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Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

AS MÃES DE SÃO JORGE

 

O Olhar de um Observador Especial...

 

Nunca saiu de São Jorge. Ninguém terá passado tanto tempo a ver, sem ser visto, a ouvir desabafos, conversas, queixas, tramóias… mesmo junto a si…

 

 Há quem partilhasse segredos tão perto dele que, vendo-o, não se apercebia que ele os ouvia, os entendia… não precisavam de falar para ele ficar a saber, sentindo e sofrendo tudo aquilo que sentiam e sofriam os que passavam perto de si…

 

Mesmo que não quisesse… ouvia!
Mesmo que não quisesse ver… observava!
Mesmo que não quisesse sentir… experimentava a angústia dos que desesperavam!
Mesmo quando não sentia alegria… ficava entusiasmado com a ingenuidade e a felicidade… especialmente das crianças, particularmente quando paravam perto de si!

 

Também a Nathalie e o Tonito, ainda crianças, partilharam os seus ingénuos planos futuros, mesmo ao pé de si… sentia que eles experimentavam uma serenidade especial quando estavam mesmo perto dele…

Ele pressentia o que eles sentiam…


Mas ele estava e está prisioneiro de si mesmo! E lá continua assim, ano atrás de ano, primavera atrás de primavera, inverno após inverno… Há quanto tempo? Não faço ideia…

 

Gosta particularmente de ver as crianças... ultimamente tão raras!  Assustava-se com as brincadeiras perigosas, especialmente na altura das festas em que as crianças iam às canas e apanhavam as bombas dos foguetes que não rebentavam… aí sim… assustava-se… temia por elas… e assistiu impotente a vários acidentes, sempre resultantes de brincadeiras perigosas…

 

Como se assustava quando – no pino do calor – as crianças mais afoitas se atiravam para dentro das presas, sem saberem nadar, espicaçadas pelos outros miúdos, muitas vezes mais velhos, mas mal formados e inconscientes…

 

Assistiu a muito… a tragédias… vidas levadas pelas cheias dos ribeiros, pelas enxurradas súbitas … acidentes no salta-e-pilha…bulhas por causa de… nada, discussões e insultos por causa das horas de água de rega…; também ouvia as carlotices quando se lavava a roupa nos ribeiros e se punha a corar nas pedras e silvados que bordejavam os lavadouros…

 

Mesmo aquilo que a sua visão não alcança é-lhe partilhado e comunicado pelos seus parentes que, como ele, estão sempre presentes nos seus locais… há muito… mas muito tempo.

 

Alguns parentes seus já desapareceram ou alguém os fez desaparecer precocemente… ele próprio já foi ameaçado várias vezes, mas ou porque alguém o protegeu, ou por puro golpe de sorte… lá se tem safado ao longo dos anos… muitos mesmo!

 

Mas não é de si que quer falar… nestes muitos, mas muitos anos de muito ver, muito sentir, muito reflectir…

 

 Quer falar das Mães… sim, das Mães de São Jorge… Tão banalizadas e ignoradas, mesmo pelas outras mulheres, mas, ao mesmo tempo elas foram e são quem dá sentido à cultura e à maneira de ser desta comunidade que, com altos e baixos, vai sobrevivendo por esta meia-encosta acima… São Jorge.

 

Viu mães de São Jorge darem à luz…sozinhas, não por vergonha, mas por humildade e pobreza… e não raras vezes os seus homens estavam na taberna!

 

Viu mães, que antes de o serem biologicamente, foram-no emocionalmente, quando, ainda crianças de sete e oito anos, cuidavam de irmãos recém-nascidos ou com meses…

Muitas mães foram-no, sem o serem!

 

Viu mães irem trabalhar para as hortas, irem lavar a roupa ao ribeiro, às segundas-feiras, e levarem os seus filhos de dias ou com meses, no alguidar, no cesto ou mesmo no barleiro à cabeça…

Viu mães com os filhos ao colo e um molho de mato à cabeça…

 

Quando a vizinha não tinha leite materno para a sua criança, outra vizinha com um recém-nascido partilhava os seus peitos com o seu filho natural e o seu filho de leite… Chegou a ver mães que perderam o seu bebé, darem o peito ao filho da vizinha, com as lágrimas a correrem pelas faces…

 

Viu mães a mastigarem batata até ficar puré, a meterem a colher à boca e tirarem aquele puré e a alimentarem os seus bebés…

 

Viu mães a chorarem em silêncio e às escondidas porque os seus filhos foram selvaticamente agredidos na escola, ou na doutrina… mas em público sentiam-se coagidas a dizerem “só se perdem as que caem no chão…”

 

Viu mães serem abusadas e agredidas por homens que depois se desculpavam dizendo que não foram eles, mas… o vinho!

 

Viu tantas mães a economizarem e a gerirem laboriosamente casas cheias de bocas com umas notitas e algumas moedas, a maioria das vezes tiradas á socapa dos bolsos das calças de ganga dos homens toldados pelo vinho…

 

Viu mães irem buscar os seus homens às tabernas, sendo agredidas pelos seus e humilhadas pelos companheiros das comezainas…

 

Viu mães terem que fazer de parteiras consigo próprias, com as filhas, com as irmãs, com as vizinhas…

 

Viu mães terem de amortalhar os seus filhos roubados em tenra idade… ou já mais velhos… ou os seus pais… ou os vizinhos…

 

Viu mães irem a pé, em manhãs gélidas, com as crianças ao colo, carregadas de febre, até ao médico, à Panasqueira e terem que esperar horas… e muitas vezes passando-lhes à frente os filhos deste e daquele…porque gente mais importante!

 

Viu mães a quererem tomar o lugar dos seus quando a Guarda os queriam levar presos…

 

Viu mães a trabalhar como mineiros à Pesquisa das Courelas, a escombarar ao Vale-do-Muro como cavadores, a caiarem as casas como pintores…

 

Viu mães a cantarem no coro da Igreja, como ninguém… a fazerem filhós inigualáveis, a cozinharem as couves com feijões com um paladar único no mundo… a remendarem aquelas calças a que o filho se afeiçoara de tal modo que nem parecia que se tinham rasgado…

 

Sim, o nosso observador e os seus parentes têm visto mães… sim muitas mães… e elas, sempre, a seu modo, dão tudo de si, o que sabem e o que não sabem…sem pedirem nada em troca.

 

E  partem… sim partem, para ao pé de outras mães, também das suas mães, das suas irmãs, das suas vizinhas e as outras, as que cá ficam, acompanham-nas e dão continuação ao seu legado, ao seu testemunho…

 

É pena que esta crónica nos seja narrada por este observador especial, com ajuda dos seus parentes, que não sendo gente, mais parecem aquela gente, que não temos tido tempo para ser… sim nós, todos nós, que fomos e seremos sempre o motivo de orgulho e a razão de ser desta energia inesgotável, imparável das Mães de São Jorge.

  

O Encontro… tantos anos depois!

 

Finalmente encontram-se.

 

Os dois têm o mesmo nome: José!

 

Ou melhor, será o reencontro, pelo menos para o Zé que partiu recentemente. Este procurou o outro Zé, que partira há muitos, muitos anos… Há mais de trinta anos que o Zé mais humilde partiu; provavelmente, há muito que terá sido esquecido por muitos que o humilharam e mesmo por aqueles que o forçaram a partir…

  

Mas o outro Zé, o que partiu apenas há umas semanas, bem mais alto e conhecido que o Zé, há muito desaparecido, não o esqueceu… pois já o tinha encontrado, não necessariamente a ele, mas à sua trágica história.

 

Há umas boas dezenas de anos… procurou-o, pelas ruas e nas memórias das gentes de São Jorge… mas as pessoas a quem perguntou pelo Zé, de São Jorge, o mais humilde, não deram qualquer resposta ao Zé, inquieto, jornalista, na altura pesquisador de memórias e afectos das comunidades e povos de Portugal…

 

A ida a São Jorge não foi em vão; o Zé (pre)sentiu o outro Zé, na indiferença,  no ramerrame, no desconhecimento, no desenrasca, no isolamento das vidas em São Jorge…  

De facto, no espírito das pessoas com quem falou, nada encontrou! Ninguém sabia quem tinha sido o Zé! Na altura concluiu que as consciências, quando estão pesadas, forçam o esquecimento…

 

Nessa procura que fez pelo nosso José, em dia agreste, o outro José, explorador de emoções e afectos, constatou, naturalmente,que o Sorna estava a funcionar, à Eira, para variar, carlotava-se, nas tabernas discutia-se futebol e, claro, à boca da mina falava-se do último despedimento, mais um "coitado" apanhado com um cristal escondido nas partes…

 

Como quase sempre, só se tratavam de agendas banais, de coisas fúteis, mas que não incomodassem… não é bonito falar de coisas sérias, ou melhor, de coisas pesadas, bem pesadas na consciência colectiva de todos nós…

 

Os dois José nunca se tinham visto. As fisionomias deles não são importantes, embora ambos tivessem feições secas… chupadas; o que procurou o outro era bem mais alto, enquanto o procurado, não só era mais baixo, como também andava curvado com o peso das mágoas e das tragédias que o visitaram de amiúde… demasiado amiúde para uma pessoa só, sensível e frágil…

 

Sim. Sem se conhecerem fisicamente as suas vidas cruzaram-se, ou melhor, um deles foi à procura do outro a… São Jorge…As pessoas daqui não lhe deram nada… Não senhor! Não, não encontrou este ilustre São-jorgense. Ilustre? Claro que sim: ilustre pelas lições de vida não vivida, pelo infortúnio que o visitou, ilustre pelo abandono a que foi votado… até na morte José foi ilustre, pelo sem sentido do motivo que o matou… também ilustre porque é o único São-jorgense que inquietou o outro José, prémio Nobel…

 

Mas agora os José têm todo o tempo do mundo para conversarem…  

 

 

- Vê, além, à Ponte, a seguir àquele café? Apontava José. Sim, havia ali um pardieiro, uma casita de pedra… sim era ali que eu vivia… Com o meu menino… muito inteligente… vida tão curta e ceifada de forma tão estúpida… a sua curiosidade e a sua ingenuidade eram angélicas… Também ele foi muito magoado...

 

- Mas, meu bom José, porque gosta tanto deste sítio? Perguntou o José, em tempos pesquisador de emoções e culturas…

 

- Porque gosta tanto destas Alminhas, onde estamos sentados? Continuou a perguntar o José que há muito tempo procurou o José de São Jorge

 

- Não vê, caro José, que daqui vejo o sítio onde estava a minha casinha, aqui, ao meu lado, tenho o meu menino, tenho ainda a minha mulher, que também partiu demasiado cedo e agora também o tenho a si, meu grande amigo José…

 

- E já viu? Aqui ao nosso lado, nestes azulejos, está contada a história de um parente meu que há muitos, muitos anos, conseguiu matar um lobo com as suas mãos, agarrando-lhe a língua… que homem corajoso…

 

- Esta façanha, que aconteceu lá para os lados da Cerdeira - havemos de lá ir - foi para mim uma bóia a que me agarrava nas alturas mais difíceis… E o que eu passei…

 

 

Quem, neste fim de tarde, de um dia de calor, mas já lusco-fusco, tivesse a serenidade, a visão clara e pura de uma criança e olhasse, a partir da Ponte, para as Alminhas brancas, lá no outro lado, veria duas breves silhuetas – os dois amigos José – entretidos em amena cavaqueira…

 

O humilde José explicava ao outro José, prémio Nobel, como se apanha um lobo enraivecido, com as mãos, mostrando-lhe a destreza usada pelo seu parente para, sem largar o lobo preso pela língua, tirar a navalha do bolso e ferrá-la no pescoço do lobo…

 

 

 

É HORA DE PARTIR...

 

Nathalie experimenta uma enorme saudade de S. Jorge.

 

É sexta-feira santa. Está sentada nos degraus de laje do Cristo-Rei, à Capela e olha com enorme nostalgia para o meio do Povo.

Aqui passou os últimos quatro dias. Tantas coisas que sentiu, viu e revisitou… Por um lado sente que já faz parte de S. Jorge e que já cá vive há muitos, muitos dias.

Não quer partir, sente uma enorme tristeza a invadi-la…

 

Lembra-se de seu pai, que partia sempre de S. Jorge com o coração apertado e os olhos andavam marejados de lágrimas, lá por Paris por muitos dias, depois da saída de S. Jorge. Era sempre assim… Agora Nathalie estava a sentir o mesmo aperto, o mesmo peso no estômago!...

 

Mas tem de partir! Prometera à sua mãe que passaria com ela a Páscoa! Tinha-a convencido a subir à Torre Eiffel, onde nunca o seu pai a conseguira levar e iriam ver o São Jorge de Rafael, pequenino quadro, que se pode contemplar no Louvre, mesmo ao lado da sala onde habita o quadro mais visitado de todo o mundo… A Gioconda.

 

Nathalie tem mesmo de partir! É meio-dia e tem que estar no Aeroporto de Lisboa às 7h, para apanhar o avião para Paris…

 

A sua mãe compreendeu a razão porque não vendeu a casa de S. Jorge. No fundo até ficou orgulhosa com a atitude de Nathalie.

- Não precisas de te explicar, filha, eu fazia o mesmo… há coisas que não se podem vender; quando muito, só mesmo em extrema necessidade…

Os vizinhos, embora mostrassem pena, também tinham compreendido. Um deles já tinha prometido aos filhos e netos que se iriam juntar todos em S. Jorge, neste verão! Nathalie prometeu-lhe que lhe emprestava a casa, por uma ou duas semanas, quando não precisasse… Este vizinho também acabou por lhe agradecer, pois sentia que poderia cumprir a sua promessa.

 

O dia estava bonito. É sempre assim. Quando partimos é quando tudo nos prende e só sentimos vontade de adiar ou nunca mais partir…

Estava Nathalie embrulhada nos seus pensamentos, descansando o olhar neste céu tão azul, cortado em dois pelo rasto de um avião, lá no alto; céu como este não há em mais lado nenhum!  Sentia os cheiros do mato a florir, ouvia o chilrear dos pássaros, mesmo ali nas árvores da Capela… e as flores de cantarinha mesmo ali à frente das escaleiras do Cristo-Rei… A natureza explodia e invadia todos os poros de Nathalie…

 

Ainda lhe doíam os pés e as pernas, com tanto que andou por S. Jorge naqueles dias…

Reviu todos os passeios que deu…

 

Julgava que se perderia, mas coisa estranha, sempre que se aventurava por qualquer quelha, qualquer caminho, pressentia sempre que já ali tinha passado e surgiam-lhe as imagens e as emoções que viu e sentiu, quando esteve, naquelas férias grandes, em S. Jorge, nos seus 12 anos…

 

Tudo tinha começado, na segunda-feira, à tarde, na cozinha da casa velha… continuou na sala de baixo, quando brotaram os seus sentimentos escondidos pelo Tonito!...

 

Olhou para a Igreja, mesmo à sua frente e reviu o primeiro grande passeio que deu…

 

Desceu, ao lado da casa do Sr. Padre, ao Vale e subiu à Abesseira; pelo mato foi até debaixo do grande castanheiro; no Ribeiro-Souto reviu e imaginou as mulheres a lavarem a roupa, um pouco mais acima da presa cheia de água esbranquiçada pela espuma do sabão e quase as ouvia a cantar e a cochichar os apartes das vidas das vizinhas…

 

Subiu, com esforço, à canada e, lá no alto, ofegante, virou à direita e descobriu que tinha estado sentada com o Tonito debaixo da enorme amoreira… ele oferecera-lhe um fio de amoras, que ela pôs como colar e jurou intimamente guardá-lo para toda a vida…

 

Esfolou um joelho num tanganho, a descer para a Archã, onde ainda se vêem os resultados da destruição, provocados por uma grande cheia; do alto da parede deste chão cheio de cascalho, do ribeiro que transbordou, imaginou o poço onde as mulheres da Costa iam lavar a roupa… e a água esbranquiçada cheia de alfaiates e bacorinhas…

 

Subiu à Façoute, passou debaixo de castanheiros arruinados, rompeu a camisa nas mouteiras e giestas secas, enfarruscou-se pelo mato que a cobria e, sem querer, foi ter ao caminho que vai da Cortevale para as Aradas…

 

Tentou subir, mas não encontrou a vereda da mina da Brouca e, sentindo-se já bastante cansada, desceu até à suave planura da Cortevale… descansou, refrescou-se no tanque que tem um palheiro, construído por cima e aí gozou, por largos minutos o aprazível silêncio do lugar… quebrado aqui e ali por um cuco que se anunciava… ainda tentou dar uma cambalhota a ver se descobria alguma coisa, pois foi a primeira vez que ouviu um cuco em muitos, muitos anos…

 

Regressou pela Barroquina da Cal, cumprimentou as espantadas vizinhas da Costa que se silenciaram à sua passagem… ouvindo-as depois cochichar, atrás de si… quem é??? E uma outra voz cochichava… atão não vês q’ié a praf’ssora, f’lha da t’iá Rosália da França?!!!

 

Este foi o primeiro de longos passeios em que redescobriu emoções, vivências infantis e afectos escondidos…

 

Foi ao Picoto, mas de carro, deslumbrou-se com as paisagens e desceu à Covanca, esteve na barragem de Santa Luzia, parou à Portela e sonhou voar sobre S. Jorge; passou pelo nicho dos Lameiros, subiu à mina da Selada; aí, ainda experimentou andar uns metros dentro da mina seca… Redescobriu a fraga do Penico e estalou os dentes a beber a água fria, à  Fontanheira…  Passou pelo Pombal, essa cascata de casas, apreciou as nesgas de S. Jorge que se descobrem por entre as casas do Pombal…

 

Revisitou casas de pedra e barro vermelho e lembrou-se de humildes casinhas, lavadas de fresco, a cheirar a rosmaninho e decoradas com enfeites de jornais colados, a farinha e água, nos caibros escurecidos… a anunciar e abrir portas à visita pascal…

 

Boas festas acompanhadas por Deus, Nosso Senhor, Aleluia, Aleluia…

Antes de entrar no carro, parado no largo das festas da Capela, e dizer adeus a S. Jorge, ainda se lembrou e trauteou  parte do hino de S. Jorge, mas em versão namoradeira…

 

“São Jorge oh minha terra

Tens ao lado a capelinha

Onde as moças vão namorar

Nos domingos à tardinha”

 

Claro que iria voltar logo que pudesse a S. Jorge…

 

Jurou a si própria que sempre que conseguisse juntar uma semana de férias, voltaria à procura de si, do seu passado, das suas memórias e claro dos seus afectos futuros…

 

 

A CASA VELHA DE S. JORGE

 

 

NATHALIE (RE)VISITA A CASA VELHA DE S. JORGE

 

 Nathalie estava, pela quarta vez, em São Jorge!
 

Lembrava-se, muito vagamente, da primeira vez que tinha estado em São Jorge!
 

Não admira; não teria mais de 8 anos quando, corria o ano de 1971, os pais, emigrantes em França, nos arredores de Paris, a trouxeram a conhecer as raízes da família do pai e os sítios onde este tinha passado a sua infância e adolescência.

Tem imagens muito vagas daquela estadia, embora hoje sinta alguns locais, as caras e os cheiros com alguma familiaridade…

 

Não se esquece dos dias escaldantes e das noites quentes da festa dos mineiros de 1971… com muitos vizinhos sentados às portas de casa, à fresca, a conversarem muito alegres e com uma entoação estranha… Recorda, vagamente, os temas das conversas… as mobílias das casas novas, os apartamentos que se compraram na Covilhã, no Fundão… o dinheirão que os filhos gastavam nos estudos… o desemprego nas minas, o raio da silicose!...
 

A terceira vez que veio a S. Jorge, há 10 anos, foi precipitada pela súbita morte do pai, em Paris e, na sequência das partilhas e da herança, foi obrigada a vir regularizar a situação de alguns bens que a família possuía na zona.
 

Hoje, já na casa dos 47 anos, Nathalie, uma excelente professora de biologia, há muitos anos colocada num liceu em Paris, ainda não acredita, muito bem, porque está em S. Jorge.

Tudo se precipitou umas semanas antes desta Páscoa…

Por um lado o reitor do Liceu sugeriu-lhe que gozasse os 10 dias úteis de férias antigas, nas férias escolares da Páscoa de 2010, dispensando-a assim das suas actividades de coordenação pedagógica.

 

Quando se preparava para marcar uns dias numa praia longínqua, numa das ilhas paradisíacas da Polinésia francesa, onde ia com alguma regularidade, para carregar baterias, eis que a sua mãe lhe telefona aflita, por causa do desassossego que a casa velha de S. Jorge lhe andava a causar…

De facto, os vizinhos de S. Jorge não lhe davam descanso desde há uns meses para cá. Todas as semanas choviam telefonemas de São Jorge na residência, onde Rosália, a mãe de Nathalie, vivia desde a súbita morte do marido, a pressionarem-na para vender a casa velha de São Jorge…

 

Desde a morte do pai que mãe de Nathalie não andava bem. Na realidade nunca aceitou a sua perda e vivia num permanente sofrimento e estado de confusão, que os inúmeros internamentos não solucionaram. Com 68 anos, a mãe de Nathalie era pouco autónoma e vivia numa residência comunitária de excelente qualidade, com serviços de proximidade e cuidados clínicos permanentes, nas proximidades de Versailles.

 

Nathalie visitava a mãe duas ou três vezes por semana e sempre que o tempo o permitia iam visitar o palácio, especialmente os seus jardins. Nestes passeios conseguia ver felicidade no rosto da mãe, sempre que esta, entusiasmada, lhe explicava os detalhes das paixões e das lutas palacianas presenciadas por aquelas imponentes paredes; nestes passeios, tomavam o comboiozinho nas traseiras do palácio, levando-as a visitar o enorme parque… apeavam-se sempre junto ao grande lago frondoso, onde lanchavam e alugavam um barco a remos e gostavam de remar até ao meio do lago e ficar aí, por largos minutos a sentirem o silêncio das águas calmas, fazendo-as sentirem-se mais próximas. Estes momentos também lhes refrescavam os afectos e as memórias agradáveis… Depois tomavam um chá na esplanada debruçada sobre o lago, deleitando-se a observarem as crianças em correria ou a andarem de bicicleta e, quando a mãe mostrava sinais de fadiga, retomavam o comboizinho até ao palácio; andavam uns minutos a pé e Nathalie despedia-se da mãe, depois de a deixar aconchegada no seu quarto, na residência de idosos…

 

...

 

Nathalie deu consigo a alugar um carro no Aeroporto de Lisboa, depois da viagem agitada, num avião da TAP, repleto de alegres emigrantes, carregados de prendas e lembranças, e a viajar para S. Jorge, debaixo de um temporal, no domingo de ramos.

Pernoitou num hotel no Fundão e na 2ª f., ficou admirada com a azáfama matinal do mercado, por onde deambulou, descobrindo calçado a 1 euro, enxovais completos arrematados a 50 e estranhas cherovias a concorrerem com os peixinhos da horta…por entre anúncios do tipo “ó freguesa, compre aqui … é mais fresquinho e mais barato”, declamados entre uma bátega de chuva e um vento gelado que cortava a ponta do nariz.

 

Depois de um almoço frugal, pôs-se a caminho de S. Jorge, onde chegou pelas 3 da tarde.

 

Obtida a chave da casa velha, junto da vizinha idosa, a quem a casa estava entregue e que sabia da sua vinda e, depois de muitas festas e beijos à “m’nha Natalita”, foi dar uma vista de olhos pela casa antes de ir falar com os vizinhos, paredes meias com a casa velha, e resolver rapidamente este assunto da casa, a ver se acabavam de vez os telefonemas que vinham desestabilizando a sua mãe, lá nos arredores de Paris…

 

Ainda por cima dormira mal no Fundão. Não que o hotel e a cama não fossem acolhedores.

Ao folhear o livro de Saramago “Viagens na Minha Terra”, que o serviço do hotel tinha no quarto, tomou contacto com a trágica história vivida em S. Jorge “O fantasma de José Júnior”

 

Sentada no tabuão, carcomido pelo bicho da madeira e enfarruscado pelo lume, tantas e tantas vezes aceso na pedra, também ela crestada, que repousava no centro da cozinha, levantou os olhos para a pilheira, à sua frente, onde repousavam testos velhos, uma gadanha enferrujada, uma candeia de azeite apagada há demasiado tempo…

 

Mas ali, experimentou pela primeira vez, desde há muito tempo uma profunda paz interior. Uma sensação especial de calor e um silêncio abraçaram-na por largos momentos… Ali ao lado da cozinha morava uma cantareira antiga e ao fundo do sobrado, numa mistura de forro e dispensa encontrou, no meio de malas e trastes velhos, uma mesa feita duma caixa da pólvora das minas, umas pinhas velhas bem secas, umas torgas quase a desfazerem-se e até umas pernadas de oliveira e castanheiro…

Acendeu o lume e experimentou um calor acolhedor como há muito tempo não sentia e deu consigo a olhar para o longo tabuão, à roda do lume, a olhar a porta da cozinha com janelo, o assento de cortiço mesmo ao lado da panela de ferro enferrujada e na pilheira, uma ráfia a desfazer-se, mas que ainda conservava uma mão-cheia de sarpão seco.

 

 Deu consigo a imaginar o seu pai, os seus avós, os bisavós paternos e tios a conversarem alegremente à volta do lume e a comerem as couves com feijões, duma grande travessa, posta na pequena mesa e decorada com rodelas de chouriça de lombo, cortada em 12 bocados, para as 12 bocas que respiravam naquela cozinha…

 

Sobressaltou-se ao ouvir uma voz … “Toma! Este bocado de chouriço é para ti, minha netinha!”

 

Nathalie experimentou uma sensação de pena quando se tentou concentrar na sua missão: tinha vindo a S. Jorge para vender a casa velha a um dos vizinhos que queriam alargar as suas casas e, por isso, não davam descanso à mãe, lá em Versailles!

 

 Mas a casa velha era muito mais que uma casa… estava cheia de memórias, de afectos… Nas duas horas que passara em S. Jorge, desde que entrara na casa velha, Nathalie não deixara de sentir uma enorme explosão de emoções, recordações que julgara perdidas para sempre.

 

Ao entrar na sala grande do andar de baixo teve um sobressalto… A sala parecia bem mais pequena que a das suas memórias de criança. Sentiu um aperto no coração ao ver a arca grande de carvalho, exactamente ao lado dos gavetões de parede… estava tudo no mesmo sítio… foi sentada na arca, aos 12 anos, na sua segunda estadia em S. Jorge e de mãos dadas com o Tonito, menino dos olhos grandes e negros, que trocou o primeiro beijo e jurou amor eterno!

 

De repente sentiu uma impaciência urgente em saber o que era feito do Tonito… Durante largos anos trocaram cartas, prometeram visitar-se, irem viver um para o pé do outro, mas tal nunca acontecera… Porquê? Nathalie não encontra resposta… Será que esta é uma das razões porque nunca casou e se dedicou de corpo e alma à sua vocação de professora?

Apeteceu-lhe sair para a rua e perguntar pelo Tonito. Refreou-se. Numa das últimas cartas que trocaram e já perto dos 20 anos, ele anunciava que ia para a tropa…

 

A casa velha estava a destapar-lhe um vulcão de emoções. Cada segundo que passava presenteava Nathalie com uma torrente enorme de recordações, histórias contadas pelos avós, pelo pai…

 

Não, não podia vender a casa. Neste momento tinha a certeza que vender a casa seria amputar uma parte de si, vender e destruir recordações, memórias da sua família, seria matar a sua identidade, a sua referência cultural…

 

Está decidido. Não vendo!

 

Mais, tenho que a preservar, restaurar e escrever todas estas histórias, memórias…

Sim, a casa velha vai perdurar…

 

Continuará a viver dentro de mim!

 

 

 

Ilustres São-jorgenses

 

Um grande Homem de Cebola
 
Chama-se Albertino por uma razão especial.
Podia chamar-se Augusto ou Manuel, ou mesmo Joaquim ou…
 
 
Tinha mesmo que parar!
 
Os pulmões pareciam que iam rebentar a todo o momento.
Albertino arfava descontroladamente a subir a vereda empinada para o Vale-de-Ermida…
 
Sentou-se numa pedra fria já perto da boca da mina, onde já dava o sol matinal daquele domingo gelado dum inverno duro, nos idos anos de 61!
 
- Maldita sorte, murmurou Albertino… A caminho dos 41 e já se sentia corroído pela maldita silicose…
 
Com cuidado e afecto, poisou o cabrito que trazia como um cachecol à volta do pescoço, afagou-o e protegeu-o do frio, metendo-o na saca que tirou do bolso do casaco de ganga azul e aconchegou-o no seu colo.
Do outro bolso tirou a onça de tabaco e começou a enrolar um cigarro, enquanto apreciava a vista parcial que tinha de Cebola… Dali via o Pombal, o Rodeio, a Capela, uma nesga do Povo e claro os Torgais…
 
Saíra de casa ainda não tinham dado as 6 da manhã no sino da Igreja e já tinha andado quase 1 hora… Saiu ainda estava bem escuro, pois ninguém precisava de saber aonde ia… mas a geada era muita… teve que ter muito cuidado a descer ao Cascalhal, onde havia degraus cheios de gelo; também ao subir a canada do Ribeiro-do-Souto todos os cuidados foram poucos… ainda lhe soava o barulho característico das suas botas cardadas a pisarem a terra encramelada, ao passar junto aos pinheiros da Abesseira…
 
Passada a barreira branca teve que começar a ter cuidado com os desmontes, as torvas, as pequenas minas e as trincheiras abertas pelo pessoal do salta-e-pilha… onde também trabalhavam as suas irmãs e o irmão dispensado da Mina!
 
Apesar de tudo Albertino considerava-se um homem com sorte… tinha escapada à lista dos dispensados das Minas, pois continuavam a considerá-lo um mineiro de primeira!
 
Teve que concentrar-se ao passar pela Fraga Alta, pois aí o gelo estava bem mais perigoso e um tombo daquelas alturas era morte certa!
 
O pior era a maldita silicose, pensou ele!
 
Já com a respiração mais calma e com o cigarro a meio lembrou-se da tristeza que estariam a sentir os seus filhos mais novos… A mulher bem lhe disse às 4 da manhã…
- É melhor levantares-te já, Albertino… a ver se as cachopas não dão conta que levas o cabrito da Charentita… senão é uma choradeira.
 
Depois da dejua, por volta de cinco e meia, Maria meteu-lhe uma bucha no bornal que o acompanhava sempre que saía por umas horas; Albertino foi espreitar o quarto das 4 cachopas que dormiam sossegadas, duas para a cabeceira e duas para os pés da cama e no quarto de baixo, ao lado da loja os 3 cachopos, mais velhos, também estavam ferrados a dormir!...
Dois já trabalhavam na Correia e era do futuro deles que era preciso ir tratar! Seria bem-bom que o Sr. Engenheiro os conseguisse puxar para a Carpintaria ou para a Oficina… o mais velho até se ajeitava bem com as coisas da luz eléctrica!
 
Queira Deus que se livrem da Silicose! Murmurava enquanto olhava a serra do Picoto esbranquiçada e mordiscava o cigarro que lhe queimava a garganta sempre que dava uma fumaça!
 
Pois. Era por causa da Mina que ia esta manhã friorenta a caminho da Barroca Grande!...
 
Evitou passar à boca da galeria para não ser visto pelo guarda e estugou o passo já no estradão mais plano. Queria ver se ainda conseguia regressar a tempo da missa das 11, pois também não queria dar explicações a ninguém…
 
A parte mais difícil já estava!
 
O cabrito pressentia que tudo ia ser diferente e ao Albertino doía o coração sempre que sentia os seus gemidos misturados com o hálito quente que lhe aquecia o pescoço.
 
Ainda experimentou a dúvida… ainda hesitou e esteve a um passo de voltar para trás, mas a dureza da vida e o futuro dos cachopos plantava-se-lhe ali à frente… Estas dúvidas dissiparam-se quando, subitamente, começou a ver, lá em baixo, o aterro da Barroca Grande e a Lavaria à esquerda, enquanto que o Hospital das Minas lá estava ao fundo à direita da estrada... Também as carreiras com as pequeninas casas dos mineiros à esquerda da estrada e… ironia das ironias a Capela ficava do outro lado da estrada, do mesmo lado das vivendas do staff, assim como o Escritórios das Minas, onde semanalmente ia receber a jorna de 90 escudos, num envelope que cuidadosamente guardava no bolso interior da jaqueta de trabalho e entregava religiosament à sua Maria, mal chegava a casa, ao fim do dia… Como a estrada serpenteava pela encosta abaixo e separava dois mundos bem diferentes!
 
Albertino afastou estes pensamentos desestabilizadores; problemas já tinha de sobra… as 8 bocas lá de casa não permitiam grandes ousadias!
 
Evitou a estrada, optou pela vereda que passava por trás dos Escritórios das Minas e embrenhou-se por entre sebes, ciprestes e árvores de grande porte que ladeavam e escondiam as vivendas dos Senhores Engenheiros… Por voltas do campo de ténis viu que ainda era cedo – oito menos um quarto – e resolveu esperar uns minutos mais… até às 8, oito e picos! Com o lenço vermelho enxugou os suores frios que lhe humedeciam o cabelo e o pescoço, ajeitou a gorra, vincou o casaco de ganga azul, limpou as botas cardadas numas ervas que cresciam mesmo junto à sebe, acalmou o cabrito e voltou a resguardá-lo na saca…
 
Enrolou mais um cigarro e puxou umas boas fumaças mesmo atrás da sebe que escondia a casa do Sr. Engenheiro.
 
 Timidamente espreitou por cima da sebe e pareceu-lhe ver o Sr. Engenheiro a terminar o seu pequeno almoço e a ler o jornal na sala de estar da casa, ao lado de uma acolhedora lareira, onde crepitava um lume acolhedor…
 
Albertino acabou o cigarro, esperou mais uns minutos, ganhou coragem e depois de respirar fundo e voltar a ajeitar a gorra dirigiu-se à porta da casa e, antes de bater, deixou a saca com o cabrito a uns metros, mesmo atrás de um canteiro e… tocou a campainha.
 
A porta abriu-se e uma empregada elegante, num bonito avental imaculadamente branco, com um peitilho cheio de rendas azuis e de olhar penetrante inquiriu…
- Bom dia, que deseja?
- Bom dia menina, desculpe-me bater tão cedo, retorquiu o Albertino. O Sr. Engenheiro está? Queria dar-lhe uma palavrinha, se faz favor…
A zelosa empregada, vendo-o de mãos a abanar, reagiu de imediato…
- Não, não está.  Com sua licença… E fechou-lhe a porta na cara.
 
Albertino ficou surpreso! Saiu para o pátio, pegou na saca com o cabrito e regressou para trás da sebe e voltou a espreitar a sala e confirmou que o Sr. Engenheiro já tinha acabado de comer e continuava a ler o jornal, agora sentado num sofá mesmo ao lado da lareira…
Deixou passar uns bons 15 minutos e voltou a fazer tudo como dantes; escondeu o cabrito, ajeitou a gorra, esticou o casaco de ganga azul, limpou as botas e voltou a bater à porta…
A empregada com pouca elegância respondeu-lhe com alguma aspereza, depois de o ver de mãos vazias, que o Sr. Engenheiro não estava!!!
 
Albertino não queria crer no que via e ouvia… sem deixar fechar a porta pegou na saca e apertou com força o pescoço do cabrito; este berrou, ouvindo-se um prolongado e altíssimo mééééééééé!!!
 
De imediato se ouviu a voz do Sr. Engenheiro:
- Entre! Entre. E dirigiu-se para a porta, convidando Albertino a entrar!
- Entre, se faz favor….
 
Oferecido o cabrito, uma prenda dos cachopos que trabalhavam na Lavaria e conseguida a promessa do Sr. Engenheiro de que iria fazer os possíveis pelo futuro dos cachopos, e que era capaz de arranjar umas vagas na Oficina e encaixá-los lá, Albertino desculpou-se por ter incomodado e despediu-se, prometendo um presunto, o paio do porco e umas chouriças de lombo lá para o Carnaval…
 
Estugou o passo estrada acima, pois já tinham batido as 9 horas havia um bom bocado…
 
No caminho, ainda teve tempo para meter qualquer coisa na boca… a bucha que a mulher lhe meteu no bornal soube-lhe que nem ginjas… meia morcela com uma boa fatia de broa e a acompanhar duas boas goladas da bota de vinho…
 
Quando descia a canada para o Ribeiro-do-Souto tocou à missa, eram dez e meia… ainda conseguia chegar a tempo da missa das 11!   
 
   
Depois da missa e já à mesa para o almoço de domingo, a duas semanas do Natal de 61,  Albertino teve de reconfortar as filhas magoadas e cheias de saudades e com pena do cabrito da Charentita, que iria certamente preencher uma das refeições do Sr. Engenheiro, enquanto que as 9 bocas da casa do Albertino depois de uma malga de sopa das couves com feijões, começavam agora o segundo, uma grande travessa de barro com o enxume das couves e feijões, regadas com azeite e 3 bocados de entremeada…
 
Os 9 rostos desta família aproximaram-se, agradeceram a Deus este almoço, fecharam-se num círculo apertado e de furchetes e colheres em punho, e com fatias de broa de milho na outra mão atacaram alegremente as couves com feijões fumegantes…   
 
 Albertino olhou para a sua família humilde, mas momentaneamente feliz… experimentou uma sensação de paz interior, pois começou a acreditar que os seus filhos não iriam apanhar silicose!
 

Quem acode a São Jorge?

 

 

São Jorge está a morrer! Quem lhe acode?

 

Não é de agora. Há muitos anos que vemos São Jorge a definhar, a perder o seu fulgor, dinamismo, iniciativas… as gentes são cada vez menos, os idosos predominam e, o mais preocupante, começa a instalar-se uma crença pessimista de que não há nada a fazer, isto é mesmo assim…
Já teve grupos de teatro, uma equipa de futebol prestigiada, um rancho infantil, um club cross, entre outras manifestações culturais de uma comunidade viva…
Os escuteiros parece que estão por um fio… se é que não acabaram já, o Estrela da Serra parece que está em “coma profundo” há bastante tempo…
O espaço museológico não mostra sinais de vida…
Entretanto os monumentos vivos da cultura são-jorgense – as pessoas mais idosas - vão-nos deixando e vai-se apagando e perdendo a essência de São Jorge: a sua CULTURA, os seus hábitos e modos de vida, os seus valores e toda a história que dá sentido e explica porque existe uma Comunidade neste lugar…
Alguém registou a imensa sabedoria sobre chás e mezinhas que a Ti Barata divulgava a todos os que se queixassem de alguma maleita?
As inúmeras histórias e incidentes do salta-e-pilha onde estão narradas?
Alguém deu continuidade ao excelente levantamento e tentativa de interpretação do Códice de São Jorge, realizado há uns bons anos pelo Dr. Júlio César Baptista? (conto voltar a este tema brevemente!).
Muitos dos marcos históricos da vida das Minas foram protagonizados por são-jorgenses… Onde estarão estes factos documentados?
Os saberes sobre as Regadias, a construção comunitária das presas, a partilha de horas de água estarão narrados? Onde?
O quotidiano dos inúmeros moinhos de água estará documentado?
O forno comunitário, as responsabilidades das forneiras, as regras da sua utilização conhecem-se? Quem as descreve?
Os lagares que existiram, o fabrico artesanal do azeite e as famosas couvadas aí confeccionadas farão parte das memórias de quem? Ainda se poderão localizar esses engenhos humanos?
Os pastores, que tão bem tocavam realejo e as suas histórias sobre lobos, animais mágicos, cobrões, sobre as aves de rapina que roubavam cabritos… os lobisomens que apareciam do meio do sapouch!
O ritual da matança do porco que era aliciado para fora do curral com uma cesta a chocalhar milho, acompanhada de expressões carinhosas: “fcá, fcá, fcá ... croch, croch, croch…!
As courelas escombaradas e cavadas  por ranchos de homens e mulheres… as debulhas do milho… os ganhões e os carros de bois a chiarem dos Cabecinhos aos Lameiros!...
Bom, nem tudo estará esquecido ou mesmo perdido e muito poderá ser registado e narrado… depende apenas de nós!
 Registe-se o dinamismo da banda filarmónica e o fulgor das iniciativas da comunidade são-jorgense em Dusseldorf, Alemanha…
Existem ainda actividades e manifestações de cariz religioso em torno da Igreja que ainda vão mostrando algum dinamismo e dedicação, embora a idade média da maioria dos devotos e praticantes deixe adivinhar que, se nada for feito, em breve poderão acontecer rupturas e paragens nestas actividades…
A Sagrada Família ainda é visita regular das nossas casas, os altifalantes da Igreja ainda ecoam as liturgias, o sino da igreja ainda vai dando horas mais ou menos certas, o que revela vida e crença!
A fogueira do Natal esteve à Eira e terá sobrevivido alguns dias, embora tenha perdido o fulgor de antanho em que – contam os mais velhos – durava até aos Reis??!!!
O ligeiro nevão que nos visitou deixou-a (à fogueira de Natal) neste mísero estado… embora já tivesse perdido as brasas há algum tempo e as chamas terão sido mesmo breves…
Felizmente que a Banda Filarmónica continua a pulsar… apesar das dificuldades!
Entre o Natal e o Ano Novo – pelos dias do nevão em São Jorge – tive oportunidade de ouvi-la em tarde carregada pelo “sapouch” que cobria boa parte de São Jorge e, presumo que em ensaio, até o “parabéns a você” saiu bem afinado e em aceleração final, como é usual fazer-se nas ditas comemorações.
À(o) aniversariante os meus votos para que continue a demonstrar ao vivo a sua cultura musical. São Jorge bem precisado está!
Também o Clube lá vai funcionando como um espaço de convívio e, de facto, as tardes de sábado e domingo ainda se apresentam com algum calor humano, visível nas cavaqueiras à entrada do Clube e nas partidas de sueca, no seu interior, habitualmente inspiradas em rodadas que devem ser pagas pelos menos dotados nas cartas… ficando habitualmente a consolação: “azar às cartas… sorte no amor!”
E, claro, o Centro de Solidariedade Social que, enquanto principal empregador (?) de São Jorge e prestador de cuidados sociais e de proximidade, assegura qualidade de vida e bem-estar a um número cada vez maior de são-jorgenses!
 
Mas, sente-se que São Jorge está a morrer…
 
Nesta quadra natalícia e por duas noites consecutivas, entre as 21h e as 24h estuguei o passo, pisei a neve, respirei de modo ofegante, aqueci os pés e apreciei luzes e sombras da grande maioria das ruas, quelhas e escadarias de São Jorge…
Confesso que, salvo à porta do Clube, à Cruz-da-Rua (junto ao café do Peixoto) e à Ponte, não tive o privilégio de sentir o calor de vozes são-jorgenses…
De facto, em todas as restantes ruas, quelhas e escadarias, fosse ao Quintal, no Adro da Igreja, ao Passadiço, à Eira, ao Rodeio, ao Pombal, aos Torgais, à Costa, aos Cabecinhos, à Amoreira, ao Terreiro, nada se ouvia a não ser a chuva e o ranger dos meus sapatos, ora na neve, ora na calçada… acho que só me cruzei com uma pessoa, quando descansava por momentos nas alminhas da Capelinha, local onde relembrei emoções e imagens de quando teria 2 a 3 anos e ouvia histórias ao colo do meu bisavô!
Várias vezes passei junto da casa de pedra onde está instalada a  “Associação da Juventude Sãojorgense”, em frente da loja da Ti Silvina, e aí abrandava o passo, punha o ouvido à escuta e tentava ver algum sinal para lá da janela, onde umas luzinhas de Natal piscavam uma pálida luz, quase envergonhada, tentando dizer-me…  “olha que aqui não há ninguém…”
 
Mas da última vez que por lá passei, já tinham batido as onze da noite no sino da Igreja, e depois de não sentir vivalma e estando quase a dobrar a esquina , em frente à casa da família dos Coelho, ouvi uma voz jovem e acolhedora que, vinda da Associação da Juventude Sãojorgense me chamou…
- Olá, boa noite. Não quer entrar? Venha aquecer-se ao pé de nós e falar um pouco da nossa Aldeia!...
Admirado, pois ao passar não tinha pressentido vivalma, virei-me e vi um jovem são-jorgense que respirava alegria e de mãos abertas me convidava a entrar…
- Obrigado. Aceito. Quase a correr voltei atrás e subi as escadas que antecedem a porta de carvalho antigo (?) que guarda a AJS!
Cumprimentei o jovem simpático que me acolheu para o interior da casa e reconheci nele traços de um amigo de infância que partilhou comigo a carteira da escola da Ponte!
A sala, embora modesta e pequena, acolhia mais de uma dezena de jovens; uns consultavam a Net, em 2 PC, enquanto os restantes se distribuíam por 2 pequenas mesas redondas, onde 4 jogavam às cartas e outros consultavam revistas e desdobráveis, parecendo estarem a programar actividades culturais…
Exactamente no meio da sala uma salamandra redonda irradiava um calor acolhedor.
O meu jovem cicerone passou a apresentar-me aos presentes e a explicar-me as actividades da AJS…
- Aqui funciona o “Canto dos Roteiros”, isto é, agendamos e realizamos visitas guiadas às memórias da nossa Aldeia; temos em programação cerca de 20 passeios por São Jorge, uns curtos, dentro da própria aldeia… Tá a ver os prospectos? …  E visitamos vários locais com significado, onde descrevemos o que já lá funcionou, as pessoas que lá habitaram, as actividades que se realizaram lá… Em todos os passeios procuramos que as pessoas mais antigas e mais conhecedoras possam testemunhar as suas vivências.
- Por exemplo, temos o passeio aos largos (Eira, Adro, Cruz-da-Rua, Amoreira, Passadiço, Terreiro, Quintal e Rodeio); é um passeio de 2h e destina-se especialmente aos filhos dos nossos emigrantes.
- Temos outros passeios temáticos; por exemplo, o passeio às regadias, minas e presas, dura 5h e é de dificuldade média; temos o passeio aos moinhos de água e lagares, dura 6h e é mais duro, pois começamos nos Cambões.
- Temos o roteiro dos mineiros, que são 2 passeios de dificuldade elevada, durando um 6 horas e o outro 10h, pois um começa nas Meãs e o outro termina na Covanca e que ilustram o quotidiano dos nossos mineiros a irem para o Vale de Ermida, para a Panasqueira e para a Barroca Grande.
- Temos o roteiro dos cereais, também de elevada dificuldade, pois visitamos todos os locais agrícolas onde se semeava milho e centeio.
- Temos alguns passeios mistos, por exemplo este desdobrável explica 2 roteiros do observador de aves e animais selvagens: um começa na Eira, Cortevale, Barreira Branca, Vale dos Coelhos e Betouril, Aradas, Aldeia das Aradas, Meães, Coimbrão, Portela, Quebrada, Seixo, Mina da Selada, Fraga do Penico, Fontanheira e termina no Pombal; o outro ainda é mais longo e duro pois é a clássica ida ao Picoto, pela Portela e regresso pela Fonte Fria e capela de Santa Bárbara.
- Temos ainda passeios às Minas, organizadas com a máxima segurança; estamos a planear o roteiro das Torvas, com a presença de um espeleologista e de um técnico de segurança e este passeio não pode ter mais de 6 participantes…
- Aqui funciona o “Canto do Teatro & Espectáculos” e temos programado vários teatros de rua, com a participação de associações teatrais do nosso concelho. Estamos a reactivar o rancho folclórico, num misto de grupo de cantares e de instrumentos de corda… Vamos amanhã cantar as janeiras!
- Deste lado temos um misto de pequena biblioteca & São Jorge em Imagens com muitas publicações que nos interessam e também um conjunto de escritos, imagens e publicações sobre São Jorge. Pensamos realizar uma exposição fotográfica e de objectos tradicionais, apoiados em colóquios e debates no próximo verão, aproveitando a presença dos nossos emigrantes. Vamos depois publicar no nosso site e em papel uma obra sobre a história e a cultura de São Jorge.
- Temos ainda aqui o “Canto do futuro” onde imaginamos coisas boas que podem acontecer em São Jorge, para além de ideias e projectos que podem ser de turismo ambiental, estamos a programar actividades para as escolas do nosso concelho e estamos a trabalhar com várias entidades, incluindo uma universidade, etc. Ainda são segredo, por isso não lhe posso dar mais detalhes!...
 
- Fico surpreendido com tantas ideias e iniciativas, retorqui-lhe, não escondendo algum embargo na voz… Embora esteja fora, também me disponibilizo para apoiar e participar, caso…
- Precisamos mesmo do apoio de todos os são-jorgenses, atalhou o jovem dinamizador de alguns projectos da AJS… Ao convidá-lo a visitar-nos, não escondo, foi também essa a nossa motivação…  Queremos contar consigo!
Deixados os meus contactos e identificadas algumas necessidades onde eu poderei ajudar, despedi-me… Antes de abrir a porta, olhei para trás e senti uma enorme alegria por ver todo aquele dinamismo… Numa noite de inverno 12 jovens estavam a assegurar o futuro de São Jorge…
De facto, o título desta crónica deveria ser “ São Jorge está a construir o seu futuro…”
 A realidade crua e dura…
No meio da rua, ouvindo bater a meia-noite, com farrapos de neve a pesarem-me no guarda-chuva e olhando para a loja que foi da Ti Silvina, senti o frio da noite e… repentinamente… virei-me e vi as escadas que dão acesso à AJS cheias de neve imaculada, sem qualquer rasto… Levantei os olhos e o silêncio era total… a AJS estava fria, fechada e lá dentro não se sentia o pulsar de ninguém… nem mesmo as pálidas luzinhas de Natal da véspera espreitaram à janela!
Que pena… Esta visita à AJS não passou de um sonho!!!

 

Porque a assinatura "CorteVale"?

Por tantas razões… enumerá-las seria quase impossível.

CorteVale é um vulcão de imagens, de emoções, mas também a quietude de um lugar com sentido…

CorteVale!


Lembra-me o Fiel, cão majestoso e seguro, que me deixou montá-lo quando tinha 4 anos.

Conduz-me à presa da Buraca, onde tantas vezes me refresquei, depois de longas horas de futebol na Portela,


Recorda-me o barro azul que apanhei na barreira junto ao ribeiro, com que moldava bonecos e figuras que levava para a escola da Ponte…

Ainda hoje saboreio diospiros que me lembram a frescura e a doçura da CorteVale.

Foi à Cortevale que o meu avô me mostrou uma camisa de cobra, que pus à volta do pescoço, julgando ser um cachecol largado por um avião que passava lá no alto!


Á CorteVale aprendi a raspar, a “escombarar”, a cavar… a dosear o esforço e a rilhar os dentes para aguentar as borregas nas mãos.

À Cortevale aprendi a guardar cabras, a sentir a sua afeição e a alegria das marradas dos cabritos,

Também à CorteVale aperfeiçoei a arte de fazer cola a partir dos botões de seiva das macieiras e das pereiras,

Fiz caravelas com conocos e camisas de maçarocas de milho… experimentei fumar barbas de milho… brinquei às carduçadas com os amigos da Costa… 

 

Assombrava-me quando tinha que ir à mina, assustava-me o esvoaçar do pássaro que fugia do fresco da penumbra da mina…


A porta do curral era um hino à reutilização dos materiais… uma palmilha de um sapato de borracha virou a dobradiça da porta!

E o Fiel conduzia as cabras para o curral e sentava-se à porta, barrando-lhes a saída!

 

À CorteVale saboreei couves e feijões comidos com um garfo de azinheira, feito pela minha avó!


À CorteVale poisava, estafado, os molhos de mato e de lenha que trazia do Vale dos Coelhos…

 

Hoje é um espaço aparentemente abandonado… A CorteVale… sempre que estou em São Jorge tento ir até lá… pela paz e serenidade interior que experimento, mas também pela energia que é libertada por tantos braços que trabalharam nesta breve planura…

 

A CorteVale faz-me evocar ainda milhares de outras imagens e emoções… pessoas, vozes, olhares, entreajuda… sensações de confiança, também de angústia, de medo…e de esperança…

 

A CorteVale é um lugar sagrado para mim… dá sentido a todo o meu ser!

 

cortevale@sapo.pt

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda sobre São Jorge...

Afastado quase um mês deste espaço de partilha de sensações, conhecimentos e experiências, continuo focado em São Jorge...

Pudera: hoje é o dia da Liberdade - 25 de Abril - e há 2 dias foi a festa do padroeiro da nossa aldeia, também o dia dos Escuteiros e ainda o dia do Livro...

Três comemorações se celebraram dia 23 de Abril e que posso associar da seguinte maneira:

Dia dos Escuteiros -  harmonia com os outros e com a natureza,

Dia do Livro - fonte de crescimento e conhecimento,

Dia de São Jorge - raízes culturias e memória...

 

De facto, o equilíbrio, o conhecimento e a memória podem ser 3 âncoras para o nosso crescimento pessoal...

Partilho 3 olhares sobre a nossa terra...

 

 

Trata-se de uma vista parcial, tomada entre o alto do Pombal e a Fonte Cimeira, em dia soalheiro, mas frio, nos idos dias do passado mês de Novembro...

 

 

 

Agradável local onde mergulhei em Novembro passado... água rija, que me deixou bem disposto! Onde será?

 

 

 

Local bem conhecido de todos os Sãojorgenses... Habitualmente ao fim de tarde levanta-se uma brisa leve que apazigua escaldões e tardes tórridas passadas ora em mergulhos, ora em longos períodos de "plástico ao sol"...

 

 

Quem quer jogar às adivinhas?

Continuo nostálgico pela minha aldeia!

Quem consegue adivinhar? Que local é este?

Pois é, parece a cabeça de uma tartaruga gigante que se encantou por esta terra e... por cá ficou!

Também há quem veja a cabeça de uma anaconda  que se deixou aprisionar pelo encanto de um moinho de água que lhe fica à esquerda, mas hoje totalmente em ruínas... quem cuida dele?

 

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