Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

O Caminho da Capela

 

Os segredos do Caminho da Capela…

Demorou mais de hora e meia, com paragens para recuperação do fôlego e para dar descanso aos joelhos doridos, a ida desde a Cruz-da-Rua até à Capela para movimentar o corpo e alargar a vista, sentado na breve escadaria em lousa, na base do monumento do Sagrado Coração de Jesus.
 
Os altifalantes do relógio da Capela encheram-lhe os ouvidos com a melodia repetitiva das duas da tarde!
 
Apesar da ligeira brisa, um pouco friorenta, sentiu-se aquecido pelo sol tímido desta tarde mesmo em cima da Páscoa de 2009… Ajeitou o boné do Benfica e passeou o olhar pelo Povo aconchegado, concentrou-se de seguida na torre alva da igreja e levantou o olhar para as enormes pás do gerador eólico que pareciam ceifar os pinheiros lá no alto da Abesseira
 
Gostava de ir mais vezes à Capela, mas cada dia que ia lhe parecia mais difícil; mas não podia desistir, não tanto pelo exercício que exigia às suas cansadas e frágeis pernas, mas pela oportunidade das viagens que podia fazer aos seus sonhos, uns realizados e outros ainda por realizar, mas muito bons para acertar contas e se pôr em paz com memórias e emoções que o inquietavam e angustiavam…
 
Esta já era a 82ª primavera que estava a viver e lembrava-se, como se fosse hoje, que quando tinha 8 anos, fazia nuns míseros 5 minutos, e se fosse preciso, várias vezes ao dia, o caminho da Eira à Capela… E agora não conseguia baixar da hora e meia… mas ficava a consolação de que as viagens de hoje ficavam cheias de aventuras, histórias e sonhos visitados, enquanto que aos oito anos apenas sentia o sibilar do vento nas orelhas, provocado pela velocidade que conseguia atingir nessas corridas…
 
Ao olhar para a Ponte começou a recordar que foi também pela Páscoa, mas na de 1964, que lá em baixo, às 5 da manhã, apanhou a carreira… para a emigração… a carreira gemia com o peso das mágoas que levava consigo!
 
 
Foi nessa Páscoa que emigrou para França, mais precisamente para os arredores de Belfort…
 
Demorou quase quatro dias a chegar a Belfort e não pregou olho naquela rocambolesca viagem em que rapou frio, enjoou a merenda e em que as angústias e as saudades da mulher, dos filhos, dos pais, das irmãs, dos amigos, dos lugares da aldeia, das minas não o deixaram pregar olho entre as camionetas e os comboios que teve de apanhar, carregando a mala da roupa e o malote da merenda que foi partilhando com os companheiros desta viagem não desejada por nenhum deles…
 
Alguns dos conterrâneos que o esperaram na estação, à chegada a Belfort, ainda o desanimaram mais…
- “Olha que isto está difícil… se não fosse por vergonha e se soubesse que nas Minas me voltavam a admitir quem regressava era eu”, disse-lhe, à chegada a Belfort, um primo afastado…
 
A esta distância é com ironia que reconhece que, nestes momentos difíceis, por vezes, os familiares mais próximos desajudaram, enquanto que outros conterrâneos que não passavam de vizinhos se revelaram os verdadeiros amigos deste acabrunhado e desalentado sanjorgense longe de casa …
 
Ao chegar à casa onde ia ficar e onde se partilhavam quartos, cozinhas e casas-de-banho, propriedade da entreprise de construção civil onde iria trabalhar, um vizinho sanjorgense, já com uns anitos de França e uns bons anos mais velho que o nosso aprendiz de emigrante, puxou-o para o pé de si, apontou-lhe uma cama arranjada, no outro canto do quarto, junto a um armário para guardar os seus pertences.
 
Sentou-o à mesinha junto à janela e serviu-lhe uma excelente sopa de legumes bem quente que tinha feito de propósito para o receber… Ainda hoje lembra, com saudade, este amigo já desaparecido que o reconfortou e aqueceu com aquela sopa divinal… mais do que a fome apaziguou-lhe as mágoas e a saudade…
 
Terminada aquela grande malga de sopa, que lhe reconfortou o estômago que passara os últimos quatro dias a sandes, viu o amigo mais velho puxar da carteira e retirar cuidadosamente uma grande nota de 500 francos novos e dirigindo-se ao aprendiz de emigrante disse-lhe, estendendo-lhe a nota, “esta estava guardada para ti!”
 
Perante a relutância em aceitar a nota o amigo mais velho disse-lhe, “guarda-a, podes precisar dela! A mim não me faz falta nos tempos mais próximos.”
 
Mas nos dias que se seguiram, perante as dificuldades de adaptação ao trabalho nos andaimes dos altos prédios em construção, as saudades e a tristeza por ter a família tão longe e, especialmente, porque ouvia constantemente as lamentações e os desânimos dos conterrâneos mais novos, que o criticavam dizendo-lhe… “não sabes o que perdeste, teres saído do trabalho que tinhas fora da mina e vires para aqui!…”, o desalento foi ganhando terreno.
 
Estava quase a fazer 3 semanas que estava em Belfort e as coisas só pioravam… ainda não tinha conseguido dormir uma noite sossegado… adormecia uma meia-hora cada noite e depois… volta para aqui, pensamentos desvairados para acolá e… mais nada… não pregava olho em toda a noite!
 
Além da tristeza que o não largava, andava cada vez mais acabrunhado pois receava cair dum andaime ou da grua onde também trabalhava!
 
Basta! Decidiu que aquela não era a sua vida. Ia desistir.
 
Falou com o encarregado  nesse mesmo dia à noitinha e disse-lhe que se ia embora para Portugal, no dia seguinte de manhãzinha, no comboio das 7 da manhã. Falou com um espanhol, colega de trabalho, que lhe prometeu levá-lo na sua carripana à estação do comboio, às 6 da manhã do dia seguinte… 
     
Estranhamente ou não, nessa noite dormiu como uma criança … das 9 da noite às 5 e meia da manhã… Acordou e sentia-se muito bem! Pela primeira vez em terras francesas tinha dormido uma noite inteira; estava bem disposto e foi com alguma pena que pegou na mala e no saco da merenda e, depois de se despedir do velho amigo que lhe fez aquela sopa especial e lhe ter devolvido a nota dos 500 francos novos de que já não iria precisar, saiu à procura do colega espanhol que tinha ficado de o levar à estação dos caminhos de ferro de Belfort. Já não era muito cedo, pois ainda tinha que comprar o bilhete…
 
 Esperou, esperou à porta do escritório e… do colega espanhol... nem sinais... Nada…
 
Já eram quase 6 e meia e os emigrantes começavam a sair dos quartos para se dirigirem para as obras quando lhe apareceu o encarregado e lhe perguntou se não ia apanhar o comboio… O nosso aprendiz de emigrante sanjorgense contou-lhe que o espanhol não aparecia…O encarregado riu-se e disse-lhe que o espanhol tinha estado nos copos até às tantas e seria um milagre se ele se conseguisse levantar lá para o meio-dia, para trabalhar, quanto mais para o ir pôr à estação… devia ser lindo!
 
“Olhe que esta noite dormi mesmo bem… estou como novo e muito bem disposto, retorquiu-lhe o nosso conterrâneo!”
 
“Mas porque não ficas? Porque não vais trabalhar?” Disse-lhe o encarregado.
"Tenho aqui a tua ficha que ia levar para o escritório… vai mas é picar o ponto e força, que isso já passou… Preciso de trabalhadores como tu e agora mais descansado vais ver que te vai correr tudo muito melhor!..."
 
O nosso amigo sanjorgense sentiu aquele momento como especial e viu no encarregado um sinal de esperança, de que deveria começar ali a sua saga de emigrante e disse ao encarregado… “obrigado pela sua confiança. Vou-me já despachar ”.
 
 
Foi a correr pôr a mala no quarto, deu um abraço ao velho amigo que o ajudou no primeiro dia, que lhe segredou… “Bem-vindo ao mundo dos emigrantes!...”. Vestiu o fato-macaco, agarrou no saco com a merenda e estugou o passo para pegar às sete em ponto!
 
Sentiu que tinha feito o seu luto e já tinha ultrapassado o momento difícil de adaptação a uma terra e gentes diferentes. Cheio de energia foi para o trabalho, com a convicção que tinha mesmo que ganhar a vida, pois acreditava num futuro diferente para os seus filhos e numa casa nova em São Jorge! 
 
45 anos depois, nesta Páscoa de 2009, reformado há uns bons anos da mina, das franças e das alemanhas o nosso conterrâneo, na casa dos 82 anos, ainda teve forças para ir da Capela ao Cemitério e depois de passar pelas campas dos familiares mais chegados ainda dirigiu pensamentos de admiração e reconhecimento junto à campa do velho amigo que tão bem o acolheu quando chegou tão desalentado a Belfort!
 
 
De regresso ao Povo, já passava das cinco da tarde, ia matutando com os seus botões…
“Quem diria que um passeio até à Capela me iria guardar para esta viagem tão longa… Andei pelas Franças e pela década de 60 do século passado… que grande viagem!!!”
 
Ao dobrar a curva aos Covões deu consigo a murmurar… “esta viagem é para ser guardada por ti, Caminho da Capela!”
 
 
“Qualquer dia partirei para outra grande viagem…”

 

 

 

 

publicado por CorteVale às 15:47
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