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Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

"O Fantasma de José Júnior"

 Hesitei durante muitos dias se deveria partilhar aqui – neste blog pessoal, mas pouco intimista - o meu olhar sobre esta  tragédia que aconteceu em São Jorge há uns bons 35 anos!...

 

Decidi-me! Os meus leitores merecem-me esta confiança!

 

Mexer nas nossas memórias sensíveis e mal resolvidas é, no mínimo, incómodo...

 

Todos temos telhados de vidro e todas as comunidades e povos têm “sótãos” onde se guardam e se esquecem (ou se reprimem) factos, acontecimentos, emoções e experiências, cuja revelação nunca é fácil e, a maioria das vezes, é dolorosa!...

 

Saúdo a lucidez e a coragem do Vitor e dos nossos conterrâneos que o têm acompanhado nesta reflexão e agitação das mentalidades e faço votos para que não se transforme numa catarse recriminatória, mas antes numa oportunidade para que na nossa terra não se repitam práticas de abandono, de exclusão e de violência como as que vitimaram o José Júnior!

 

Sejamos  honestos. Estas tragédias não se abateram só sobre o José... quem não se lembra de outros nossos concidadãos, mesmo crianças, que, votados ao abandono e escorraçados pela nossa comunidade, se afundaram em tragédias pessoais de desfecho igualmente chocante e que terão deixado alguns Sãojorgenses mais atentos e sensíveis completamente chocados ou mesmo destroçados?

 

Que o “fantasma do José Júnior”, título da crónica de Saramago, seja um bom fantasma para todos os Sãojorgenses e nos mantenha de espírito alerta e permanentemente lúcidos para sermos capazes de apoiar e socorrer aqueles que, ao menor sinal de alarme, se queiram despedir precocemente da vida ou desistir de serem felizes, mergulhando na valeta para onde a nossa indiferença e desdém os tem empurrado...

 

Não será que esta obsessão permanente de competição uns com o outros, em que a ética e a moral não abundam, não nos consome e aliena e não vitima aqueles que, por maior sensibilidade ou fragilidade emocional, não querem participar neste “jogo”?

 

                   

 

Há mais de 10 anos, inquietado por esta tragédia do José Júnior, desatei a oferecer em dias de aniversário de familiares esta “Viagem a Portugal”, de José Saramago, trata-se de uma viagem aos afectos, à cultura e também às angústias e fantasmas das comunidades e populações... recomendava, na altura, a leitura das páginas 141 a 143...

 

 

 

Ironicamente nunca nenhum dos meus, a quem ofereci o livro, tomou a iniciativa de discutir abertamente esta crónica – “o fantasma de José Júnior”... trata-se, de facto de 3 páginas que são um verdadeiro espelho, onde podemos espreitar o nosso rosto de SãoJorgenses e... não gostamos, de facto, do que vemos reflectido nesse espelho mágico!...

 

     

 

Não somos obrigados a gostar do que lá está escrito, mas temos a responsabilidade de aprender a evitar que algo semelhante aconteça ao nosso vizinho, ao nosso conterrâneo emigrado, ao nosso familiar, ao nosso colega dos bancos da escola!... seja ele do Pombal, da Cruz-da-Rua, da Capelinha, da Costa, do Rodeio, dos Torgais, da Ponte, do Porto, do Quintal...dos Cambões, do Vale, da Panasqueira, esteja ele no Canadá, na Alemanha, na Suíça, ou seja ele um ser humano desconhecido que esteja perto de nós!

 

 

 

Também a tragédia de José Júnior se cruzou comigo!

 

No ano lectivo de 72/73 dava aulas de educação física na Escola (na altura Comercial e Industrial) Campos Melo da Covilhã... foi a minha primeira experiência profissional a sério! Na altura hesitava entre estudar para professor de educação física, vir a ser psicólogo (o que acabou por acontecer) ou estudar advocacia. Como o ginásio da escola, onde eu dava aulas, ficava praticamente ao lado do tribunal da Covilhã aproveitava o fim das aulas para assistir discretamente a julgamentos e apreciar o funcionamento da justiça e (o que mais me interessava na altura) observar o desempenho, ora dos juízes, ora dos delegados do ministério público e... claro, as prestações dos advogados na barra de tribunal...

 

Numa tarde de um dia soalheiro, eram réus alguns jovens Sãojorgenses que tinham expressões de incrédulos... parecia que o céu lhes tinha caído em cima... estavam esmagados pela realidade que até aí lhes fora inconsciente?...Como terá sido possível que “brincadeiras estúpidas” e comportamentos inconscientes e desculpabilizados pelo efeito do álcool tivessem desencadeado aquela tragédia?!!! Pensariam eles e as não mais de uma dúzia de pessoas que comporiam a sala de audiências... 

 

Já não me lembro exactamente de qual foi o veredicto, nem isso importará, mas lembro-me de que passaria pela cabeça de alguns dos presentes que o José Júnior é que teria estado no sítio errado e tombado de forma errada no meio de uma "brincadeira inocente"!.. Muitas consciências terão ficado aliviadas quando o juiz perguntou (a um familiar?) que pena ou reparo pedia a família ao tribunal e... numa voz humilde, tímida e fortemente constrangida terá balbuciado que eram bons rapazes, filhos de famílias humildes e trabalhadoras, coitados fizeram aquilo sem querer e toldados pelo vinho... que os mandasse em paz!

 

 Na altura pensei que talvez fosse mais útil uma pena do género: "sois condenados a correr mundo durante 10 anos e ajudarem a levantar da lama todos os seres humanos que encontrardes despojados e que tenham desistido de viver..."

 

 

Provavelmente ficaremos mais em paz com o José Júnior e com nós próprios sempre que conseguirmos evitar, nem que seja por um só dia, que alguém viva os momentos trágicos que ele viveu... estas atitudes para com os nossos semelhantes serão bem mais úteis que uma qualquer tabuleta numa qualquer esquina de São Jorge!  

 

Cortevale

 

 

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