Sábado, 17 de Abril de 2010

É HORA DE PARTIR...

 

Nathalie experimenta uma enorme saudade de S. Jorge.

 

É sexta-feira santa. Está sentada nos degraus de laje do Cristo-Rei, à Capela e olha com enorme nostalgia para o meio do Povo.

Aqui passou os últimos quatro dias. Tantas coisas que sentiu, viu e revisitou… Por um lado sente que já faz parte de S. Jorge e que já cá vive há muitos, muitos dias.

Não quer partir, sente uma enorme tristeza a invadi-la…

 

Lembra-se de seu pai, que partia sempre de S. Jorge com o coração apertado e os olhos andavam marejados de lágrimas, lá por Paris por muitos dias, depois da saída de S. Jorge. Era sempre assim… Agora Nathalie estava a sentir o mesmo aperto, o mesmo peso no estômago!...

 

Mas tem de partir! Prometera à sua mãe que passaria com ela a Páscoa! Tinha-a convencido a subir à Torre Eiffel, onde nunca o seu pai a conseguira levar e iriam ver o São Jorge de Rafael, pequenino quadro, que se pode contemplar no Louvre, mesmo ao lado da sala onde habita o quadro mais visitado de todo o mundo… A Gioconda.

 

Nathalie tem mesmo de partir! É meio-dia e tem que estar no Aeroporto de Lisboa às 7h, para apanhar o avião para Paris…

 

A sua mãe compreendeu a razão porque não vendeu a casa de S. Jorge. No fundo até ficou orgulhosa com a atitude de Nathalie.

- Não precisas de te explicar, filha, eu fazia o mesmo… há coisas que não se podem vender; quando muito, só mesmo em extrema necessidade…

Os vizinhos, embora mostrassem pena, também tinham compreendido. Um deles já tinha prometido aos filhos e netos que se iriam juntar todos em S. Jorge, neste verão! Nathalie prometeu-lhe que lhe emprestava a casa, por uma ou duas semanas, quando não precisasse… Este vizinho também acabou por lhe agradecer, pois sentia que poderia cumprir a sua promessa.

 

O dia estava bonito. É sempre assim. Quando partimos é quando tudo nos prende e só sentimos vontade de adiar ou nunca mais partir…

Estava Nathalie embrulhada nos seus pensamentos, descansando o olhar neste céu tão azul, cortado em dois pelo rasto de um avião, lá no alto; céu como este não há em mais lado nenhum!  Sentia os cheiros do mato a florir, ouvia o chilrear dos pássaros, mesmo ali nas árvores da Capela… e as flores de cantarinha mesmo ali à frente das escaleiras do Cristo-Rei… A natureza explodia e invadia todos os poros de Nathalie…

 

Ainda lhe doíam os pés e as pernas, com tanto que andou por S. Jorge naqueles dias…

Reviu todos os passeios que deu…

 

Julgava que se perderia, mas coisa estranha, sempre que se aventurava por qualquer quelha, qualquer caminho, pressentia sempre que já ali tinha passado e surgiam-lhe as imagens e as emoções que viu e sentiu, quando esteve, naquelas férias grandes, em S. Jorge, nos seus 12 anos…

 

Tudo tinha começado, na segunda-feira, à tarde, na cozinha da casa velha… continuou na sala de baixo, quando brotaram os seus sentimentos escondidos pelo Tonito!...

 

Olhou para a Igreja, mesmo à sua frente e reviu o primeiro grande passeio que deu…

 

Desceu, ao lado da casa do Sr. Padre, ao Vale e subiu à Abesseira; pelo mato foi até debaixo do grande castanheiro; no Ribeiro-Souto reviu e imaginou as mulheres a lavarem a roupa, um pouco mais acima da presa cheia de água esbranquiçada pela espuma do sabão e quase as ouvia a cantar e a cochichar os apartes das vidas das vizinhas…

 

Subiu, com esforço, à canada e, lá no alto, ofegante, virou à direita e descobriu que tinha estado sentada com o Tonito debaixo da enorme amoreira… ele oferecera-lhe um fio de amoras, que ela pôs como colar e jurou intimamente guardá-lo para toda a vida…

 

Esfolou um joelho num tanganho, a descer para a Archã, onde ainda se vêem os resultados da destruição, provocados por uma grande cheia; do alto da parede deste chão cheio de cascalho, do ribeiro que transbordou, imaginou o poço onde as mulheres da Costa iam lavar a roupa… e a água esbranquiçada cheia de alfaiates e bacorinhas…

 

Subiu à Façoute, passou debaixo de castanheiros arruinados, rompeu a camisa nas mouteiras e giestas secas, enfarruscou-se pelo mato que a cobria e, sem querer, foi ter ao caminho que vai da Cortevale para as Aradas…

 

Tentou subir, mas não encontrou a vereda da mina da Brouca e, sentindo-se já bastante cansada, desceu até à suave planura da Cortevale… descansou, refrescou-se no tanque que tem um palheiro, construído por cima e aí gozou, por largos minutos o aprazível silêncio do lugar… quebrado aqui e ali por um cuco que se anunciava… ainda tentou dar uma cambalhota a ver se descobria alguma coisa, pois foi a primeira vez que ouviu um cuco em muitos, muitos anos…

 

Regressou pela Barroquina da Cal, cumprimentou as espantadas vizinhas da Costa que se silenciaram à sua passagem… ouvindo-as depois cochichar, atrás de si… quem é??? E uma outra voz cochichava… atão não vês q’ié a praf’ssora, f’lha da t’iá Rosália da França?!!!

 

Este foi o primeiro de longos passeios em que redescobriu emoções, vivências infantis e afectos escondidos…

 

Foi ao Picoto, mas de carro, deslumbrou-se com as paisagens e desceu à Covanca, esteve na barragem de Santa Luzia, parou à Portela e sonhou voar sobre S. Jorge; passou pelo nicho dos Lameiros, subiu à mina da Selada; aí, ainda experimentou andar uns metros dentro da mina seca… Redescobriu a fraga do Penico e estalou os dentes a beber a água fria, à  Fontanheira…  Passou pelo Pombal, essa cascata de casas, apreciou as nesgas de S. Jorge que se descobrem por entre as casas do Pombal…

 

Revisitou casas de pedra e barro vermelho e lembrou-se de humildes casinhas, lavadas de fresco, a cheirar a rosmaninho e decoradas com enfeites de jornais colados, a farinha e água, nos caibros escurecidos… a anunciar e abrir portas à visita pascal…

 

Boas festas acompanhadas por Deus, Nosso Senhor, Aleluia, Aleluia…

Antes de entrar no carro, parado no largo das festas da Capela, e dizer adeus a S. Jorge, ainda se lembrou e trauteou  parte do hino de S. Jorge, mas em versão namoradeira…

 

“São Jorge oh minha terra

Tens ao lado a capelinha

Onde as moças vão namorar

Nos domingos à tardinha”

 

Claro que iria voltar logo que pudesse a S. Jorge…

 

Jurou a si própria que sempre que conseguisse juntar uma semana de férias, voltaria à procura de si, do seu passado, das suas memórias e claro dos seus afectos futuros…

 

 

publicado por CorteVale às 15:09
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Domingo, 11 de Abril de 2010

A CASA VELHA DE S. JORGE

 

 

NATHALIE (RE)VISITA A CASA VELHA DE S. JORGE

 

 Nathalie estava, pela quarta vez, em São Jorge!
 

Lembrava-se, muito vagamente, da primeira vez que tinha estado em São Jorge!
 

Não admira; não teria mais de 8 anos quando, corria o ano de 1971, os pais, emigrantes em França, nos arredores de Paris, a trouxeram a conhecer as raízes da família do pai e os sítios onde este tinha passado a sua infância e adolescência.

Tem imagens muito vagas daquela estadia, embora hoje sinta alguns locais, as caras e os cheiros com alguma familiaridade…

 

Não se esquece dos dias escaldantes e das noites quentes da festa dos mineiros de 1971… com muitos vizinhos sentados às portas de casa, à fresca, a conversarem muito alegres e com uma entoação estranha… Recorda, vagamente, os temas das conversas… as mobílias das casas novas, os apartamentos que se compraram na Covilhã, no Fundão… o dinheirão que os filhos gastavam nos estudos… o desemprego nas minas, o raio da silicose!...
 

A terceira vez que veio a S. Jorge, há 10 anos, foi precipitada pela súbita morte do pai, em Paris e, na sequência das partilhas e da herança, foi obrigada a vir regularizar a situação de alguns bens que a família possuía na zona.
 

Hoje, já na casa dos 47 anos, Nathalie, uma excelente professora de biologia, há muitos anos colocada num liceu em Paris, ainda não acredita, muito bem, porque está em S. Jorge.

Tudo se precipitou umas semanas antes desta Páscoa…

Por um lado o reitor do Liceu sugeriu-lhe que gozasse os 10 dias úteis de férias antigas, nas férias escolares da Páscoa de 2010, dispensando-a assim das suas actividades de coordenação pedagógica.

 

Quando se preparava para marcar uns dias numa praia longínqua, numa das ilhas paradisíacas da Polinésia francesa, onde ia com alguma regularidade, para carregar baterias, eis que a sua mãe lhe telefona aflita, por causa do desassossego que a casa velha de S. Jorge lhe andava a causar…

De facto, os vizinhos de S. Jorge não lhe davam descanso desde há uns meses para cá. Todas as semanas choviam telefonemas de São Jorge na residência, onde Rosália, a mãe de Nathalie, vivia desde a súbita morte do marido, a pressionarem-na para vender a casa velha de São Jorge…

 

Desde a morte do pai que mãe de Nathalie não andava bem. Na realidade nunca aceitou a sua perda e vivia num permanente sofrimento e estado de confusão, que os inúmeros internamentos não solucionaram. Com 68 anos, a mãe de Nathalie era pouco autónoma e vivia numa residência comunitária de excelente qualidade, com serviços de proximidade e cuidados clínicos permanentes, nas proximidades de Versailles.

 

Nathalie visitava a mãe duas ou três vezes por semana e sempre que o tempo o permitia iam visitar o palácio, especialmente os seus jardins. Nestes passeios conseguia ver felicidade no rosto da mãe, sempre que esta, entusiasmada, lhe explicava os detalhes das paixões e das lutas palacianas presenciadas por aquelas imponentes paredes; nestes passeios, tomavam o comboiozinho nas traseiras do palácio, levando-as a visitar o enorme parque… apeavam-se sempre junto ao grande lago frondoso, onde lanchavam e alugavam um barco a remos e gostavam de remar até ao meio do lago e ficar aí, por largos minutos a sentirem o silêncio das águas calmas, fazendo-as sentirem-se mais próximas. Estes momentos também lhes refrescavam os afectos e as memórias agradáveis… Depois tomavam um chá na esplanada debruçada sobre o lago, deleitando-se a observarem as crianças em correria ou a andarem de bicicleta e, quando a mãe mostrava sinais de fadiga, retomavam o comboizinho até ao palácio; andavam uns minutos a pé e Nathalie despedia-se da mãe, depois de a deixar aconchegada no seu quarto, na residência de idosos…

 

...

 

Nathalie deu consigo a alugar um carro no Aeroporto de Lisboa, depois da viagem agitada, num avião da TAP, repleto de alegres emigrantes, carregados de prendas e lembranças, e a viajar para S. Jorge, debaixo de um temporal, no domingo de ramos.

Pernoitou num hotel no Fundão e na 2ª f., ficou admirada com a azáfama matinal do mercado, por onde deambulou, descobrindo calçado a 1 euro, enxovais completos arrematados a 50 e estranhas cherovias a concorrerem com os peixinhos da horta…por entre anúncios do tipo “ó freguesa, compre aqui … é mais fresquinho e mais barato”, declamados entre uma bátega de chuva e um vento gelado que cortava a ponta do nariz.

 

Depois de um almoço frugal, pôs-se a caminho de S. Jorge, onde chegou pelas 3 da tarde.

 

Obtida a chave da casa velha, junto da vizinha idosa, a quem a casa estava entregue e que sabia da sua vinda e, depois de muitas festas e beijos à “m’nha Natalita”, foi dar uma vista de olhos pela casa antes de ir falar com os vizinhos, paredes meias com a casa velha, e resolver rapidamente este assunto da casa, a ver se acabavam de vez os telefonemas que vinham desestabilizando a sua mãe, lá nos arredores de Paris…

 

Ainda por cima dormira mal no Fundão. Não que o hotel e a cama não fossem acolhedores.

Ao folhear o livro de Saramago “Viagens na Minha Terra”, que o serviço do hotel tinha no quarto, tomou contacto com a trágica história vivida em S. Jorge “O fantasma de José Júnior”

 

Sentada no tabuão, carcomido pelo bicho da madeira e enfarruscado pelo lume, tantas e tantas vezes aceso na pedra, também ela crestada, que repousava no centro da cozinha, levantou os olhos para a pilheira, à sua frente, onde repousavam testos velhos, uma gadanha enferrujada, uma candeia de azeite apagada há demasiado tempo…

 

Mas ali, experimentou pela primeira vez, desde há muito tempo uma profunda paz interior. Uma sensação especial de calor e um silêncio abraçaram-na por largos momentos… Ali ao lado da cozinha morava uma cantareira antiga e ao fundo do sobrado, numa mistura de forro e dispensa encontrou, no meio de malas e trastes velhos, uma mesa feita duma caixa da pólvora das minas, umas pinhas velhas bem secas, umas torgas quase a desfazerem-se e até umas pernadas de oliveira e castanheiro…

Acendeu o lume e experimentou um calor acolhedor como há muito tempo não sentia e deu consigo a olhar para o longo tabuão, à roda do lume, a olhar a porta da cozinha com janelo, o assento de cortiço mesmo ao lado da panela de ferro enferrujada e na pilheira, uma ráfia a desfazer-se, mas que ainda conservava uma mão-cheia de sarpão seco.

 

 Deu consigo a imaginar o seu pai, os seus avós, os bisavós paternos e tios a conversarem alegremente à volta do lume e a comerem as couves com feijões, duma grande travessa, posta na pequena mesa e decorada com rodelas de chouriça de lombo, cortada em 12 bocados, para as 12 bocas que respiravam naquela cozinha…

 

Sobressaltou-se ao ouvir uma voz … “Toma! Este bocado de chouriço é para ti, minha netinha!”

 

Nathalie experimentou uma sensação de pena quando se tentou concentrar na sua missão: tinha vindo a S. Jorge para vender a casa velha a um dos vizinhos que queriam alargar as suas casas e, por isso, não davam descanso à mãe, lá em Versailles!

 

 Mas a casa velha era muito mais que uma casa… estava cheia de memórias, de afectos… Nas duas horas que passara em S. Jorge, desde que entrara na casa velha, Nathalie não deixara de sentir uma enorme explosão de emoções, recordações que julgara perdidas para sempre.

 

Ao entrar na sala grande do andar de baixo teve um sobressalto… A sala parecia bem mais pequena que a das suas memórias de criança. Sentiu um aperto no coração ao ver a arca grande de carvalho, exactamente ao lado dos gavetões de parede… estava tudo no mesmo sítio… foi sentada na arca, aos 12 anos, na sua segunda estadia em S. Jorge e de mãos dadas com o Tonito, menino dos olhos grandes e negros, que trocou o primeiro beijo e jurou amor eterno!

 

De repente sentiu uma impaciência urgente em saber o que era feito do Tonito… Durante largos anos trocaram cartas, prometeram visitar-se, irem viver um para o pé do outro, mas tal nunca acontecera… Porquê? Nathalie não encontra resposta… Será que esta é uma das razões porque nunca casou e se dedicou de corpo e alma à sua vocação de professora?

Apeteceu-lhe sair para a rua e perguntar pelo Tonito. Refreou-se. Numa das últimas cartas que trocaram e já perto dos 20 anos, ele anunciava que ia para a tropa…

 

A casa velha estava a destapar-lhe um vulcão de emoções. Cada segundo que passava presenteava Nathalie com uma torrente enorme de recordações, histórias contadas pelos avós, pelo pai…

 

Não, não podia vender a casa. Neste momento tinha a certeza que vender a casa seria amputar uma parte de si, vender e destruir recordações, memórias da sua família, seria matar a sua identidade, a sua referência cultural…

 

Está decidido. Não vendo!

 

Mais, tenho que a preservar, restaurar e escrever todas estas histórias, memórias…

Sim, a casa velha vai perdurar…

 

Continuará a viver dentro de mim!

 

 

 

publicado por CorteVale às 00:37
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