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Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

O Menino que tinha vergonha de pedir esmola!

 

 

Eram tempos difíceis.
 
Os invernos eram bem mais agrestes que nos dias de hoje. Pelo menos doíam mais!
 
O frio parecia uma carraça agarrada às orelhas e ao nariz… os dedos das mãos e dos pés inchavam com as frieiras e até as canelas eram lambidas pelo maldito frio!
 
 
 
Não havia meio de passar, o raio do frio; parecia que São Jorge tinha sido amaldiçoada pela sorte… Cristo esquecera-se daquele ermo…
 
Parecia que os cavaleiros do apocalipse visitavam com regularidade a nossa aldeia… a fome devorava muitas faces… na escola da ponte havia dias em que mais que um miúdo desmaiava com a fraqueza. “Deu-lhe o fanico, comentávamos nós ao assistir a este misterioso “cair redondo no chão”… quando, momentos antes, no recreio, tínhamos corrido uns atrás dos outros a jogar à peçonha…
 
Não sei se as comezainas de hoje, em que se come e bebe como se não houvesse comida e bebida na quinzena seguinte, pois em S. Jorge tudo se celebra à volta de grandes pratadas e tachadas, não pretendem compensar os famintos tempos idos, incluindo os anos 50 e 60 do século passado!
 
De facto, nesses tempos rapou-se muita fome…
 
A mina despediu muitos mineiros que depois se desnortearam nas muitas tabernas da aldeia…
 
A sorte era madrasta para os são-jorgenses, pois nas alturas das festas aconteciam aquelas tragédias… “mais um mineiro esmagado por um liso”!
 
A gastroenterite levou ranchos de bebés e crianças… houve semanas em que íamos mais que uma vez ao cemitério transportando, com os olhos rasos de lágrimas, leves urninhas alvas…
 
Até o tanque do lodo da Panasqueira rebentou, inundando e queimando muitas hortas lá para os lados do Vale-do-Muro, reduzindo ainda mais as magras colheitas de algumas famílias de mineiros…
 
Houve cheias que arrastaram e mataram sonhos ainda meninos, transportando tragédia e luto carregado a famílias numerosas, sendo ainda hoje visíveis sinais de destruição desde a Archã até à Corte Cratão…
 
A emigração levou consigo as algazarras da Cruz-da-Rua  para as franças, as alemanhas, as bélgicas e outras longínquas paragens.
 
O luto, a tristeza, as mágoas da emigração e a calma aparente ocuparam as ruas e o espírito da aldeiazinha da minha infância que, até aí, tinha sido, alegre e bucólica…
 
 
 
Até parecia que nós, as crianças daquele tempo, tínhamos perdido os sorrisos e a inocência pueril…
 
Mas não!
Felizmente continuávamos a sonhar e ser solidários, à nossa maneira, uns com os outros, apesar das traquinices e algumas pequenas malvadezes…
 
Vi-o pela primeira vez à Eira. Foi à Eira que convivemos durante a sua breve passagem por São Jorge. Era franzino e parecia ter a minha idade… Apesar de vestir roupa remendada e já usada por outras crianças que entretanto cresceram; tinha uma postura quase distinta, corajosa, frontal, nos seus 6 ou 7 anos… fiquei curioso e quis conhecê-lo…
 
Cruzamos o olhar, e senti-lhe o frio e o estômago quase colado às costelas… mas com um olhar digno e nada amedrontado por estar no meu território, nem me olhava subserviente, receoso…
Admirei-lhe esta maneira de falar comigo sem quebrar o silêncio… Foi assim durante vários dias em que esteve em São Jorge. Não falávamos muito, quase não tagarelávamos… quase não era preciso trocar palavras para pressentir o que o Menino do Peso (acho que era do Peso… ou seria do Ferro?) estava a pensar…
 
O pai deste menino tinha o ar de quem quase tinha desistido de viver… arranjava cestos, cabazes e cestas de verga e outros pequenos trabalhos, que as pessoas lhe davam mais por esmola que por reais necessidades…
 
Nesses dias friorentos, dias em que o frio dói mesmo, eles dormiam onde calhava… ora num coberto, atrás da palha, ora num palheiro ou numa loja, partilhando a cama com cabras, a quem agradeciam o precioso calor tépido que emprenhava o ar e subia através dos soalhos para o piso superior das casas de pedra…
 
A melancolia do Menino do Peso raramente era quebrada por um sorriso… a morte da mãe tirara-lhe o dom de sorrir naturalmente e ao pai a vontade e a energia de viver e lutar pela vida… o próprio pai parecia uma pessoa doente, sentado nas escaleiras da Eira à volta com os cestos de verga…
 
O desespero invadia o rosto do Menino do Peso sempre que o pai lhe dava uma saca e um cântaro de latão e lhe dizia…
 
Vá! Agora vai pedir às portas!...
 
A saca era para o milho, alguma broa, uma rara posta de bacalhau seco, uma raríssima chouriça de farinha ou um bocado de carne gorda embrulhada em papel grosso e o cântaro era para os raríssimos centilitros de azeite que alguma alma caridosa pudesse dispensar naqueles tempos em que a fome também habitava em muitas casas de S. Jorge.
 
O pai ameaçava-o e o Menino do Peso recusava-se, tentando dizer que preferia passar fome e da grossa, a ir pedir às portas…
 
Uma ideia assaltou-me a mente! Fiz-lhe sinal que aceitasse a saca e o cântaro e viesse comigo…
 
“Ô tiá Maria, Ó tiá d’Jesus, Ó Tiá Laura… dê uma esmola pra este menino”, gritava eu de porta em porta com a saca e o menino com o cântaro na mão…
 
Tivemos sucesso a maior parte das vezes e ao chegarmos à Eira o Menino do Peso contrariado entregava os donativos ao pai que, nestas alturas e só nestes momentos, sorria por brevíssimos instantes…
 
A última vez que fomos pedir, a nossa ronda foi muito fraca… só uma mísera medida de milho e uma fatia de broa conseguimos apurar no fundo da saca…
 
Estava a conseguir compensar a colheita, com mais milho e uma broa, para além de uma chouriça, quando, ao despejar duas boas canecas cheias de azeite do pote de barro que descansava por baixo da cantareira, tudo confiscado na nossa cozinha, a minha mãe nos apanhou com a boca na botija!...
 
Da aflição, passei à justificação e ela lá aceitou os meus argumentos… sem antes me repreender por tamanho rombo na dispensa lá de casa…
 
Recordo a corrida que demos da Capelinha até à Eira e, mais uma vez o olhar sorridente do pai do Menino do Peso quando lhe entregou a saca bem recheada e o cântaro, donde escorria algum azeite aprisionado à pressa…
  
 
Gostaria de encontrar o Menino do Peso para lhe dar um abraço e lhe agradecer estas vivências tão profundas, pois foi com ele que aprendi algumas lições de solidariedade e a lutar contra as adversidades!

 

 

 

 

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