Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

São Jorge Antigo IX - A Luz Eléctrica!

 

A inauguração da Luz Eléctrica em São Jorge, ou melhor… em Cebola!
 
 
 Fecho os olhos e ainda hoje revejo o clarão de luz branca que momentaneamente me cegou…
 
Quase toco a nitidez e a luminosidade que invadiu o guarda-loiça, a mesa e as cadeiras que habitavam a nossa sala da casa-de-cima, à Capelinha, quando, à noitinha, o meu pai ascendeu, pela 1ª vez, a mágica LUZ ELÉCTRICA que, ainda por cima, começou a morar num globo branco, que aumentou "milhões de vezes" as respectivas velas... empalidecendo mortalmente o pavio que até aí brilhara na chaminé de vidro do candeeiro de petróleo, que não teve outro remédio senão envergonhar-se e recolher-se num canto escondido da cantareira, donde saía magestoso quando a luz eléctrica se ia abaixo, o que, infelizmente, acontecia com regularidade nos idos anos de 60!...
 
Relembro o "milho zaburro", semeado em caixas da pólvora e deixado a crescer na escuridão das lojas, ao lado das arcas de milho e de mantas e da salgadeira e que, no dia da inauguração da luz em São Jorge, decorou portas e janelas e, quando tocado pelo sol, parecia uma verdadeira seara de oiro ondulante!
 
Só muito mais tarde percebi este efeito tão especial... qualquer planta que seja forçada a crescer privada da luz solar veste-se de um amarelo-dourado, devido à sua falta, tão necessária à clorofila, a roupagem verde das plantas...
 
Aquela torrente de luz funcionou como um murro de estrelas no meu cérebro (teria eu 6 ou 7 anos)  e, provocou, de facto, uma grande transformação em mim... teve um enorme impacto… Aí nasceu a minha primeira vocação… ser electricista e aprender a manusear essa magia escondida nos fios, cujo esplendor tocava tudo o que me rodeava e que aprendi a respeitar depois de uns valentes choques eléctricos!
 
Depois de ter conseguir puxar uma baixada de luz para a ameixoeira que se espreguiçava para cima do telhado da cozinha (nessa altura vivíamos à Capelinha) e experimentados uns valentes choques, especializei-me em voltagens mais reduzidas… Consegui colocar uma pilha de 9 volts e um bico de luz no anexo de madeira - a retrete exterior da nossa casa – que era iluminada sempre que a porta do dito anexo era fechada…
 
Devido a tal feito, considerei-me diplomado e pronto a fazer as minhas próprias instalações eléctricas com voltagens mais sérias... Habitualmente a casa era sacudida por enormes estrondos no quadro-da-luz, demonstrando-me que estava a ser perito em provocar... curto-circuitos!
 
Acredito que a inauguração da luz na nossa terra contribuiu para um aumento significativo do rendimento escolar, pois ainda me lembro do deleite que sentíamos nos serões em que fazíamos os trabalhos escolares e líamos à luz... eléctrica!
 
Lá em casa e nas casas vizinhas, toda a gente em idade escolar queria fazer serão todos os dias... para estudar... parecia tudo muito mais fácil, pois tudo brilhava de forma assombrosa e víamos com nitidez não só os cadernos e livros religiosamente encapados como também toda a sala era um palco de luz, enquanto  que antes - à luz do candeeiro a petróleo -  nos esforçávamos imenso para ler a 20 cm de distância e tudo o resto era escuridão... facilmente os olhos começavam a lacrimejar, o sono invadia-nos e... claro... os trabalhos escolares ficavam a meio!
 
Não me lembro com muita nitidez, mas também o medo do escuro quase desapareceu por completo ou se reduziu imenso... pois a luz eléctrica espantou, de uma acentada, quer as almas do outro mundo, quer a morte vestida de negro e que empunhava aquela brutal foice de lâmina brilhante, quer o homem da saca, quer mesmo os lobisomens que habitualmente viviam nas zonas de penumbra das nossas casas e se projectavam nas paredes sob os efeitos das chamas ondulantes e ténues do lume da chapa, das lamparinas, velas, candeeiros... e outros artefactos equivalentes!
  
De facto, a partir dessa altura estudar era uma brincadeira de crianças...
 
A coragem também aumentou... pois conseguíamos gerar escuridão ou espalhar torrentes de luz de acordo com as nossas conveniências....
 
Dava comigo a fechar a maioria das luzes e a impressionar os meus irmãos e vizinhos mais pequenos, contando-lhes histórias de lobisomens com 3 metros de altura, no mínimo, que ora vinham sozinhos pela penumbra da noite espreitar às vidraças embaciadas da cozinha, ora se faziam acompanhar de algumas almas penadas que gemiam no escuro do corredor e produziam um bafo quente (bafo gélico eu não conseguia produzir...) nos pescoços dos meus aterrados companheiros de fantásticos e fantasmagóricos serões!... O realismo que emprestava à minha simulação era tal que, por vezes, eu próprio me aterrava e sentia um frio na espinha com o realismo que emprestava àquelas teatralidades... e acendia imediatamente as luzes... pudera!
 
Com o tempo e a rotina, a magia da luz eléctrica foi-se perdendo, assim como desapareceram as noites de breu e as escuridões que geravam em nós o pavor e nos levavam a gritar... "fujam que vem lá o medo!"
 
Com a banalização da luz eléctrica o respeito pelo escuro apenas se pressentia nas visitas fugazes ao forro mal iluminado e habitado por ratos que andavam de motoreta ou à enorme loja, onde a miserável luz de vinte velas era esmagada pelas sombras das dornas, das pipas de vinho e das enormes arcas... que encerravam, para além das mantas e do milho, coisas misteriosas e... talvez os lobisomens e as almas penadas e... claro o senhor medo!!!  
 
Os fantasmas que a luz eléctrica matou e os medos que fechou a sete chaves!!!
 
Alguém sabe qual a data exacta em que foi inaugurada a luz eléctrica em São Jorge? Ou melhor, a data em que, na nossa infância, aprendemos a lidar com os medos e em que estudar e fazer os trabalhos da escola era um prazer?!
 
publicado por CorteVale às 00:53
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