens de matança e saque que nos transmitem!
Mas La Union parece ter sabido resistir… sobreviver… De todos estes lugares La Union parece demonstrar que foi a força da união das suas gentes que garantiu a sobrevivência de La Union, pois tudo à sua volta concorre para a sua não existência…
Quem apenas conhece a zona turística da Manga del Mar Menor – a maioria das pessoas que buscam estas paragens no verão - não imagina que a menos de duas dezenas de quilómetros existe um território sugado, qual paisagem estéril, quieta e nos sussurra ao ouvido “que estás aqui a fazer? Não vês que já nada tenho para te dar?”
No entanto, La Union, cidadezinha arrumadinha no meio deste caos parece ir sobrevivendo, aparentemente alheada a esta agressão ambiental…
Puro engano… Também a vida e as pessoas de La Union são marcadas por agressões, desatinos, ambições desmedidas, por predadores sem escrúpulos que sugam tudo à sua passagem…
É por isso que poderia estar a falar da vida e das pessoas das minas da Urgeiriça ou de Aljustrel ou de São Domingos ou… porque não, das Minas da Panasqueira…
Esta crónica de La Union poderia ter acontecido em qualquer outro lugar mineiro…
Vamos situar estes acontecimentos junto à entrada do Mercado Público de La Union, há muitos, muitos anos… na década de 60 do século passado…
 
 D. Garzon, assim era tratado pelas humildes famílias mineiras de La Union, passeava-se no seu enorme Buick, em todas as tardes de domingo, pelas localidades mineiras que naquela altura rodeavam Cartagena, onde vivia. Trabalhava no hospital local, hospital típico duma região mineira, especializado nas doenças das minas. Garzon não passava de um subchefe da secretaria do dito hospital.
Desenvolvera, no entanto, ao longo dos anos um faro canino apuradíssimo para intermediar de forma manhosa e sub-reptícia todas as necessidades e relações das famílias mineiras com o hospital local… pois todos os processos clínicos lhe passavam pelas mãos… desde a saúde, ou melhor, a falta de saúde do mineiro cheio de lesões ósseas e com os pulmões a desfazerem-se, até àquela mãe que acabara de ter uma criança e não tinha leite, precisando da receita para a lata de leite em pó que tinha de aviar na farmácia do hospital, passando por todas as situações que precisavam de tratar dos papéis para o seguro poder pagar qualquer coisa… fossem medicamentos, operações, reformas, etc…
D. Garzon conseguira instalar-se como o intermediário imprescindível de todos os cuidados de saúde transformando os direitos das pessoas em favores que prestava à humilde e ingénua população…
Se as explorações mineiras sugavam a saúde dos mineiros, logo surgia D. Garzon a sugar-lhes os parcos bens e recursos, vendendo-lhe bem caro os cuidados a que tinham direito graciosamente…
Era preciso marcar uma consulta? Sem falar com D. Garzon não se conseguiria nada antes de meio ano… Aviar a receita? Na farmácia perguntavam se já tinha o visto de D. Garzon. Fazer aquelas análises ou fazer a chapa aos pulmões que o médico tinha pedido? D. Garzon já tinha passado a ficha de marcação?
De facto D. Garzon tinha-se transformado num enorme polvo gelatinoso, com longos tentáculos que sugavam tudo e todos… Alternava entre um ar beato e rastejante quando tinha que falar com os médicos, directores ou alguém suficientemente importante para ele granjear favores que depois vendia com elevadíssimos juros ao mexilhão necessitado, apresentando-se a estes sempre altivo, com fala grossa e ameaçadora, que foi muito difícil… que teve de pagar e bem, tomando de ponta aqueles que hesitassem ou titubeassem algumas palavras sobre direitos ou dessem a entender quererem dirigir-se directamente acima dele.
A casa de D. Garzon em Cartagena era das mais confortáveis, rivalizando com a do comandante do porto e a do comandante da base naval, estando uns furos bem acima da do director do hospital e do bonito solar do engenheiro chefe da principal mina de La Union…
Como lhe convinha D. Garzon procurava não dar demasiado nas vistas e meticulosamente punha a circular histórias sobre uma tia rica de Puerto Lumbreras, onde nascera, que lhe deixara umas propriedades e algum dinheiro ou combinava com a mulher que esta se descaísse na igreja, onde era catequista, sobre grossos donativos dados à casa do órfão, ao centro de idosos, ou mesmo ao clube de futebol, mas habitualmente multiplicados por cem…
D. Garzon seleccionava cirurgicamente os seus relacionamentos e amizades…
O enorme Buick que conduzia tinha-lhe sido vendido por um capitão de-mar-e-guerra americano que tinha passado uns bons cinco anos na base naval de Cartagena, a treinar e a passar o comando de um porta-aviões para a marinha espanhola… Quando este americano desembarcou em Cartagena já tinha alguém preocupado com ele. D. Garzon arranjara-lhe, não só uma bela casa para a família, como tratou da sua integração na vida social local. O comandante americano e respectiva família jantavam praticamente todos os fins-de-semana em casa de D. Garzon, passando a vida a gabar-lhe os dotes da esposa, excelente cozinheira, para além de catequista.
A casa de D. Garzon tinha fama de ter o melhor pescado, o melhor jamon, o melhor vinho, o melhor cabrito… para não falar do recheio e do conforto que aí se respirava. Como sempre D. Garzon, quando os convidados lhe admiravam tamanho bem-estar, humilde e beatificamente comentava que devia tudo a Deus, pois se considerava um homem de sorte, com saúde e repetia a história da tia rica que se tinha finado lá na terra e lhe deixara o seu pé-de-meia…
Quinzenalmente, aos domingos à tarde, o enorme Buick estacionava em lugar praticamente reservado, num local discreto, mesmo à sombra do Mercado Público de La Union e com o enorme porta-bagagem destrancado.
Enquanto D. Garzon ia de casa em casa petiscando, recolhendo envelopes de pagamento dos serviços prestados e dizendo sempre que tinha sido muito difícil, que tinha pago isto e aquilo ou, quando a cunha ainda não tinha funcionado ou mesmo querendo fazer render o peixe, insinuava que o jamon pata preta oferecido anteriormente pela vítima tinha sido gabado pelo Sr. Doutor que ia fazer o jeito… mas que estava à espera do outro jamon, pois o porco não era coxo, pois não? gracejava D. Garzon!... Ali, mais à frente, gabava o vinho de Jumilla ou os enchidos… dizendo sempre que estava quase marcado aquele exame que era preciso ir fazer a Múrcia ou mesmo a Albacete…
Quase sempre já lusco-fusco, D. Garzon despedia-se das suas vítimas e esperançosos dos seus favores e antes de entrar no seu enorme Buick abria a bagageira e sorria ao ver a quantidade de cabazes, sacas, caixas… tudo cheio de garrafas do melhor vinho, ou de enchidos, presuntos pata negra, frutas, peixes, cabritos, tecidos de seda, excelentes lãs, etc., etc. …
Todos estes “presentes” tinham pequenas tabuletas de madeira, identificando os ofertantes… D. Garzon sorria de satisfação… olhando tamanha colheita, dando pancadinhas na enorme barriga atestada com o melhor e sentindo junto ao coração os envelopes carregados de notas de 500 pesetas…
Claro que muitos destes enchidos e presuntos eram convertidos em pesetas, já que o seu amigo Juan, dono do armazém de mantimentos das minas, lhe pagava bom dinheiro por eles…
Era sempre assim… sábados e domingos D. Garzon fazia a sua “visita” a mais de seis aldeias e vilas, onde ponteava La Union…
 
A mulher bem tentou acalmá-lo, mas Manolo estava enraivecido… e com razão!
Depois de ter dado um grande saco de enchidos, uma caixa de vinho de Jumilla e um presunto a D. Garzon, para não falar das 2000 pesetas que já tinha entregue para o operador, a ver se ele conseguia marcar a operação à perna do seu filho, para não ficar aleijado para toda a vida, ainda teve que ouvir daquele parasita, enquanto lhe comia a melhor comida que tinha em casa, que o doutor operador tinha muito que fazer, que estava muito difícil, que era preciso mais dinheiro…
Ainda por cima tinha sabido que o presunto que tinha comprado e oferecido a D. Garzon tinha voltado ao armazém… Que desplante e falta de respeito… Vender, o jamon oferecido, ao mesmo armazém onde Manolo o tinha comprado…e para cúmulo, ainda lhe perguntou se o porco não tinha outro presunto!
Isto não pode ficar assim!
Tem calma Manolo, desesperava a mulher, tentando serenar a fúria do marido.
 
 Quinze dias depois e como sempre o Buick lá estava parado, no sítio do costume e, para não variar D. Garzon lá ia de casa em casa esbragando o melhor comer que os da casa não provavam, recolhendo os envelopes, dizendo que a coisa se arranjaria, mas que está cada vez mais difícil e as cestas e cabazes a carregarem o enorme porta-bagagem do Buick…
Como sempre, lusco-fusco, D. Garzon, bem aviado, com o bolso cheio de envelopes, antes de se meter no carro, abre o porta-bagagem e…
Que é isto?!!!
O cheiro nauseabundo empestava completamente o seu Buick imaculadamente limpo…
Ao tocar com a mão numa saca, ficou cheio de raiva, ao sujar-se numa enorme taleigada de tripas de vaca a escorrerem trampa por todo o lado…
D. Garzon, a tremer de raiva, meteu-se no carro e partiu vertiginosamente de La Union…
 
Manolo e dois amigos de confiança, também espoliados por D. Garzon, tinham-se vingado… Minutos antes de D. Garzon chegar ao carro, retiraram do porta-bagagem as cestas, sacas, cabazes e barleiros bem recheados e, em seu lugar, colocaram as tripas e outras vísceras podres de animais (que pacientemente recolheram e armazenaram em local seguro, durante a quinzena anterior).
Na madrugada de segunda-feira todos as pessoas de La Union que tinham ido colocar prendas no Buick ficaram surpreendidas, já que ao abrirem a porta da rua viram aí depositados os seus bens com uma folha onde estava escrito
 
EM LA UNION, A UNIÃO FAZ A FORÇA!”
 
Só cerca de três meses depois é que o Buick foi visto em La Union…
Estava estacionado bem longe do Mercado Público e diz, quem viu, que D. Garzon saiu do carro apressado e, antes de entrar na casa que ia visitar, confirmou por três vezes que o porta-bagagem estava mesmo trancado!

O Menino que tinha vergonha de pedir esmola!

 

 

Eram tempos difíceis.
 
Os invernos eram bem mais agrestes que nos dias de hoje. Pelo menos doíam mais!
 
O frio parecia uma carraça agarrada às orelhas e ao nariz… os dedos das mãos e dos pés inchavam com as frieiras e até as canelas eram lambidas pelo maldito frio!
 
 
 
Não havia meio de passar, o raio do frio; parecia que São Jorge tinha sido amaldiçoada pela sorte… Cristo esquecera-se daquele ermo…
 
Parecia que os cavaleiros do apocalipse visitavam com regularidade a nossa aldeia… a fome devorava muitas faces… na escola da ponte havia dias em que mais que um miúdo desmaiava com a fraqueza. “Deu-lhe o fanico, comentávamos nós ao assistir a este misterioso “cair redondo no chão”… quando, momentos antes, no recreio, tínhamos corrido uns atrás dos outros a jogar à peçonha…
 
Não sei se as comezainas de hoje, em que se come e bebe como se não houvesse comida e bebida na quinzena seguinte, pois em S. Jorge tudo se celebra à volta de grandes pratadas e tachadas, não pretendem compensar os famintos tempos idos, incluindo os anos 50 e 60 do século passado!
 
De facto, nesses tempos rapou-se muita fome…
 
A mina despediu muitos mineiros que depois se desnortearam nas muitas tabernas da aldeia…
 
A sorte era madrasta para os são-jorgenses, pois nas alturas das festas aconteciam aquelas tragédias… “mais um mineiro esmagado por um liso”!
 
A gastroenterite levou ranchos de bebés e crianças… houve semanas em que íamos mais que uma vez ao cemitério transportando, com os olhos rasos de lágrimas, leves urninhas alvas…
 
Até o tanque do lodo da Panasqueira rebentou, inundando e queimando muitas hortas lá para os lados do Vale-do-Muro, reduzindo ainda mais as magras colheitas de algumas famílias de mineiros…
 
Houve cheias que arrastaram e mataram sonhos ainda meninos, transportando tragédia e luto carregado a famílias numerosas, sendo ainda hoje visíveis sinais de destruição desde a Archã até à Corte Cratão…
 
A emigração levou consigo as algazarras da Cruz-da-Rua  para as franças, as alemanhas, as bélgicas e outras longínquas paragens.
 
O luto, a tristeza, as mágoas da emigração e a calma aparente ocuparam as ruas e o espírito da aldeiazinha da minha infância que, até aí, tinha sido, alegre e bucólica…
 
 
 
Até parecia que nós, as crianças daquele tempo, tínhamos perdido os sorrisos e a inocência pueril…
 
Mas não!
Felizmente continuávamos a sonhar e ser solidários, à nossa maneira, uns com os outros, apesar das traquinices e algumas pequenas malvadezes…
 
Vi-o pela primeira vez à Eira. Foi à Eira que convivemos durante a sua breve passagem por São Jorge. Era franzino e parecia ter a minha idade… Apesar de vestir roupa remendada e já usada por outras crianças que entretanto cresceram; tinha uma postura quase distinta, corajosa, frontal, nos seus 6 ou 7 anos… fiquei curioso e quis conhecê-lo…
 
Cruzamos o olhar, e senti-lhe o frio e o estômago quase colado às costelas… mas com um olhar digno e nada amedrontado por estar no meu território, nem me olhava subserviente, receoso…
Admirei-lhe esta maneira de falar comigo sem quebrar o silêncio… Foi assim durante vários dias em que esteve em São Jorge. Não falávamos muito, quase não tagarelávamos… quase não era preciso trocar palavras para pressentir o que o Menino do Peso (acho que era do Peso… ou seria do Ferro?) estava a pensar…
 
O pai deste menino tinha o ar de quem quase tinha desistido de viver… arranjava cestos, cabazes e cestas de verga e outros pequenos trabalhos, que as pessoas lhe davam mais por esmola que por reais necessidades…
 
Nesses dias friorentos, dias em que o frio dói mesmo, eles dormiam onde calhava… ora num coberto, atrás da palha, ora num palheiro ou numa loja, partilhando a cama com cabras, a quem agradeciam o precioso calor tépido que emprenhava o ar e subia através dos soalhos para o piso superior das casas de pedra…
 
A melancolia do Menino do Peso raramente era quebrada por um sorriso… a morte da mãe tirara-lhe o dom de sorrir naturalmente e ao pai a vontade e a energia de viver e lutar pela vida… o próprio pai parecia uma pessoa doente, sentado nas escaleiras da Eira à volta com os cestos de verga…
 
O desespero invadia o rosto do Menino do Peso sempre que o pai lhe dava uma saca e um cântaro de latão e lhe dizia…
 
Vá! Agora vai pedir às portas!...
 
A saca era para o milho, alguma broa, uma rara posta de bacalhau seco, uma raríssima chouriça de farinha ou um bocado de carne gorda embrulhada em papel grosso e o cântaro era para os raríssimos centilitros de azeite que alguma alma caridosa pudesse dispensar naqueles tempos em que a fome também habitava em muitas casas de S. Jorge.
 
O pai ameaçava-o e o Menino do Peso recusava-se, tentando dizer que preferia passar fome e da grossa, a ir pedir às portas…
 
Uma ideia assaltou-me a mente! Fiz-lhe sinal que aceitasse a saca e o cântaro e viesse comigo…
 
“Ô tiá Maria, Ó tiá d’Jesus, Ó Tiá Laura… dê uma esmola pra este menino”, gritava eu de porta em porta com a saca e o menino com o cântaro na mão…
 
Tivemos sucesso a maior parte das vezes e ao chegarmos à Eira o Menino do Peso contrariado entregava os donativos ao pai que, nestas alturas e só nestes momentos, sorria por brevíssimos instantes…
 
A última vez que fomos pedir, a nossa ronda foi muito fraca… só uma mísera medida de milho e uma fatia de broa conseguimos apurar no fundo da saca…
 
Estava a conseguir compensar a colheita, com mais milho e uma broa, para além de uma chouriça, quando, ao despejar duas boas canecas cheias de azeite do pote de barro que descansava por baixo da cantareira, tudo confiscado na nossa cozinha, a minha mãe nos apanhou com a boca na botija!...
 
Da aflição, passei à justificação e ela lá aceitou os meus argumentos… sem antes me repreender por tamanho rombo na dispensa lá de casa…
 
Recordo a corrida que demos da Capelinha até à Eira e, mais uma vez o olhar sorridente do pai do Menino do Peso quando lhe entregou a saca bem recheada e o cântaro, donde escorria algum azeite aprisionado à pressa…
  
 
Gostaria de encontrar o Menino do Peso para lhe dar um abraço e lhe agradecer estas vivências tão profundas, pois foi com ele que aprendi algumas lições de solidariedade e a lutar contra as adversidades!

 

 

 

 

O Caminho da Capela

 

Os segredos do Caminho da Capela…

Demorou mais de hora e meia, com paragens para recuperação do fôlego e para dar descanso aos joelhos doridos, a ida desde a Cruz-da-Rua até à Capela para movimentar o corpo e alargar a vista, sentado na breve escadaria em lousa, na base do monumento do Sagrado Coração de Jesus.
 
Os altifalantes do relógio da Capela encheram-lhe os ouvidos com a melodia repetitiva das duas da tarde!
 
Apesar da ligeira brisa, um pouco friorenta, sentiu-se aquecido pelo sol tímido desta tarde mesmo em cima da Páscoa de 2009… Ajeitou o boné do Benfica e passeou o olhar pelo Povo aconchegado, concentrou-se de seguida na torre alva da igreja e levantou o olhar para as enormes pás do gerador eólico que pareciam ceifar os pinheiros lá no alto da Abesseira
 
Gostava de ir mais vezes à Capela, mas cada dia que ia lhe parecia mais difícil; mas não podia desistir, não tanto pelo exercício que exigia às suas cansadas e frágeis pernas, mas pela oportunidade das viagens que podia fazer aos seus sonhos, uns realizados e outros ainda por realizar, mas muito bons para acertar contas e se pôr em paz com memórias e emoções que o inquietavam e angustiavam…
 
Esta já era a 82ª primavera que estava a viver e lembrava-se, como se fosse hoje, que quando tinha 8 anos, fazia nuns míseros 5 minutos, e se fosse preciso, várias vezes ao dia, o caminho da Eira à Capela… E agora não conseguia baixar da hora e meia… mas ficava a consolação de que as viagens de hoje ficavam cheias de aventuras, histórias e sonhos visitados, enquanto que aos oito anos apenas sentia o sibilar do vento nas orelhas, provocado pela velocidade que conseguia atingir nessas corridas…
 
Ao olhar para a Ponte começou a recordar que foi também pela Páscoa, mas na de 1964, que lá em baixo, às 5 da manhã, apanhou a carreira… para a emigração… a carreira gemia com o peso das mágoas que levava consigo!
 
 
Foi nessa Páscoa que emigrou para França, mais precisamente para os arredores de Belfort…
 
Demorou quase quatro dias a chegar a Belfort e não pregou olho naquela rocambolesca viagem em que rapou frio, enjoou a merenda e em que as angústias e as saudades da mulher, dos filhos, dos pais, das irmãs, dos amigos, dos lugares da aldeia, das minas não o deixaram pregar olho entre as camionetas e os comboios que teve de apanhar, carregando a mala da roupa e o malote da merenda que foi partilhando com os companheiros desta viagem não desejada por nenhum deles…
 
Alguns dos conterrâneos que o esperaram na estação, à chegada a Belfort, ainda o desanimaram mais…
- “Olha que isto está difícil… se não fosse por vergonha e se soubesse que nas Minas me voltavam a admitir quem regressava era eu”, disse-lhe, à chegada a Belfort, um primo afastado…
 
A esta distância é com ironia que reconhece que, nestes momentos difíceis, por vezes, os familiares mais próximos desajudaram, enquanto que outros conterrâneos que não passavam de vizinhos se revelaram os verdadeiros amigos deste acabrunhado e desalentado sanjorgense longe de casa …
 
Ao chegar à casa onde ia ficar e onde se partilhavam quartos, cozinhas e casas-de-banho, propriedade da entreprise de construção civil onde iria trabalhar, um vizinho sanjorgense, já com uns anitos de França e uns bons anos mais velho que o nosso aprendiz de emigrante, puxou-o para o pé de si, apontou-lhe uma cama arranjada, no outro canto do quarto, junto a um armário para guardar os seus pertences.
 
Sentou-o à mesinha junto à janela e serviu-lhe uma excelente sopa de legumes bem quente que tinha feito de propósito para o receber… Ainda hoje lembra, com saudade, este amigo já desaparecido que o reconfortou e aqueceu com aquela sopa divinal… mais do que a fome apaziguou-lhe as mágoas e a saudade…
 
Terminada aquela grande malga de sopa, que lhe reconfortou o estômago que passara os últimos quatro dias a sandes, viu o amigo mais velho puxar da carteira e retirar cuidadosamente uma grande nota de 500 francos novos e dirigindo-se ao aprendiz de emigrante disse-lhe, estendendo-lhe a nota, “esta estava guardada para ti!”
 
Perante a relutância em aceitar a nota o amigo mais velho disse-lhe, “guarda-a, podes precisar dela! A mim não me faz falta nos tempos mais próximos.”
 
Mas nos dias que se seguiram, perante as dificuldades de adaptação ao trabalho nos andaimes dos altos prédios em construção, as saudades e a tristeza por ter a família tão longe e, especialmente, porque ouvia constantemente as lamentações e os desânimos dos conterrâneos mais novos, que o criticavam dizendo-lhe… “não sabes o que perdeste, teres saído do trabalho que tinhas fora da mina e vires para aqui!…”, o desalento foi ganhando terreno.
 
Estava quase a fazer 3 semanas que estava em Belfort e as coisas só pioravam… ainda não tinha conseguido dormir uma noite sossegado… adormecia uma meia-hora cada noite e depois… volta para aqui, pensamentos desvairados para acolá e… mais nada… não pregava olho em toda a noite!
 
Além da tristeza que o não largava, andava cada vez mais acabrunhado pois receava cair dum andaime ou da grua onde também trabalhava!
 
Basta! Decidiu que aquela não era a sua vida. Ia desistir.
 
Falou com o encarregado  nesse mesmo dia à noitinha e disse-lhe que se ia embora para Portugal, no dia seguinte de manhãzinha, no comboio das 7 da manhã. Falou com um espanhol, colega de trabalho, que lhe prometeu levá-lo na sua carripana à estação do comboio, às 6 da manhã do dia seguinte… 
     
Estranhamente ou não, nessa noite dormiu como uma criança … das 9 da noite às 5 e meia da manhã… Acordou e sentia-se muito bem! Pela primeira vez em terras francesas tinha dormido uma noite inteira; estava bem disposto e foi com alguma pena que pegou na mala e no saco da merenda e, depois de se despedir do velho amigo que lhe fez aquela sopa especial e lhe ter devolvido a nota dos 500 francos novos de que já não iria precisar, saiu à procura do colega espanhol que tinha ficado de o levar à estação dos caminhos de ferro de Belfort. Já não era muito cedo, pois ainda tinha que comprar o bilhete…
 
 Esperou, esperou à porta do escritório e… do colega espanhol... nem sinais... Nada…
 
Já eram quase 6 e meia e os emigrantes começavam a sair dos quartos para se dirigirem para as obras quando lhe apareceu o encarregado e lhe perguntou se não ia apanhar o comboio… O nosso aprendiz de emigrante sanjorgense contou-lhe que o espanhol não aparecia…O encarregado riu-se e disse-lhe que o espanhol tinha estado nos copos até às tantas e seria um milagre se ele se conseguisse levantar lá para o meio-dia, para trabalhar, quanto mais para o ir pôr à estação… devia ser lindo!
 
“Olhe que esta noite dormi mesmo bem… estou como novo e muito bem disposto, retorquiu-lhe o nosso conterrâneo!”
 
“Mas porque não ficas? Porque não vais trabalhar?” Disse-lhe o encarregado.
"Tenho aqui a tua ficha que ia levar para o escritório… vai mas é picar o ponto e força, que isso já passou… Preciso de trabalhadores como tu e agora mais descansado vais ver que te vai correr tudo muito melhor!..."
 
O nosso amigo sanjorgense sentiu aquele momento como especial e viu no encarregado um sinal de esperança, de que deveria começar ali a sua saga de emigrante e disse ao encarregado… “obrigado pela sua confiança. Vou-me já despachar ”.
 
 
Foi a correr pôr a mala no quarto, deu um abraço ao velho amigo que o ajudou no primeiro dia, que lhe segredou… “Bem-vindo ao mundo dos emigrantes!...”. Vestiu o fato-macaco, agarrou no saco com a merenda e estugou o passo para pegar às sete em ponto!
 
Sentiu que tinha feito o seu luto e já tinha ultrapassado o momento difícil de adaptação a uma terra e gentes diferentes. Cheio de energia foi para o trabalho, com a convicção que tinha mesmo que ganhar a vida, pois acreditava num futuro diferente para os seus filhos e numa casa nova em São Jorge! 
 
45 anos depois, nesta Páscoa de 2009, reformado há uns bons anos da mina, das franças e das alemanhas o nosso conterrâneo, na casa dos 82 anos, ainda teve forças para ir da Capela ao Cemitério e depois de passar pelas campas dos familiares mais chegados ainda dirigiu pensamentos de admiração e reconhecimento junto à campa do velho amigo que tão bem o acolheu quando chegou tão desalentado a Belfort!
 
 
De regresso ao Povo, já passava das cinco da tarde, ia matutando com os seus botões…
“Quem diria que um passeio até à Capela me iria guardar para esta viagem tão longa… Andei pelas Franças e pela década de 60 do século passado… que grande viagem!!!”
 
Ao dobrar a curva aos Covões deu consigo a murmurar… “esta viagem é para ser guardada por ti, Caminho da Capela!”
 
 
“Qualquer dia partirei para outra grande viagem…”

 

 

 

 

Ilustres São-jorgenses

 

Um grande Homem de Cebola
 
Chama-se Albertino por uma razão especial.
Podia chamar-se Augusto ou Manuel, ou mesmo Joaquim ou…
 
 
Tinha mesmo que parar!
 
Os pulmões pareciam que iam rebentar a todo o momento.
Albertino arfava descontroladamente a subir a vereda empinada para o Vale-de-Ermida…
 
Sentou-se numa pedra fria já perto da boca da mina, onde já dava o sol matinal daquele domingo gelado dum inverno duro, nos idos anos de 61!
 
- Maldita sorte, murmurou Albertino… A caminho dos 41 e já se sentia corroído pela maldita silicose…
 
Com cuidado e afecto, poisou o cabrito que trazia como um cachecol à volta do pescoço, afagou-o e protegeu-o do frio, metendo-o na saca que tirou do bolso do casaco de ganga azul e aconchegou-o no seu colo.
Do outro bolso tirou a onça de tabaco e começou a enrolar um cigarro, enquanto apreciava a vista parcial que tinha de Cebola… Dali via o Pombal, o Rodeio, a Capela, uma nesga do Povo e claro os Torgais…
 
Saíra de casa ainda não tinham dado as 6 da manhã no sino da Igreja e já tinha andado quase 1 hora… Saiu ainda estava bem escuro, pois ninguém precisava de saber aonde ia… mas a geada era muita… teve que ter muito cuidado a descer ao Cascalhal, onde havia degraus cheios de gelo; também ao subir a canada do Ribeiro-do-Souto todos os cuidados foram poucos… ainda lhe soava o barulho característico das suas botas cardadas a pisarem a terra encramelada, ao passar junto aos pinheiros da Abesseira…
 
Passada a barreira branca teve que começar a ter cuidado com os desmontes, as torvas, as pequenas minas e as trincheiras abertas pelo pessoal do salta-e-pilha… onde também trabalhavam as suas irmãs e o irmão dispensado da Mina!
 
Apesar de tudo Albertino considerava-se um homem com sorte… tinha escapada à lista dos dispensados das Minas, pois continuavam a considerá-lo um mineiro de primeira!
 
Teve que concentrar-se ao passar pela Fraga Alta, pois aí o gelo estava bem mais perigoso e um tombo daquelas alturas era morte certa!
 
O pior era a maldita silicose, pensou ele!
 
Já com a respiração mais calma e com o cigarro a meio lembrou-se da tristeza que estariam a sentir os seus filhos mais novos… A mulher bem lhe disse às 4 da manhã…
- É melhor levantares-te já, Albertino… a ver se as cachopas não dão conta que levas o cabrito da Charentita… senão é uma choradeira.
 
Depois da dejua, por volta de cinco e meia, Maria meteu-lhe uma bucha no bornal que o acompanhava sempre que saía por umas horas; Albertino foi espreitar o quarto das 4 cachopas que dormiam sossegadas, duas para a cabeceira e duas para os pés da cama e no quarto de baixo, ao lado da loja os 3 cachopos, mais velhos, também estavam ferrados a dormir!...
Dois já trabalhavam na Correia e era do futuro deles que era preciso ir tratar! Seria bem-bom que o Sr. Engenheiro os conseguisse puxar para a Carpintaria ou para a Oficina… o mais velho até se ajeitava bem com as coisas da luz eléctrica!
 
Queira Deus que se livrem da Silicose! Murmurava enquanto olhava a serra do Picoto esbranquiçada e mordiscava o cigarro que lhe queimava a garganta sempre que dava uma fumaça!
 
Pois. Era por causa da Mina que ia esta manhã friorenta a caminho da Barroca Grande!...
 
Evitou passar à boca da galeria para não ser visto pelo guarda e estugou o passo já no estradão mais plano. Queria ver se ainda conseguia regressar a tempo da missa das 11, pois também não queria dar explicações a ninguém…
 
A parte mais difícil já estava!
 
O cabrito pressentia que tudo ia ser diferente e ao Albertino doía o coração sempre que sentia os seus gemidos misturados com o hálito quente que lhe aquecia o pescoço.
 
Ainda experimentou a dúvida… ainda hesitou e esteve a um passo de voltar para trás, mas a dureza da vida e o futuro dos cachopos plantava-se-lhe ali à frente… Estas dúvidas dissiparam-se quando, subitamente, começou a ver, lá em baixo, o aterro da Barroca Grande e a Lavaria à esquerda, enquanto que o Hospital das Minas lá estava ao fundo à direita da estrada... Também as carreiras com as pequeninas casas dos mineiros à esquerda da estrada e… ironia das ironias a Capela ficava do outro lado da estrada, do mesmo lado das vivendas do staff, assim como o Escritórios das Minas, onde semanalmente ia receber a jorna de 90 escudos, num envelope que cuidadosamente guardava no bolso interior da jaqueta de trabalho e entregava religiosament à sua Maria, mal chegava a casa, ao fim do dia… Como a estrada serpenteava pela encosta abaixo e separava dois mundos bem diferentes!
 
Albertino afastou estes pensamentos desestabilizadores; problemas já tinha de sobra… as 8 bocas lá de casa não permitiam grandes ousadias!
 
Evitou a estrada, optou pela vereda que passava por trás dos Escritórios das Minas e embrenhou-se por entre sebes, ciprestes e árvores de grande porte que ladeavam e escondiam as vivendas dos Senhores Engenheiros… Por voltas do campo de ténis viu que ainda era cedo – oito menos um quarto – e resolveu esperar uns minutos mais… até às 8, oito e picos! Com o lenço vermelho enxugou os suores frios que lhe humedeciam o cabelo e o pescoço, ajeitou a gorra, vincou o casaco de ganga azul, limpou as botas cardadas numas ervas que cresciam mesmo junto à sebe, acalmou o cabrito e voltou a resguardá-lo na saca…
 
Enrolou mais um cigarro e puxou umas boas fumaças mesmo atrás da sebe que escondia a casa do Sr. Engenheiro.
 
 Timidamente espreitou por cima da sebe e pareceu-lhe ver o Sr. Engenheiro a terminar o seu pequeno almoço e a ler o jornal na sala de estar da casa, ao lado de uma acolhedora lareira, onde crepitava um lume acolhedor…
 
Albertino acabou o cigarro, esperou mais uns minutos, ganhou coragem e depois de respirar fundo e voltar a ajeitar a gorra dirigiu-se à porta da casa e, antes de bater, deixou a saca com o cabrito a uns metros, mesmo atrás de um canteiro e… tocou a campainha.
 
A porta abriu-se e uma empregada elegante, num bonito avental imaculadamente branco, com um peitilho cheio de rendas azuis e de olhar penetrante inquiriu…
- Bom dia, que deseja?
- Bom dia menina, desculpe-me bater tão cedo, retorquiu o Albertino. O Sr. Engenheiro está? Queria dar-lhe uma palavrinha, se faz favor…
A zelosa empregada, vendo-o de mãos a abanar, reagiu de imediato…
- Não, não está.  Com sua licença… E fechou-lhe a porta na cara.
 
Albertino ficou surpreso! Saiu para o pátio, pegou na saca com o cabrito e regressou para trás da sebe e voltou a espreitar a sala e confirmou que o Sr. Engenheiro já tinha acabado de comer e continuava a ler o jornal, agora sentado num sofá mesmo ao lado da lareira…
Deixou passar uns bons 15 minutos e voltou a fazer tudo como dantes; escondeu o cabrito, ajeitou a gorra, esticou o casaco de ganga azul, limpou as botas e voltou a bater à porta…
A empregada com pouca elegância respondeu-lhe com alguma aspereza, depois de o ver de mãos vazias, que o Sr. Engenheiro não estava!!!
 
Albertino não queria crer no que via e ouvia… sem deixar fechar a porta pegou na saca e apertou com força o pescoço do cabrito; este berrou, ouvindo-se um prolongado e altíssimo mééééééééé!!!
 
De imediato se ouviu a voz do Sr. Engenheiro:
- Entre! Entre. E dirigiu-se para a porta, convidando Albertino a entrar!
- Entre, se faz favor….
 
Oferecido o cabrito, uma prenda dos cachopos que trabalhavam na Lavaria e conseguida a promessa do Sr. Engenheiro de que iria fazer os possíveis pelo futuro dos cachopos, e que era capaz de arranjar umas vagas na Oficina e encaixá-los lá, Albertino desculpou-se por ter incomodado e despediu-se, prometendo um presunto, o paio do porco e umas chouriças de lombo lá para o Carnaval…
 
Estugou o passo estrada acima, pois já tinham batido as 9 horas havia um bom bocado…
 
No caminho, ainda teve tempo para meter qualquer coisa na boca… a bucha que a mulher lhe meteu no bornal soube-lhe que nem ginjas… meia morcela com uma boa fatia de broa e a acompanhar duas boas goladas da bota de vinho…
 
Quando descia a canada para o Ribeiro-do-Souto tocou à missa, eram dez e meia… ainda conseguia chegar a tempo da missa das 11!   
 
   
Depois da missa e já à mesa para o almoço de domingo, a duas semanas do Natal de 61,  Albertino teve de reconfortar as filhas magoadas e cheias de saudades e com pena do cabrito da Charentita, que iria certamente preencher uma das refeições do Sr. Engenheiro, enquanto que as 9 bocas da casa do Albertino depois de uma malga de sopa das couves com feijões, começavam agora o segundo, uma grande travessa de barro com o enxume das couves e feijões, regadas com azeite e 3 bocados de entremeada…
 
Os 9 rostos desta família aproximaram-se, agradeceram a Deus este almoço, fecharam-se num círculo apertado e de furchetes e colheres em punho, e com fatias de broa de milho na outra mão atacaram alegremente as couves com feijões fumegantes…   
 
 Albertino olhou para a sua família humilde, mas momentaneamente feliz… experimentou uma sensação de paz interior, pois começou a acreditar que os seus filhos não iriam apanhar silicose!
 

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