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Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

Caminho das Pedras ...

“… DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." V. Ferreira

O Menino que tinha vergonha de pedir esmola!

 

 

Eram tempos difíceis.
 
Os invernos eram bem mais agrestes que nos dias de hoje. Pelo menos doíam mais!
 
O frio parecia uma carraça agarrada às orelhas e ao nariz… os dedos das mãos e dos pés inchavam com as frieiras e até as canelas eram lambidas pelo maldito frio!
 
 
 
Não havia meio de passar, o raio do frio; parecia que São Jorge tinha sido amaldiçoada pela sorte… Cristo esquecera-se daquele ermo…
 
Parecia que os cavaleiros do apocalipse visitavam com regularidade a nossa aldeia… a fome devorava muitas faces… na escola da ponte havia dias em que mais que um miúdo desmaiava com a fraqueza. “Deu-lhe o fanico, comentávamos nós ao assistir a este misterioso “cair redondo no chão”… quando, momentos antes, no recreio, tínhamos corrido uns atrás dos outros a jogar à peçonha…
 
Não sei se as comezainas de hoje, em que se come e bebe como se não houvesse comida e bebida na quinzena seguinte, pois em S. Jorge tudo se celebra à volta de grandes pratadas e tachadas, não pretendem compensar os famintos tempos idos, incluindo os anos 50 e 60 do século passado!
 
De facto, nesses tempos rapou-se muita fome…
 
A mina despediu muitos mineiros que depois se desnortearam nas muitas tabernas da aldeia…
 
A sorte era madrasta para os são-jorgenses, pois nas alturas das festas aconteciam aquelas tragédias… “mais um mineiro esmagado por um liso”!
 
A gastroenterite levou ranchos de bebés e crianças… houve semanas em que íamos mais que uma vez ao cemitério transportando, com os olhos rasos de lágrimas, leves urninhas alvas…
 
Até o tanque do lodo da Panasqueira rebentou, inundando e queimando muitas hortas lá para os lados do Vale-do-Muro, reduzindo ainda mais as magras colheitas de algumas famílias de mineiros…
 
Houve cheias que arrastaram e mataram sonhos ainda meninos, transportando tragédia e luto carregado a famílias numerosas, sendo ainda hoje visíveis sinais de destruição desde a Archã até à Corte Cratão…
 
A emigração levou consigo as algazarras da Cruz-da-Rua  para as franças, as alemanhas, as bélgicas e outras longínquas paragens.
 
O luto, a tristeza, as mágoas da emigração e a calma aparente ocuparam as ruas e o espírito da aldeiazinha da minha infância que, até aí, tinha sido, alegre e bucólica…
 
 
 
Até parecia que nós, as crianças daquele tempo, tínhamos perdido os sorrisos e a inocência pueril…
 
Mas não!
Felizmente continuávamos a sonhar e ser solidários, à nossa maneira, uns com os outros, apesar das traquinices e algumas pequenas malvadezes…
 
Vi-o pela primeira vez à Eira. Foi à Eira que convivemos durante a sua breve passagem por São Jorge. Era franzino e parecia ter a minha idade… Apesar de vestir roupa remendada e já usada por outras crianças que entretanto cresceram; tinha uma postura quase distinta, corajosa, frontal, nos seus 6 ou 7 anos… fiquei curioso e quis conhecê-lo…
 
Cruzamos o olhar, e senti-lhe o frio e o estômago quase colado às costelas… mas com um olhar digno e nada amedrontado por estar no meu território, nem me olhava subserviente, receoso…
Admirei-lhe esta maneira de falar comigo sem quebrar o silêncio… Foi assim durante vários dias em que esteve em São Jorge. Não falávamos muito, quase não tagarelávamos… quase não era preciso trocar palavras para pressentir o que o Menino do Peso (acho que era do Peso… ou seria do Ferro?) estava a pensar…
 
O pai deste menino tinha o ar de quem quase tinha desistido de viver… arranjava cestos, cabazes e cestas de verga e outros pequenos trabalhos, que as pessoas lhe davam mais por esmola que por reais necessidades…
 
Nesses dias friorentos, dias em que o frio dói mesmo, eles dormiam onde calhava… ora num coberto, atrás da palha, ora num palheiro ou numa loja, partilhando a cama com cabras, a quem agradeciam o precioso calor tépido que emprenhava o ar e subia através dos soalhos para o piso superior das casas de pedra…
 
A melancolia do Menino do Peso raramente era quebrada por um sorriso… a morte da mãe tirara-lhe o dom de sorrir naturalmente e ao pai a vontade e a energia de viver e lutar pela vida… o próprio pai parecia uma pessoa doente, sentado nas escaleiras da Eira à volta com os cestos de verga…
 
O desespero invadia o rosto do Menino do Peso sempre que o pai lhe dava uma saca e um cântaro de latão e lhe dizia…
 
Vá! Agora vai pedir às portas!...
 
A saca era para o milho, alguma broa, uma rara posta de bacalhau seco, uma raríssima chouriça de farinha ou um bocado de carne gorda embrulhada em papel grosso e o cântaro era para os raríssimos centilitros de azeite que alguma alma caridosa pudesse dispensar naqueles tempos em que a fome também habitava em muitas casas de S. Jorge.
 
O pai ameaçava-o e o Menino do Peso recusava-se, tentando dizer que preferia passar fome e da grossa, a ir pedir às portas…
 
Uma ideia assaltou-me a mente! Fiz-lhe sinal que aceitasse a saca e o cântaro e viesse comigo…
 
“Ô tiá Maria, Ó tiá d’Jesus, Ó Tiá Laura… dê uma esmola pra este menino”, gritava eu de porta em porta com a saca e o menino com o cântaro na mão…
 
Tivemos sucesso a maior parte das vezes e ao chegarmos à Eira o Menino do Peso contrariado entregava os donativos ao pai que, nestas alturas e só nestes momentos, sorria por brevíssimos instantes…
 
A última vez que fomos pedir, a nossa ronda foi muito fraca… só uma mísera medida de milho e uma fatia de broa conseguimos apurar no fundo da saca…
 
Estava a conseguir compensar a colheita, com mais milho e uma broa, para além de uma chouriça, quando, ao despejar duas boas canecas cheias de azeite do pote de barro que descansava por baixo da cantareira, tudo confiscado na nossa cozinha, a minha mãe nos apanhou com a boca na botija!...
 
Da aflição, passei à justificação e ela lá aceitou os meus argumentos… sem antes me repreender por tamanho rombo na dispensa lá de casa…
 
Recordo a corrida que demos da Capelinha até à Eira e, mais uma vez o olhar sorridente do pai do Menino do Peso quando lhe entregou a saca bem recheada e o cântaro, donde escorria algum azeite aprisionado à pressa…
  
 
Gostaria de encontrar o Menino do Peso para lhe dar um abraço e lhe agradecer estas vivências tão profundas, pois foi com ele que aprendi algumas lições de solidariedade e a lutar contra as adversidades!

 

 

 

 

O Caminho da Capela

 

Os segredos do Caminho da Capela…

Demorou mais de hora e meia, com paragens para recuperação do fôlego e para dar descanso aos joelhos doridos, a ida desde a Cruz-da-Rua até à Capela para movimentar o corpo e alargar a vista, sentado na breve escadaria em lousa, na base do monumento do Sagrado Coração de Jesus.
 
Os altifalantes do relógio da Capela encheram-lhe os ouvidos com a melodia repetitiva das duas da tarde!
 
Apesar da ligeira brisa, um pouco friorenta, sentiu-se aquecido pelo sol tímido desta tarde mesmo em cima da Páscoa de 2009… Ajeitou o boné do Benfica e passeou o olhar pelo Povo aconchegado, concentrou-se de seguida na torre alva da igreja e levantou o olhar para as enormes pás do gerador eólico que pareciam ceifar os pinheiros lá no alto da Abesseira
 
Gostava de ir mais vezes à Capela, mas cada dia que ia lhe parecia mais difícil; mas não podia desistir, não tanto pelo exercício que exigia às suas cansadas e frágeis pernas, mas pela oportunidade das viagens que podia fazer aos seus sonhos, uns realizados e outros ainda por realizar, mas muito bons para acertar contas e se pôr em paz com memórias e emoções que o inquietavam e angustiavam…
 
Esta já era a 82ª primavera que estava a viver e lembrava-se, como se fosse hoje, que quando tinha 8 anos, fazia nuns míseros 5 minutos, e se fosse preciso, várias vezes ao dia, o caminho da Eira à Capela… E agora não conseguia baixar da hora e meia… mas ficava a consolação de que as viagens de hoje ficavam cheias de aventuras, histórias e sonhos visitados, enquanto que aos oito anos apenas sentia o sibilar do vento nas orelhas, provocado pela velocidade que conseguia atingir nessas corridas…
 
Ao olhar para a Ponte começou a recordar que foi também pela Páscoa, mas na de 1964, que lá em baixo, às 5 da manhã, apanhou a carreira… para a emigração… a carreira gemia com o peso das mágoas que levava consigo!
 
 
Foi nessa Páscoa que emigrou para França, mais precisamente para os arredores de Belfort…
 
Demorou quase quatro dias a chegar a Belfort e não pregou olho naquela rocambolesca viagem em que rapou frio, enjoou a merenda e em que as angústias e as saudades da mulher, dos filhos, dos pais, das irmãs, dos amigos, dos lugares da aldeia, das minas não o deixaram pregar olho entre as camionetas e os comboios que teve de apanhar, carregando a mala da roupa e o malote da merenda que foi partilhando com os companheiros desta viagem não desejada por nenhum deles…
 
Alguns dos conterrâneos que o esperaram na estação, à chegada a Belfort, ainda o desanimaram mais…
- “Olha que isto está difícil… se não fosse por vergonha e se soubesse que nas Minas me voltavam a admitir quem regressava era eu”, disse-lhe, à chegada a Belfort, um primo afastado…
 
A esta distância é com ironia que reconhece que, nestes momentos difíceis, por vezes, os familiares mais próximos desajudaram, enquanto que outros conterrâneos que não passavam de vizinhos se revelaram os verdadeiros amigos deste acabrunhado e desalentado sanjorgense longe de casa …
 
Ao chegar à casa onde ia ficar e onde se partilhavam quartos, cozinhas e casas-de-banho, propriedade da entreprise de construção civil onde iria trabalhar, um vizinho sanjorgense, já com uns anitos de França e uns bons anos mais velho que o nosso aprendiz de emigrante, puxou-o para o pé de si, apontou-lhe uma cama arranjada, no outro canto do quarto, junto a um armário para guardar os seus pertences.
 
Sentou-o à mesinha junto à janela e serviu-lhe uma excelente sopa de legumes bem quente que tinha feito de propósito para o receber… Ainda hoje lembra, com saudade, este amigo já desaparecido que o reconfortou e aqueceu com aquela sopa divinal… mais do que a fome apaziguou-lhe as mágoas e a saudade…
 
Terminada aquela grande malga de sopa, que lhe reconfortou o estômago que passara os últimos quatro dias a sandes, viu o amigo mais velho puxar da carteira e retirar cuidadosamente uma grande nota de 500 francos novos e dirigindo-se ao aprendiz de emigrante disse-lhe, estendendo-lhe a nota, “esta estava guardada para ti!”
 
Perante a relutância em aceitar a nota o amigo mais velho disse-lhe, “guarda-a, podes precisar dela! A mim não me faz falta nos tempos mais próximos.”
 
Mas nos dias que se seguiram, perante as dificuldades de adaptação ao trabalho nos andaimes dos altos prédios em construção, as saudades e a tristeza por ter a família tão longe e, especialmente, porque ouvia constantemente as lamentações e os desânimos dos conterrâneos mais novos, que o criticavam dizendo-lhe… “não sabes o que perdeste, teres saído do trabalho que tinhas fora da mina e vires para aqui!…”, o desalento foi ganhando terreno.
 
Estava quase a fazer 3 semanas que estava em Belfort e as coisas só pioravam… ainda não tinha conseguido dormir uma noite sossegado… adormecia uma meia-hora cada noite e depois… volta para aqui, pensamentos desvairados para acolá e… mais nada… não pregava olho em toda a noite!
 
Além da tristeza que o não largava, andava cada vez mais acabrunhado pois receava cair dum andaime ou da grua onde também trabalhava!
 
Basta! Decidiu que aquela não era a sua vida. Ia desistir.
 
Falou com o encarregado  nesse mesmo dia à noitinha e disse-lhe que se ia embora para Portugal, no dia seguinte de manhãzinha, no comboio das 7 da manhã. Falou com um espanhol, colega de trabalho, que lhe prometeu levá-lo na sua carripana à estação do comboio, às 6 da manhã do dia seguinte… 
     
Estranhamente ou não, nessa noite dormiu como uma criança … das 9 da noite às 5 e meia da manhã… Acordou e sentia-se muito bem! Pela primeira vez em terras francesas tinha dormido uma noite inteira; estava bem disposto e foi com alguma pena que pegou na mala e no saco da merenda e, depois de se despedir do velho amigo que lhe fez aquela sopa especial e lhe ter devolvido a nota dos 500 francos novos de que já não iria precisar, saiu à procura do colega espanhol que tinha ficado de o levar à estação dos caminhos de ferro de Belfort. Já não era muito cedo, pois ainda tinha que comprar o bilhete…
 
 Esperou, esperou à porta do escritório e… do colega espanhol... nem sinais... Nada…
 
Já eram quase 6 e meia e os emigrantes começavam a sair dos quartos para se dirigirem para as obras quando lhe apareceu o encarregado e lhe perguntou se não ia apanhar o comboio… O nosso aprendiz de emigrante sanjorgense contou-lhe que o espanhol não aparecia…O encarregado riu-se e disse-lhe que o espanhol tinha estado nos copos até às tantas e seria um milagre se ele se conseguisse levantar lá para o meio-dia, para trabalhar, quanto mais para o ir pôr à estação… devia ser lindo!
 
“Olhe que esta noite dormi mesmo bem… estou como novo e muito bem disposto, retorquiu-lhe o nosso conterrâneo!”
 
“Mas porque não ficas? Porque não vais trabalhar?” Disse-lhe o encarregado.
"Tenho aqui a tua ficha que ia levar para o escritório… vai mas é picar o ponto e força, que isso já passou… Preciso de trabalhadores como tu e agora mais descansado vais ver que te vai correr tudo muito melhor!..."
 
O nosso amigo sanjorgense sentiu aquele momento como especial e viu no encarregado um sinal de esperança, de que deveria começar ali a sua saga de emigrante e disse ao encarregado… “obrigado pela sua confiança. Vou-me já despachar ”.
 
 
Foi a correr pôr a mala no quarto, deu um abraço ao velho amigo que o ajudou no primeiro dia, que lhe segredou… “Bem-vindo ao mundo dos emigrantes!...”. Vestiu o fato-macaco, agarrou no saco com a merenda e estugou o passo para pegar às sete em ponto!
 
Sentiu que tinha feito o seu luto e já tinha ultrapassado o momento difícil de adaptação a uma terra e gentes diferentes. Cheio de energia foi para o trabalho, com a convicção que tinha mesmo que ganhar a vida, pois acreditava num futuro diferente para os seus filhos e numa casa nova em São Jorge! 
 
45 anos depois, nesta Páscoa de 2009, reformado há uns bons anos da mina, das franças e das alemanhas o nosso conterrâneo, na casa dos 82 anos, ainda teve forças para ir da Capela ao Cemitério e depois de passar pelas campas dos familiares mais chegados ainda dirigiu pensamentos de admiração e reconhecimento junto à campa do velho amigo que tão bem o acolheu quando chegou tão desalentado a Belfort!
 
 
De regresso ao Povo, já passava das cinco da tarde, ia matutando com os seus botões…
“Quem diria que um passeio até à Capela me iria guardar para esta viagem tão longa… Andei pelas Franças e pela década de 60 do século passado… que grande viagem!!!”
 
Ao dobrar a curva aos Covões deu consigo a murmurar… “esta viagem é para ser guardada por ti, Caminho da Capela!”
 
 
“Qualquer dia partirei para outra grande viagem…”

 

 

 

 

Ilustres São-jorgenses

 

Um grande Homem de Cebola
 
Chama-se Albertino por uma razão especial.
Podia chamar-se Augusto ou Manuel, ou mesmo Joaquim ou…
 
 
Tinha mesmo que parar!
 
Os pulmões pareciam que iam rebentar a todo o momento.
Albertino arfava descontroladamente a subir a vereda empinada para o Vale-de-Ermida…
 
Sentou-se numa pedra fria já perto da boca da mina, onde já dava o sol matinal daquele domingo gelado dum inverno duro, nos idos anos de 61!
 
- Maldita sorte, murmurou Albertino… A caminho dos 41 e já se sentia corroído pela maldita silicose…
 
Com cuidado e afecto, poisou o cabrito que trazia como um cachecol à volta do pescoço, afagou-o e protegeu-o do frio, metendo-o na saca que tirou do bolso do casaco de ganga azul e aconchegou-o no seu colo.
Do outro bolso tirou a onça de tabaco e começou a enrolar um cigarro, enquanto apreciava a vista parcial que tinha de Cebola… Dali via o Pombal, o Rodeio, a Capela, uma nesga do Povo e claro os Torgais…
 
Saíra de casa ainda não tinham dado as 6 da manhã no sino da Igreja e já tinha andado quase 1 hora… Saiu ainda estava bem escuro, pois ninguém precisava de saber aonde ia… mas a geada era muita… teve que ter muito cuidado a descer ao Cascalhal, onde havia degraus cheios de gelo; também ao subir a canada do Ribeiro-do-Souto todos os cuidados foram poucos… ainda lhe soava o barulho característico das suas botas cardadas a pisarem a terra encramelada, ao passar junto aos pinheiros da Abesseira…
 
Passada a barreira branca teve que começar a ter cuidado com os desmontes, as torvas, as pequenas minas e as trincheiras abertas pelo pessoal do salta-e-pilha… onde também trabalhavam as suas irmãs e o irmão dispensado da Mina!
 
Apesar de tudo Albertino considerava-se um homem com sorte… tinha escapada à lista dos dispensados das Minas, pois continuavam a considerá-lo um mineiro de primeira!
 
Teve que concentrar-se ao passar pela Fraga Alta, pois aí o gelo estava bem mais perigoso e um tombo daquelas alturas era morte certa!
 
O pior era a maldita silicose, pensou ele!
 
Já com a respiração mais calma e com o cigarro a meio lembrou-se da tristeza que estariam a sentir os seus filhos mais novos… A mulher bem lhe disse às 4 da manhã…
- É melhor levantares-te já, Albertino… a ver se as cachopas não dão conta que levas o cabrito da Charentita… senão é uma choradeira.
 
Depois da dejua, por volta de cinco e meia, Maria meteu-lhe uma bucha no bornal que o acompanhava sempre que saía por umas horas; Albertino foi espreitar o quarto das 4 cachopas que dormiam sossegadas, duas para a cabeceira e duas para os pés da cama e no quarto de baixo, ao lado da loja os 3 cachopos, mais velhos, também estavam ferrados a dormir!...
Dois já trabalhavam na Correia e era do futuro deles que era preciso ir tratar! Seria bem-bom que o Sr. Engenheiro os conseguisse puxar para a Carpintaria ou para a Oficina… o mais velho até se ajeitava bem com as coisas da luz eléctrica!
 
Queira Deus que se livrem da Silicose! Murmurava enquanto olhava a serra do Picoto esbranquiçada e mordiscava o cigarro que lhe queimava a garganta sempre que dava uma fumaça!
 
Pois. Era por causa da Mina que ia esta manhã friorenta a caminho da Barroca Grande!...
 
Evitou passar à boca da galeria para não ser visto pelo guarda e estugou o passo já no estradão mais plano. Queria ver se ainda conseguia regressar a tempo da missa das 11, pois também não queria dar explicações a ninguém…
 
A parte mais difícil já estava!
 
O cabrito pressentia que tudo ia ser diferente e ao Albertino doía o coração sempre que sentia os seus gemidos misturados com o hálito quente que lhe aquecia o pescoço.
 
Ainda experimentou a dúvida… ainda hesitou e esteve a um passo de voltar para trás, mas a dureza da vida e o futuro dos cachopos plantava-se-lhe ali à frente… Estas dúvidas dissiparam-se quando, subitamente, começou a ver, lá em baixo, o aterro da Barroca Grande e a Lavaria à esquerda, enquanto que o Hospital das Minas lá estava ao fundo à direita da estrada... Também as carreiras com as pequeninas casas dos mineiros à esquerda da estrada e… ironia das ironias a Capela ficava do outro lado da estrada, do mesmo lado das vivendas do staff, assim como o Escritórios das Minas, onde semanalmente ia receber a jorna de 90 escudos, num envelope que cuidadosamente guardava no bolso interior da jaqueta de trabalho e entregava religiosament à sua Maria, mal chegava a casa, ao fim do dia… Como a estrada serpenteava pela encosta abaixo e separava dois mundos bem diferentes!
 
Albertino afastou estes pensamentos desestabilizadores; problemas já tinha de sobra… as 8 bocas lá de casa não permitiam grandes ousadias!
 
Evitou a estrada, optou pela vereda que passava por trás dos Escritórios das Minas e embrenhou-se por entre sebes, ciprestes e árvores de grande porte que ladeavam e escondiam as vivendas dos Senhores Engenheiros… Por voltas do campo de ténis viu que ainda era cedo – oito menos um quarto – e resolveu esperar uns minutos mais… até às 8, oito e picos! Com o lenço vermelho enxugou os suores frios que lhe humedeciam o cabelo e o pescoço, ajeitou a gorra, vincou o casaco de ganga azul, limpou as botas cardadas numas ervas que cresciam mesmo junto à sebe, acalmou o cabrito e voltou a resguardá-lo na saca…
 
Enrolou mais um cigarro e puxou umas boas fumaças mesmo atrás da sebe que escondia a casa do Sr. Engenheiro.
 
 Timidamente espreitou por cima da sebe e pareceu-lhe ver o Sr. Engenheiro a terminar o seu pequeno almoço e a ler o jornal na sala de estar da casa, ao lado de uma acolhedora lareira, onde crepitava um lume acolhedor…
 
Albertino acabou o cigarro, esperou mais uns minutos, ganhou coragem e depois de respirar fundo e voltar a ajeitar a gorra dirigiu-se à porta da casa e, antes de bater, deixou a saca com o cabrito a uns metros, mesmo atrás de um canteiro e… tocou a campainha.
 
A porta abriu-se e uma empregada elegante, num bonito avental imaculadamente branco, com um peitilho cheio de rendas azuis e de olhar penetrante inquiriu…
- Bom dia, que deseja?
- Bom dia menina, desculpe-me bater tão cedo, retorquiu o Albertino. O Sr. Engenheiro está? Queria dar-lhe uma palavrinha, se faz favor…
A zelosa empregada, vendo-o de mãos a abanar, reagiu de imediato…
- Não, não está.  Com sua licença… E fechou-lhe a porta na cara.
 
Albertino ficou surpreso! Saiu para o pátio, pegou na saca com o cabrito e regressou para trás da sebe e voltou a espreitar a sala e confirmou que o Sr. Engenheiro já tinha acabado de comer e continuava a ler o jornal, agora sentado num sofá mesmo ao lado da lareira…
Deixou passar uns bons 15 minutos e voltou a fazer tudo como dantes; escondeu o cabrito, ajeitou a gorra, esticou o casaco de ganga azul, limpou as botas e voltou a bater à porta…
A empregada com pouca elegância respondeu-lhe com alguma aspereza, depois de o ver de mãos vazias, que o Sr. Engenheiro não estava!!!
 
Albertino não queria crer no que via e ouvia… sem deixar fechar a porta pegou na saca e apertou com força o pescoço do cabrito; este berrou, ouvindo-se um prolongado e altíssimo mééééééééé!!!
 
De imediato se ouviu a voz do Sr. Engenheiro:
- Entre! Entre. E dirigiu-se para a porta, convidando Albertino a entrar!
- Entre, se faz favor….
 
Oferecido o cabrito, uma prenda dos cachopos que trabalhavam na Lavaria e conseguida a promessa do Sr. Engenheiro de que iria fazer os possíveis pelo futuro dos cachopos, e que era capaz de arranjar umas vagas na Oficina e encaixá-los lá, Albertino desculpou-se por ter incomodado e despediu-se, prometendo um presunto, o paio do porco e umas chouriças de lombo lá para o Carnaval…
 
Estugou o passo estrada acima, pois já tinham batido as 9 horas havia um bom bocado…
 
No caminho, ainda teve tempo para meter qualquer coisa na boca… a bucha que a mulher lhe meteu no bornal soube-lhe que nem ginjas… meia morcela com uma boa fatia de broa e a acompanhar duas boas goladas da bota de vinho…
 
Quando descia a canada para o Ribeiro-do-Souto tocou à missa, eram dez e meia… ainda conseguia chegar a tempo da missa das 11!   
 
   
Depois da missa e já à mesa para o almoço de domingo, a duas semanas do Natal de 61,  Albertino teve de reconfortar as filhas magoadas e cheias de saudades e com pena do cabrito da Charentita, que iria certamente preencher uma das refeições do Sr. Engenheiro, enquanto que as 9 bocas da casa do Albertino depois de uma malga de sopa das couves com feijões, começavam agora o segundo, uma grande travessa de barro com o enxume das couves e feijões, regadas com azeite e 3 bocados de entremeada…
 
Os 9 rostos desta família aproximaram-se, agradeceram a Deus este almoço, fecharam-se num círculo apertado e de furchetes e colheres em punho, e com fatias de broa de milho na outra mão atacaram alegremente as couves com feijões fumegantes…   
 
 Albertino olhou para a sua família humilde, mas momentaneamente feliz… experimentou uma sensação de paz interior, pois começou a acreditar que os seus filhos não iriam apanhar silicose!
 

Histórias de São-jorgenses I

 

Um São-jorgense com Assinatura!


Devo-lhe esta crónica!
 
Propositadamente não revelarei o seu nome. Pouco importará. Também não acredito que ele se importe!
Falo de um São-jorgense que me marcou e com quem tive o privilégio de partilhar ideias, reflexões e me tocou pela sua humildade, paciência, capacidade de ouvir e sabedoria nas perguntas profundas e inteligentes que tão bem sabia colocar.
Ainda recordo a sua voz coloquial, bem colocada, usando as palavras precisas, quase imbatível nos diálogos e combate de ideias… ora usando um tom irónico, ora se socorrendo da lógica ou das questões penetrantes e profundas com que desenvolvia uma argumentação fundamentada, nada arreigada a crenças e… acima de tudo, não usando, nem abusando do seu estatuto de “mais velho” e de senhor duma cultura imensa!
O seu olhar vivo e penetrante, acompanhado pelo tom alegre e provocador que emprestava às questões e argumentos com que me interpelava constituíam um imenso desafio que não podia deixar de aceitar durante as férias grandes e pela fresca, depois das tórridas tardes de verão que arrasavam São Jorge!
Anos 70 e anos 80, pelo verão este ilustre são-jorgense vinha carregar baterias à nossa aldeia, descansando das suas lides eborenses… Desconheço pormenores da sua actividade e ele próprio era muito parco nos comentários sobre os seus afazeres profissionais e evitava falar disso, desviando elegantemente a conversa,  quer nas cavaqueiras no Sorna, quer nestes passeios que dávamos à tardinha!...
Mesmo nas discussões sobre autores latinos e cultura romana não invocava quaisquer estatutos, não puxava de galões, nem me lembro de alguma vez ter invocado as suas credenciais e estudos realizados; só muitos anos mais tarde me apercebi de que nestes passeios eu questionava e tentava explorar contradições de um eminente latinista e paleógrafo, pois foi co-autor da famosíssima tradução da legenda latina e sua localização no Novo Testamento!
Pouco importa que tenham dado o seu nome a uma modesta rua nos arredores de Évora, cidade onde viveu grande parte da sua vida…
Tento imaginar os passeios que daria em Roma, nas proximidades do Vaticano, já que foi aluno e trabalhou no Pontifício Colégio Português, sito na Via Nicoló V, a dois passos da Basílica de São Pedro.
 
Também o imagino a observar casais apaixonados junto à Fontana di Trevi e acredito piamente que passaria horas deleitado a observar os relevos históricos da epopeia narrada na famosíssima Coluna de Trajano!...
Certamente teve acesso às catacumbas da Basílica do Vaticano, onde estão sepultados os Papas e terá sido tocado por uma paz interior especial quando em presença do humilde sarcófago de São Pedro, iluminado por luz ténue, logo após os degraus em caracol que se iniciam na porta discreta, situada no piso principal da Basílica, mas disfarçada na enorme coluna de mármore que se ergue quase a meio, em frente e à esquerda de quem entra neste enorme espaço sacro.
Terá ainda contemplado a soberba La  Pietá de Miguel Ângelo que repousa à entrada, do lado direito da Basílica… o sofrimento real duma mãe impotente com o filho morto ao colo!  
Este São-jorgense sabia ouvir e era mestre a colocar questões que testavam a nossa segurança e argumentos, sem nunca menorizar o meu raciocínio ingénuo e idealista que, naqueles tempos, povoava a maioria das mentes inquietas dos jovens São-jorgenses!....     
As conversas estimulantes sobre filosofia e psicologia e sobre as pequenas coisas da vida e do nosso quotidiano conturbado dos anos setenta alimentavam quer longas conversas à cruz-da-rua, quer os diálogos que enchiam de prazer os passeios que fazíamos até à ponte, à capela e às eiras-das-casas…
Nos anos 80, mais concretamente entre finais de 86 e princípios de 87, assinou 7 crónicas em “O Mineiro” sobre São Jorge.
Tive acesso a estas publicações porque o meu pai as recortou e guardou religiosamente em álbum próprio; mais abaixo reproduzo imagens de algumas destas crónicas que merecem ser destacadas e apresentadas na mostra fotográfica que se pretende realizar brevemente em São Jorge!!!
Trata-se de informação histórica muito preciosa sobre a vida, os habitantes e os costumes de São Jorge Antigo que importa conhecer, divulgar e tentar preservar.
Vejamos uma síntese de cada uma das 7 crónicas publicadas por este São-jorgense que pesquisou e interpretou os registos, anotações e descrições constantes num livro muito especial, de enorme valor, e guardado na nossa Igreja Paroquial - O CÓDICE DE CEBOLA.
Crónica I - São jorge da Beira - Um Códice de Aldeia 

 

 
uma imagem de qualidade modesta do Códice de São Jorge, que começou a ser organizado em 1762 e é composto, segundo a narrativa deste São-jorgense, por 150 folhas, de grande formato, laboriosamente anotadas pelos párocos que serviram na nossa Aldeia....

 
Crónica II - Matrizes e Filiais - Antes de ser paróquia Cebola pertenceu outras paróquias... com histórias bem curiosas!!! 

 
Crónica III - As iniciativas e incidentes que conduziram à Criação da Paróquia em Cebola...

 
Crónica IV - Detalhes  e pormenores sobre a autorização histórica da Rainha D. Maria I para a construção da Igreja (velha) e curiosidades sobre a Igreja Nova...

 
... foi demorada a construção da Igreja em Cebola... difíceis eram os tempos!

 
Crónica V - A vida dos Curas e as dificuldades em angariar sustento...

 
Crónica VI - Usos e Costumes relativos às liturgias e rituais religiosos... muitos são os detalhes!

 
Crónica VII - Pormenores da diocese e visitações dos bispos a Cebola... com referências às invasões francesas!!!

 

 Esta preciosa pesquisa, realizada por este ilustre São-jorgense, poderia ser transcrita e apresentada na mostra fotográfica, a realizar (espera-se) a breve prazo... Seria interessante que alguém com tempo e conhecimentos pudesse aceder ao CÓDICE e aprofundasse esta investigação, pois o nosso interessante conterrâneo lamenta, por vezes, não ter tido o tempo suficiente para uma análise e interpretação mais profundas...

 

Haverá alguém que aceite este Repto? Continuar esta valiosíssima Pesquisa sobre o nosso passado comum? 

 

(Re)Vejo a face alegre e os olhos brilhantes deste sábio São-jorgense que certamente ficará entusiasmado se alguém continuar o seu trabalho.

 

Quem aceita este Legado?

 

 

São Jorge Antigo IX - A Luz Eléctrica!

 

A inauguração da Luz Eléctrica em São Jorge, ou melhor… em Cebola!
 
 
 Fecho os olhos e ainda hoje revejo o clarão de luz branca que momentaneamente me cegou…
 
Quase toco a nitidez e a luminosidade que invadiu o guarda-loiça, a mesa e as cadeiras que habitavam a nossa sala da casa-de-cima, à Capelinha, quando, à noitinha, o meu pai ascendeu, pela 1ª vez, a mágica LUZ ELÉCTRICA que, ainda por cima, começou a morar num globo branco, que aumentou "milhões de vezes" as respectivas velas... empalidecendo mortalmente o pavio que até aí brilhara na chaminé de vidro do candeeiro de petróleo, que não teve outro remédio senão envergonhar-se e recolher-se num canto escondido da cantareira, donde saía magestoso quando a luz eléctrica se ia abaixo, o que, infelizmente, acontecia com regularidade nos idos anos de 60!...
 
Relembro o "milho zaburro", semeado em caixas da pólvora e deixado a crescer na escuridão das lojas, ao lado das arcas de milho e de mantas e da salgadeira e que, no dia da inauguração da luz em São Jorge, decorou portas e janelas e, quando tocado pelo sol, parecia uma verdadeira seara de oiro ondulante!
 
Só muito mais tarde percebi este efeito tão especial... qualquer planta que seja forçada a crescer privada da luz solar veste-se de um amarelo-dourado, devido à sua falta, tão necessária à clorofila, a roupagem verde das plantas...
 
Aquela torrente de luz funcionou como um murro de estrelas no meu cérebro (teria eu 6 ou 7 anos)  e, provocou, de facto, uma grande transformação em mim... teve um enorme impacto… Aí nasceu a minha primeira vocação… ser electricista e aprender a manusear essa magia escondida nos fios, cujo esplendor tocava tudo o que me rodeava e que aprendi a respeitar depois de uns valentes choques eléctricos!
 
Depois de ter conseguir puxar uma baixada de luz para a ameixoeira que se espreguiçava para cima do telhado da cozinha (nessa altura vivíamos à Capelinha) e experimentados uns valentes choques, especializei-me em voltagens mais reduzidas… Consegui colocar uma pilha de 9 volts e um bico de luz no anexo de madeira - a retrete exterior da nossa casa – que era iluminada sempre que a porta do dito anexo era fechada…
 
Devido a tal feito, considerei-me diplomado e pronto a fazer as minhas próprias instalações eléctricas com voltagens mais sérias... Habitualmente a casa era sacudida por enormes estrondos no quadro-da-luz, demonstrando-me que estava a ser perito em provocar... curto-circuitos!
 
Acredito que a inauguração da luz na nossa terra contribuiu para um aumento significativo do rendimento escolar, pois ainda me lembro do deleite que sentíamos nos serões em que fazíamos os trabalhos escolares e líamos à luz... eléctrica!
 
Lá em casa e nas casas vizinhas, toda a gente em idade escolar queria fazer serão todos os dias... para estudar... parecia tudo muito mais fácil, pois tudo brilhava de forma assombrosa e víamos com nitidez não só os cadernos e livros religiosamente encapados como também toda a sala era um palco de luz, enquanto  que antes - à luz do candeeiro a petróleo -  nos esforçávamos imenso para ler a 20 cm de distância e tudo o resto era escuridão... facilmente os olhos começavam a lacrimejar, o sono invadia-nos e... claro... os trabalhos escolares ficavam a meio!
 
Não me lembro com muita nitidez, mas também o medo do escuro quase desapareceu por completo ou se reduziu imenso... pois a luz eléctrica espantou, de uma acentada, quer as almas do outro mundo, quer a morte vestida de negro e que empunhava aquela brutal foice de lâmina brilhante, quer o homem da saca, quer mesmo os lobisomens que habitualmente viviam nas zonas de penumbra das nossas casas e se projectavam nas paredes sob os efeitos das chamas ondulantes e ténues do lume da chapa, das lamparinas, velas, candeeiros... e outros artefactos equivalentes!
  
De facto, a partir dessa altura estudar era uma brincadeira de crianças...
 
A coragem também aumentou... pois conseguíamos gerar escuridão ou espalhar torrentes de luz de acordo com as nossas conveniências....
 
Dava comigo a fechar a maioria das luzes e a impressionar os meus irmãos e vizinhos mais pequenos, contando-lhes histórias de lobisomens com 3 metros de altura, no mínimo, que ora vinham sozinhos pela penumbra da noite espreitar às vidraças embaciadas da cozinha, ora se faziam acompanhar de algumas almas penadas que gemiam no escuro do corredor e produziam um bafo quente (bafo gélico eu não conseguia produzir...) nos pescoços dos meus aterrados companheiros de fantásticos e fantasmagóricos serões!... O realismo que emprestava à minha simulação era tal que, por vezes, eu próprio me aterrava e sentia um frio na espinha com o realismo que emprestava àquelas teatralidades... e acendia imediatamente as luzes... pudera!
 
Com o tempo e a rotina, a magia da luz eléctrica foi-se perdendo, assim como desapareceram as noites de breu e as escuridões que geravam em nós o pavor e nos levavam a gritar... "fujam que vem lá o medo!"
 
Com a banalização da luz eléctrica o respeito pelo escuro apenas se pressentia nas visitas fugazes ao forro mal iluminado e habitado por ratos que andavam de motoreta ou à enorme loja, onde a miserável luz de vinte velas era esmagada pelas sombras das dornas, das pipas de vinho e das enormes arcas... que encerravam, para além das mantas e do milho, coisas misteriosas e... talvez os lobisomens e as almas penadas e... claro o senhor medo!!!  
 
Os fantasmas que a luz eléctrica matou e os medos que fechou a sete chaves!!!
 
Alguém sabe qual a data exacta em que foi inaugurada a luz eléctrica em São Jorge? Ou melhor, a data em que, na nossa infância, aprendemos a lidar com os medos e em que estudar e fazer os trabalhos da escola era um prazer?!
 

São Jorge Antigo VIII

 

MEMÓRIAS DE ONTEM
VIVÊNCIAS DE HOJE
 
 
ONTEM – O PASSADIÇO
 
Este é o Passadiço na sua humildade e na sua pobreza, tendo-se notado sempre um certo desleixo. Muitos ainda se lembram dele.
 
No rés-do-chão havia lojas que serviam de arrecadação e estábulo para animais.
Não era local limpo e, por vezes, muito mal cheiroso. Do tecto pendiam restos de palha que, misturados com teias de aranha, completavam o ambiente.
 
Era formado por duas casas unidas à altura do terceiro piso e por uma cobertura, construída em madeira tosca (falheiros) e que serviu sempre de palheiro. A casa da esquerda pertenceu a António Matias e foi sempre casa de habitação. A casa da direita pertenceu a meu tio, Moisés Pereira, que foi,  em tempos idos, casa de habitação e posteriormente serviu de arrecadação para pasto de animais.
As lojas do lado esquerdo serviram de arrecadação e as do lado direito foram utilizadas para estábulo de animais.
 
 
 
 
Reparemos que as três casas que se vêem na foto foram construídas de xisto e barro, materiais usados em todas as habitações da nossa aldeia e existentes em abundância na nossa região. (A nossa terra era digna de pertencer às aldeias do xisto, pois a maioria das casas foram construídas com este material. Com o andar dos tempos, começaram a rebocá-las e a pintar de branco pois houve a ideia de que as casas por caiar era sinal de pobreza).
 
Do lado esquerdo e mais próximo do fotógrafo, em finais dos anos 40, houve um barracão, pertencente a José Francisco Baptista, que servia de armazém a materiais de construção e outros. Entre este barracão e a casa de António Matias, havia uma serventia particular para os quintais de Joaquim Duarte Baptista e traseiras da sua residência.
Daqui nasceu em finais da década de 50 a Rua Nova da Igreja para dar acesso àquele templo religioso.
 
À entrada do Passadiço, vemos, em pose, duas meninas da Panasqueira que, em tempo de férias, vinham até Cebola dar o seu passeio, tendo uma delas namoriscado um dos muitos estudantes que então aqui havia.
 
Em primeiro plano, vemos uma filha de José Augusto Alves que vinha das hortas, de cesta na mão, e que não quis importunar o afortunado fotógrafo, que creio ter sido Jorge de Almeida Baptista ou António Mendes Bento, jovens estudantes na altura.
 
Em segundo plano, vemos uma criança do sexo feminino, na levada da água, bem encostada ao muro e que assistia, talvez pela primeira vez, àquele trabalho.
 
Lá ao cimo, à entrada da Travessa da Rua Direita, uma mulher, vestida de negro, que presumo ser minha mãe, Ti Piedade “do Fundo”, que dava conta da ocorrência.
 
No cantinho da minha memória recordo que, depois do alargamento do Corredouro, passaram por aqui os primeiros automóveis, (3 ou 4) com toda a garotada da aldeia correndo atrás e em grande algazarra, fazendo os condutores milagres de condução, pois a rua era à medida da canga  dos bois. Chegaram à Eira, porém, sem conseguirem evitar alguns riscos.
 
A povoação acabava aqui. Era o fundo do povo. Para nascente, não havia casas de habitação.
É de notar que algumas pessoas que aqui viviam aumentavam ao seu apelido o termo “do Fundo”, aparecendo mesmo em documentos oficiais, para assim se diferençarem de outras pessoas que tinham o mesmo nome.
 
Todos os nossos antepassados passavam por aqui:
 
Passavam por aqui os ganhões que, com a sua junta de bois, saíam ainda “d’alpardo”,
regressando alta noite, em passo lento, calçada acima, animados apenas com o chiar dos carros, carregados dos mais diversos produtos;
 
Passavam ainda por aqui os nossos familiares, jovens, crianças e mulheres, muitas delas com o “rulo” à cabeça com o último “rebento” nascido há pouco que, de sol a sol, cultivavam as magras leiras de onde, a poder de muito trabalho, angariavam algum sustento para si e para os seus.
 
Passavam sempre por aqui os mineiros, mais apressados na descida e mais lentos na subida, fazendo-se ouvir o barulho das suas botas brochadas por toda a aldeia;
 
O Passadiço era passagem obrigatória para os mineiros de Cebola, excepto os mineiros da Avesseira e alguns do Ribeiro do Souto que, para encurtar caminho, passavam pela levada do Fundo do Vale.
 
Estes “heróis do trabalho” nunca receberam as honras nem as distinções dos heróis nacionais, a não ser o magro salário que no fim de cada mês, em envelope fechado, depositavam no colo da esposa, para que ela governasse o seu agregado familiar.   
 
Estes homens, heróis mineiros que, morrendo na flor da vida, deixando mulher e a sua prole, geralmente bastante numerosa e que enriqueceram o país com o seu trabalho árduo e infra-humano e ”enterrados vivos”, bem merecem ser lembrados, em monumento simples.
Era um sinal a perpetuar a memória daqueles mártires do trabalho que partiram, levando a imensa mágoa de deixarem esposa e filhos, muitos ainda por acabar de criar.  
 
 
HOJE – O LARGO DE SÃO JORGE
 
Aqui, no Largo de São Jorge, por onde todos os mineiros passavam e que, como “toupeiras humanas”, tiravam do interior da terra o “ouro negro” que a todos enriquecia, excepto o trabalhador que empobrecia e precocemente morria, minado pelo mal de mina, a “Silicose”, ficava a lembrança, para os vindouros recordarem aqueles que partiram.
 
Todos nós teríamos alguém para recordar e uma prece se elevaria aos Céus por todos os nossos mártires mineiros.
 
Em1954 o Passadiço foi adquirido pela Junta de Freguesia, presidida por Augusto de Almeida, assim como as casas envolventes: a de Moisés Pereira, a de António Matias, a de Joaquim Bernardino e a de José Gonçalves. De todas elas apenas a de José Gonçalves foi reconstruída, tendo sido alinhada pela casa de Pedro Alves, que actualmente serve de sede à Junta de Freguesia e pela casa que foi de Joaquim Duarte Baptista.  
 
Assim nasceu este lindo Largo de São Jorge, que muitos chamaram Largo dos Paralelos e Largo do Passadiço e, até, por ironia, Arco do Triunfo.
 
 
Agora mais encantador ficou com nova iluminação e novo calcetamento. 
 
Ao centro, no chão, vemos uma representação heráldica: o brasão de São Jorge da Beira, tendo ao centro, como não podia deixar de ser, o gasómetro, sempre necessário ao mineiro; o lobo, animal abundante na nossa região e temido por todos; o cristal, sinal de riqueza, saído das nossas minas; e a castanha que era um dos principais alimentos dos nossos antepassados.
 
É de lembrar que os primeiros mineiros a trabalhar nas minas eram homens de Cebola e que em 1898 já havia exploração de volfrâmio em filões mais superficiais, havendo também já nesta mesma data uma lavaria manual muito rudimentar.
Nesta data já lá trabalhavam cerca de cem pessoas, sendo a grande maioria, homens de Cebola. 
 
Carlos Baptista Pereira

 

 

P.S. Obrigado Prof. Carlos pelo excelente esclarecimento e resposta às questões que coloquei no post "São Jorge Antigo I" - http://covita.blogs.sapo.pt/6917.html .

 

 

"O Fantasma de José Júnior"

 Hesitei durante muitos dias se deveria partilhar aqui – neste blog pessoal, mas pouco intimista - o meu olhar sobre esta  tragédia que aconteceu em São Jorge há uns bons 35 anos!...

 

Decidi-me! Os meus leitores merecem-me esta confiança!

 

Mexer nas nossas memórias sensíveis e mal resolvidas é, no mínimo, incómodo...

 

Todos temos telhados de vidro e todas as comunidades e povos têm “sótãos” onde se guardam e se esquecem (ou se reprimem) factos, acontecimentos, emoções e experiências, cuja revelação nunca é fácil e, a maioria das vezes, é dolorosa!...

 

Saúdo a lucidez e a coragem do Vitor e dos nossos conterrâneos que o têm acompanhado nesta reflexão e agitação das mentalidades e faço votos para que não se transforme numa catarse recriminatória, mas antes numa oportunidade para que na nossa terra não se repitam práticas de abandono, de exclusão e de violência como as que vitimaram o José Júnior!

 

Sejamos  honestos. Estas tragédias não se abateram só sobre o José... quem não se lembra de outros nossos concidadãos, mesmo crianças, que, votados ao abandono e escorraçados pela nossa comunidade, se afundaram em tragédias pessoais de desfecho igualmente chocante e que terão deixado alguns Sãojorgenses mais atentos e sensíveis completamente chocados ou mesmo destroçados?

 

Que o “fantasma do José Júnior”, título da crónica de Saramago, seja um bom fantasma para todos os Sãojorgenses e nos mantenha de espírito alerta e permanentemente lúcidos para sermos capazes de apoiar e socorrer aqueles que, ao menor sinal de alarme, se queiram despedir precocemente da vida ou desistir de serem felizes, mergulhando na valeta para onde a nossa indiferença e desdém os tem empurrado...

 

Não será que esta obsessão permanente de competição uns com o outros, em que a ética e a moral não abundam, não nos consome e aliena e não vitima aqueles que, por maior sensibilidade ou fragilidade emocional, não querem participar neste “jogo”?

 

                   

 

Há mais de 10 anos, inquietado por esta tragédia do José Júnior, desatei a oferecer em dias de aniversário de familiares esta “Viagem a Portugal”, de José Saramago, trata-se de uma viagem aos afectos, à cultura e também às angústias e fantasmas das comunidades e populações... recomendava, na altura, a leitura das páginas 141 a 143...

 

 

 

Ironicamente nunca nenhum dos meus, a quem ofereci o livro, tomou a iniciativa de discutir abertamente esta crónica – “o fantasma de José Júnior”... trata-se, de facto de 3 páginas que são um verdadeiro espelho, onde podemos espreitar o nosso rosto de SãoJorgenses e... não gostamos, de facto, do que vemos reflectido nesse espelho mágico!...

 

     

 

Não somos obrigados a gostar do que lá está escrito, mas temos a responsabilidade de aprender a evitar que algo semelhante aconteça ao nosso vizinho, ao nosso conterrâneo emigrado, ao nosso familiar, ao nosso colega dos bancos da escola!... seja ele do Pombal, da Cruz-da-Rua, da Capelinha, da Costa, do Rodeio, dos Torgais, da Ponte, do Porto, do Quintal...dos Cambões, do Vale, da Panasqueira, esteja ele no Canadá, na Alemanha, na Suíça, ou seja ele um ser humano desconhecido que esteja perto de nós!

 

 

 

Também a tragédia de José Júnior se cruzou comigo!

 

No ano lectivo de 72/73 dava aulas de educação física na Escola (na altura Comercial e Industrial) Campos Melo da Covilhã... foi a minha primeira experiência profissional a sério! Na altura hesitava entre estudar para professor de educação física, vir a ser psicólogo (o que acabou por acontecer) ou estudar advocacia. Como o ginásio da escola, onde eu dava aulas, ficava praticamente ao lado do tribunal da Covilhã aproveitava o fim das aulas para assistir discretamente a julgamentos e apreciar o funcionamento da justiça e (o que mais me interessava na altura) observar o desempenho, ora dos juízes, ora dos delegados do ministério público e... claro, as prestações dos advogados na barra de tribunal...

 

Numa tarde de um dia soalheiro, eram réus alguns jovens Sãojorgenses que tinham expressões de incrédulos... parecia que o céu lhes tinha caído em cima... estavam esmagados pela realidade que até aí lhes fora inconsciente?...Como terá sido possível que “brincadeiras estúpidas” e comportamentos inconscientes e desculpabilizados pelo efeito do álcool tivessem desencadeado aquela tragédia?!!! Pensariam eles e as não mais de uma dúzia de pessoas que comporiam a sala de audiências... 

 

Já não me lembro exactamente de qual foi o veredicto, nem isso importará, mas lembro-me de que passaria pela cabeça de alguns dos presentes que o José Júnior é que teria estado no sítio errado e tombado de forma errada no meio de uma "brincadeira inocente"!.. Muitas consciências terão ficado aliviadas quando o juiz perguntou (a um familiar?) que pena ou reparo pedia a família ao tribunal e... numa voz humilde, tímida e fortemente constrangida terá balbuciado que eram bons rapazes, filhos de famílias humildes e trabalhadoras, coitados fizeram aquilo sem querer e toldados pelo vinho... que os mandasse em paz!

 

 Na altura pensei que talvez fosse mais útil uma pena do género: "sois condenados a correr mundo durante 10 anos e ajudarem a levantar da lama todos os seres humanos que encontrardes despojados e que tenham desistido de viver..."

 

 

Provavelmente ficaremos mais em paz com o José Júnior e com nós próprios sempre que conseguirmos evitar, nem que seja por um só dia, que alguém viva os momentos trágicos que ele viveu... estas atitudes para com os nossos semelhantes serão bem mais úteis que uma qualquer tabuleta numa qualquer esquina de São Jorge!  

 

Cortevale

 

 

São Jorge Antigo VII

Vasculhando pastas antigas e apontamentos sobre São Jorge... eis que encontro mais "postais" que registam os cortejos de oferendas, tudo em prol da angariação de fundos para a construção da Igreja Nova (presumo eu!)...

 

 

Saltam à vista vários pormenores...

Os mirones (carlotos?) que assistem à passagem do cortejo de oferendas, na "bancada" pouco confortável que é a parede, à direita, onde as pessoas se misturam com pilhas de telhas (?!) em equilíbrio instável e roupa a secar...

Lá ao alto, no Passadiço, à equerda o barracão de madeira (não era o armazém do gás do Sr. José e do Sr. Jorge da Eira, que tinham a loja de lanifícios e outras utilidades no dito largo?...

E claro, as pessoas, de fato domingueiro, com as notas presas nas lapelas dos casacos?!

 

A meio do cortejo, bem atrás do bombo maior, é visível um "andor" carregado com presunto, chouriços de lombo, paios...(será a fome que me tolda a vista?!!!), enquadrado por cestos de oferendas à cabeça das moçoilas com trajes tradicionais...

Mas, vejamos mais de perto:

 

  

Quem será esta criança, aqui à esquerda e em primeiro plano, com vestes humildes e descalça (?), que quase se confunde com a cor do caminho ou da calçada? Será que olha esfomeada para os cestos recheados com tantas guloseimas e petiscos no meio de tantos enfeites, transportados por mulheres tão andrajosas?  Criança só e ignorada por todos os cortejantes, que lhe viram as costas!

 

Mas vejamos outros detalhes no cortejo das oferendas:

 

Em primeiro plano algumas crianças acompanham os "percursionistas" (performers): bombos, pífaros e aqui mesmo à frente o ritmo a ser marcado pelo manipulador dos bonecos em madeira... de que não me lembro o nome...

 Ah! e o Ti Bernardo (?) ao lado do bombo maior...

 

Vejamos um plano mais aproximado...

 

 

A seguir o cortejo das oferendas em pormenor:

 

 

À esquerda os moçoilos engravatados e de mãos a abanar!... à direita as andrajosas jovens carregam os cestos de oferendas e aqui mesmo à frente o andor recheado...

 

Ai São Jorge! O que muitos dos teus filhos fizeram por ti e nada tiveram em troca !!!

 

 

 

 

São Jorge Antigo VI

A SAGA DA CONSTRUÇÃO DA IGREJA!

 

Antes e durante a construção da "nova Igreja" organizaram-se inúmeros ranchos de oferendas, onde as Aldeias Anexas à freguesia de Cebola marcaram presença....

 

 

Cestos, çafaites (açafates) e cabazes cheios de oferendas - queijos, chouriços, presuntos, aguardentes, e mesmo... oiro, para não falar nas notas de 50, 100 e mesmo de 1000 escudos, fixadas por alfinetes nas lapelas dos casacos dos homens da terra!...

 

 

Lembro, vagamente, uma procissão iniciada já na igreja nova e com um andor (presumo que de São Jorge), carregado e tapado de notas... revejo uma vaga imagem de um único envelope no meio das notas que cobriam todo o andor do padroeiro!...

 

Alguém terá tido o cuidado (e o prurido) de não ostentar notas na imagem do santo e daí este gesto de discrição... ainda criança, registei este comportamento de um(a) Sãojorgense anónimo(a)?... gostaria de saber quem foi que teve esta atitude... Claro que por modéstia, já visível no gesto do envelope, presumo que essa pessoa preferirá continuar no anonimato!...

 

 

À esquerda, a congestionar "a procissão", parece estar a "furgoneta dos Almeidas", esse eterno veículo que, de gemido em gemido e soluço em soluço, subia até à Eira e nunca deixou os condutores mal colocados...

 

Era como o Táxi do Ti Camilo... devagarinho e soluçando lá ia para todo o lado! 

 

E eu enjoava que me fartava, pois no meio dos solavancos, cheiro a gasóleo e os cigarros do Ti Camilo, era impossível manter o estômago calmo!...  

 

São Jorge Antigo V

A Infância em Cebola!

 

Pelas caras - reconheço algumas - podemos presumir que se trata de uma imagem tirada há uns bons 60 anos... Provavelmente no final da década de 1940, início de 50!

Pelo fundo da imagem percebemos que foi tirada à Capela!

Note-se a "religiosidade" do acto de tirar a chapa... algumas das crianças de Cebola têm as mãos postas!

No primeiro plano da imagem uma criança mostra-nos algo! O que será?

 

 

 

Apesar de alguns breves sorrisos das meninas da fila de trás, impera o ar de respeito e algumas expressões sisudas.

Será que este grupo de crianças se encontrou num domingo à tarde, à Capela, para uma sessão de Catequese?

 

Espero outros olhares e comentários!

 

 

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