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Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

É HORA DE PARTIR...

 

Nathalie experimenta uma enorme saudade de S. Jorge.

 

É sexta-feira santa. Está sentada nos degraus de laje do Cristo-Rei, à Capela e olha com enorme nostalgia para o meio do Povo.

Aqui passou os últimos quatro dias. Tantas coisas que sentiu, viu e revisitou… Por um lado sente que já faz parte de S. Jorge e que já cá vive há muitos, muitos dias.

Não quer partir, sente uma enorme tristeza a invadi-la…

 

Lembra-se de seu pai, que partia sempre de S. Jorge com o coração apertado e os olhos andavam marejados de lágrimas, lá por Paris por muitos dias, depois da saída de S. Jorge. Era sempre assim… Agora Nathalie estava a sentir o mesmo aperto, o mesmo peso no estômago!...

 

Mas tem de partir! Prometera à sua mãe que passaria com ela a Páscoa! Tinha-a convencido a subir à Torre Eiffel, onde nunca o seu pai a conseguira levar e iriam ver o São Jorge de Rafael, pequenino quadro, que se pode contemplar no Louvre, mesmo ao lado da sala onde habita o quadro mais visitado de todo o mundo… A Gioconda.

 

Nathalie tem mesmo de partir! É meio-dia e tem que estar no Aeroporto de Lisboa às 7h, para apanhar o avião para Paris…

 

A sua mãe compreendeu a razão porque não vendeu a casa de S. Jorge. No fundo até ficou orgulhosa com a atitude de Nathalie.

- Não precisas de te explicar, filha, eu fazia o mesmo… há coisas que não se podem vender; quando muito, só mesmo em extrema necessidade…

Os vizinhos, embora mostrassem pena, também tinham compreendido. Um deles já tinha prometido aos filhos e netos que se iriam juntar todos em S. Jorge, neste verão! Nathalie prometeu-lhe que lhe emprestava a casa, por uma ou duas semanas, quando não precisasse… Este vizinho também acabou por lhe agradecer, pois sentia que poderia cumprir a sua promessa.

 

O dia estava bonito. É sempre assim. Quando partimos é quando tudo nos prende e só sentimos vontade de adiar ou nunca mais partir…

Estava Nathalie embrulhada nos seus pensamentos, descansando o olhar neste céu tão azul, cortado em dois pelo rasto de um avião, lá no alto; céu como este não há em mais lado nenhum!  Sentia os cheiros do mato a florir, ouvia o chilrear dos pássaros, mesmo ali nas árvores da Capela… e as flores de cantarinha mesmo ali à frente das escaleiras do Cristo-Rei… A natureza explodia e invadia todos os poros de Nathalie…

 

Ainda lhe doíam os pés e as pernas, com tanto que andou por S. Jorge naqueles dias…

Reviu todos os passeios que deu…

 

Julgava que se perderia, mas coisa estranha, sempre que se aventurava por qualquer quelha, qualquer caminho, pressentia sempre que já ali tinha passado e surgiam-lhe as imagens e as emoções que viu e sentiu, quando esteve, naquelas férias grandes, em S. Jorge, nos seus 12 anos…

 

Tudo tinha começado, na segunda-feira, à tarde, na cozinha da casa velha… continuou na sala de baixo, quando brotaram os seus sentimentos escondidos pelo Tonito!...

 

Olhou para a Igreja, mesmo à sua frente e reviu o primeiro grande passeio que deu…

 

Desceu, ao lado da casa do Sr. Padre, ao Vale e subiu à Abesseira; pelo mato foi até debaixo do grande castanheiro; no Ribeiro-Souto reviu e imaginou as mulheres a lavarem a roupa, um pouco mais acima da presa cheia de água esbranquiçada pela espuma do sabão e quase as ouvia a cantar e a cochichar os apartes das vidas das vizinhas…

 

Subiu, com esforço, à canada e, lá no alto, ofegante, virou à direita e descobriu que tinha estado sentada com o Tonito debaixo da enorme amoreira… ele oferecera-lhe um fio de amoras, que ela pôs como colar e jurou intimamente guardá-lo para toda a vida…

 

Esfolou um joelho num tanganho, a descer para a Archã, onde ainda se vêem os resultados da destruição, provocados por uma grande cheia; do alto da parede deste chão cheio de cascalho, do ribeiro que transbordou, imaginou o poço onde as mulheres da Costa iam lavar a roupa… e a água esbranquiçada cheia de alfaiates e bacorinhas…

 

Subiu à Façoute, passou debaixo de castanheiros arruinados, rompeu a camisa nas mouteiras e giestas secas, enfarruscou-se pelo mato que a cobria e, sem querer, foi ter ao caminho que vai da Cortevale para as Aradas…

 

Tentou subir, mas não encontrou a vereda da mina da Brouca e, sentindo-se já bastante cansada, desceu até à suave planura da Cortevale… descansou, refrescou-se no tanque que tem um palheiro, construído por cima e aí gozou, por largos minutos o aprazível silêncio do lugar… quebrado aqui e ali por um cuco que se anunciava… ainda tentou dar uma cambalhota a ver se descobria alguma coisa, pois foi a primeira vez que ouviu um cuco em muitos, muitos anos…

 

Regressou pela Barroquina da Cal, cumprimentou as espantadas vizinhas da Costa que se silenciaram à sua passagem… ouvindo-as depois cochichar, atrás de si… quem é??? E uma outra voz cochichava… atão não vês q’ié a praf’ssora, f’lha da t’iá Rosália da França?!!!

 

Este foi o primeiro de longos passeios em que redescobriu emoções, vivências infantis e afectos escondidos…

 

Foi ao Picoto, mas de carro, deslumbrou-se com as paisagens e desceu à Covanca, esteve na barragem de Santa Luzia, parou à Portela e sonhou voar sobre S. Jorge; passou pelo nicho dos Lameiros, subiu à mina da Selada; aí, ainda experimentou andar uns metros dentro da mina seca… Redescobriu a fraga do Penico e estalou os dentes a beber a água fria, à  Fontanheira…  Passou pelo Pombal, essa cascata de casas, apreciou as nesgas de S. Jorge que se descobrem por entre as casas do Pombal…

 

Revisitou casas de pedra e barro vermelho e lembrou-se de humildes casinhas, lavadas de fresco, a cheirar a rosmaninho e decoradas com enfeites de jornais colados, a farinha e água, nos caibros escurecidos… a anunciar e abrir portas à visita pascal…

 

Boas festas acompanhadas por Deus, Nosso Senhor, Aleluia, Aleluia…

Antes de entrar no carro, parado no largo das festas da Capela, e dizer adeus a S. Jorge, ainda se lembrou e trauteou  parte do hino de S. Jorge, mas em versão namoradeira…

 

“São Jorge oh minha terra

Tens ao lado a capelinha

Onde as moças vão namorar

Nos domingos à tardinha”

 

Claro que iria voltar logo que pudesse a S. Jorge…

 

Jurou a si própria que sempre que conseguisse juntar uma semana de férias, voltaria à procura de si, do seu passado, das suas memórias e claro dos seus afectos futuros…

 

 

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